domingo, 21 de março de 2010

NO DIA MUNDIAL DA POESIA

ABEL E CAIM


Raça de Abel, comes e adormeces,
Deus sorri e abastece


Raça de Caim, sempre em tormentos,
Roja-te e morre entre lamentos.


Raça de Abel, teus sacrifícios
São gozo para os anjos orifícios.


Raça de Caim, teu castigo
Não tem fim por muito antigo?


Raça de Abel, tua cultura floresce,
Teu gado sem doengas cresce.


Raça de Caim, no teu ventre
Um cão esfomeado uiva descontente.


Raça de Abel, a lareira patriarcal
Aquece-se do cocuruto ao anal.


Raça de Caim, no teu antro,
Pobre chacal, tremes de frio e espanto.


Raça de Abel, copula e reproduz-se,
Tudo lhe rende, conclui-se.


Raça de Caim, coração em brasa,
Cuidado, os grandes apetites trazem desgraça.


Raça de Abel, cresces e pastas,
Mais prolífera do que baratas.


Raça de Caim, pelos caminhos
Para repouso não terás ninho.


II


Ah! Raça de Abel, vossas tripas e mioleiras
farão um estrume de primeira.


Raça de Caim, se continuas assim,
Tua desgraça não terá fim.


Raça de Abel, morderás o pó
O ferro será quebrado numa lança só.


Raça de Caim, mais lamentos? não!
Assalta o céu e deita deus ao chão.

Charles BAUDELAIRE

AS FLORES DO MAL

quarta-feira, 17 de março de 2010

Aldo Pellegrini

"El días después", Miguel Oscar Menassa


Em voz baixa
para poder atravessar a fragilidade do teu sonho
far-te-ei a revelação das formas
contar-te-ei a beleza
daquilo que nunca se vive
as maravilhas que nascem imprevistas da intensidade
do ardor
ensinar-te-ei a caminhar firmemente sobre a escuridão
a iluminar a noite com os desejos
a investigar o segredo imortal
as aventuras graciosas alinhadas pela ordem cronológica
da vigília
apagá-las-á o sonho que busca a mulher que todos
recusam
a mulher que acende o seu espírito caído nas
maravilhas do amor
Eu
desperto
prego a absurda técnica da irresolução
imóvel
em voz baixa
te revelo
que o mundo é uma majestosa mentira inventada pelo
bom humor dos mártires.


Aldo Pellegrini, surrealista argentino
(tradução de Tiago Nené)