sábado, 13 de fevereiro de 2010

John Updike

AÇORES

Grandes navios verdes
      eis que navegam
ancoradas, para sempre;
      sob as águas

enormes raízes de lava
      prendem-nas firmes
a meio do Atlântico
      ao passado.

Os turistas, pasmando
      do convés
proclamam aos guinchos lindas
      as encostas malhadas

de casinhas
      (confettis) e
doces losangos
      de chocolate (terra).

Maravilham-se com
      os campos graciosos
e os socalcos
      feitos à mão para conter

Os modestos frutos
     das vinhas e das árvores
importadas pelos portugueses:

paisagem rural
     vindo à deriva
de há séculos;
     a distância

amplia-se.
     O navio segue.
Outra vez a constante
     música alimenta

Um vazio à popa,
    os Açores sumidos.
O vácuo atrás e o vácuo
    à frente são o mesmo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

JACQUES PREVERT

Para desenhar um pássaro






Pintar primeiro uma gaiola
com uma porta aberta
pintar depois
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
pendurar depois a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
escondermo-nos atrás do tronco
sem falar
sem um gesto...
às vezes o pássaro chega depressa
mas também pode acontecer que demore muitos anos
antes de se decidir
Não se desencorajem
Esperem
esperar anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da vinda do pássaro
com o êxito do quadro
quando o pássaro chegar
se acaso chega
guardar o mais rigoroso silêncio
esperar que ele entre na gaiola
e depois dele entrar
fechar docemente a porta com o pincel
depois
apagar um a um todas as grades
tendo o cuidado de nunca tocar nas penas do pássaro
desenhar depois a árvore
escolhendo o mais belo dos seus ramos
para o pássaro
pintar igualmente a verde folhagem e a frescura do vento
a poeira do sol
e rumor dos bichinhos da erva no calor do verão
e esperar que o pássaro cante
Se o pássaro não canta
é mau sinal
indica que o quadro é mau
mas se ele canta ai que bom
é sinal que podemos assinar
nessa altura arranca-se suavemente
uma das penas do pássaro
e escreve-se o nosso nome num canto do quadro.




Jacques PREVERT (1900-1977)