sábado, 12 de novembro de 2016



Leonard Cohen morreu? Nem penses, velhos desses apenas adormecem

 
Velho demais Estou velho demais
Para decorar os nomes
Dos novos assassinos
Este aqui
Parece cansado e ataente
Devotado, profissional
Ele se parece muito comigo
No tempo em que ensinava
Uma forma radical de Budismo
Para os insanos sem salvação
Em nome da velha
Mágica sagrada
Ele ordena
Que famílias sejam queimadas vivas
E crianças mutiladas
Ele provavelmente conhece
Uma ou duas de minhas canções
Todas elas
Todos que banharam suas mãos em sangue
E os mastigadores de vísceras
E escalpeladores
Todos eles dançaram
Ao som dos Beatles
Todos adoraram a Bob Dylan
Prezados amigos
Poucos de nós restaram
Silenciados
Tremendo sem parar
Escondidos no  meio do sangue –
Fanáticos chocados
Enquanto testemunhamos uns aos outros
A velha atrocidade
A velha e obsoleta atrocidade
Que levou para longe
O apetite ardoroso do coração
E acanhou a evolução
E vomitou preces

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

“So Long Marianne” (1967)

Come over to the window, my little darling,
I’d like to try to read your palm.
I used to think I was some kind of Gypsy boy
before I let you take me home.
Now so long, Marianne, it’s time that we began
to laugh and cry and cry and laugh about it all again.
Well you know that I love to live with you,
but you make me forget so very much.
I forget to pray for the angels
and then the angels forget to pray for us.
Now so long, Marianne, it’s time that we began …
We met when we were almost young
deep in the green lilac park.
You held on to me like I was a crucifix,
as we went kneeling through the dark.
Oh so long, Marianne, it’s time that we began …
Your letters they all say that you’re beside me now.
Then why do I feel alone?
I’m standing on a ledge and your fine spider web
is fastening my ankle to a stone.
Now so long, Marianne, it’s time that we began …
For now I need your hidden love.
I’m cold as a new razor blade.
You left when I told you I was curious,
I never said that I was brave.
Oh so long, Marianne, it’s time that we began …
Oh, you are really such a pretty one.
I see you’ve gone and changed your name again.
And just when I climbed this whole mountainside,
to wash my eyelids in the rain!
Oh so long, Marianne, it’s time that we began …

So long, Leonard Cohen!

So Long, Leonard Cohen

quinta-feira, 3 de novembro de 2016


escrever

Pop xunga


Eu não gosto do que a Joana Vasconcelos (JV) produz actualmente. Mas isso não importa nada porque o gosto não pode ser um instrumento de apreciação e definição da política cultural.
A produção da artista standard é uma repetição em ciclo de uma receita estafada que começou por ser inovadora por pegar em tradições estéticas portuguesas e assumir a sua “piroseira” intrínseca numa abordagem construída com novos materiais, até com alguma audácia plástica. Hoje em dia, JV é uma empresária da arte, trabalha por encomenda numa espécie de produção em série em que a criatividade é apenas uma lembrança que jaz no seu historial.
Mas isso não importa nada porque o gosto não pode ser um critério político. 
Independentemente do que achamos, as elites ou as massas, o indivíduo ou o colectivo, a avaliação da política cultural não pode passar pela crítica do conteúdo artístico, pelo simples facto de que a produção artística é uma cadeia criativa que interliga todos os pontos de formas mais ou menos perceptíveis: a história da Arte é, ainda assim, História e, como tal, está sujeita precisamente às mesmas leis que a História. 
Portanto, o que nos cabe julgar não é a validade da produção artística, nem mesmo da mensagem ou inexistência dela. O que nos cabe julgar é se a política de cultura em Portugal e em Lisboa é a adequada a cumprir os objectivos constitucionais da “liberdade de criação e fruição artística e cultural”. Ou seja, a contratação sistemática de artistas, os mesmos artistas, principalmente dos que produzem uma arte despida de incómodos, de inquietação, aqueles que produzem uma arte da conservação do status quo, cumpre os objectivos máximos da política cultural em Portugal ou, pelo contrário, confrontam-se com esses objectivos. 
A adopção de estéticas de regime, de artistas de regime, a consagração de “gostos” avalizados pelo poder político cumpre dois papéis claros: promove a produção do artista e a estética neutralizante e, ao mesmo tempo, assegura a projecção do comprador na perspectiva da publicidade. 
Não está em causa a virtude do Pop Galo nem de JV. O que está em causa é saber se o nosso papel – do Estado, das autarquias e mesmo da Comunicação Social e dos programadores artísticos – é dedicar importantes fatias do orçamento público e privado à alimentação de um mercado da arte e de uma cadeia de exploração capitalista com base na reprodução de estéticas entorpecedoras ou, pelo contrário, é assegurar que há espaço para toda a produção artística, sem sujeições, sem crivo político, estético e, muito menos, de gosto. 
O papel dos agentes de política cultural não pode ignorar a produção artística que corresponde à hegemonia, claro. Mas não pode, nem deve, “iconizar”, nem “reduzir” a produção a um cânone, seja ele qual for, sob pena de estar a usar a arte como mero broche na lapela, como adorno da classe que domina as restantes ou como instrumento de domínio dessa classe sobre as restantes. 
Os ícones da arte, na minha opinião, são os milhares que pintam paredes com latas de tinta às escondidas da polícia, são os que fazem teatro sem dinheiro e escrevem livros sabendo que só os amigos os lerão, são os que ensaiam a banda na garagem e aspiram tocar para uma centena, os que pintam, dançam, esculpem, vencendo as condições sociais em que vivem. Se a JV recebesse milhões para levar um cacilheiro não sei aonde, mas estes operários das artes pudessem trabalhar em condições iguais, eu não teria nada a dizer. Mas enquanto JV for simultaneamente o espelho e o objecto que simbolizam a decadência de uma burguesia desvairada, prefirirei sempre os Popxula ao Pop Galo.
Via: Manifesto 74 http://bit.ly/2fiovGm

sexta-feira, 28 de outubro de 2016


Saga Da Amazônia – Geraldo Azevedo – Socorro Lira



Saga Da Amazônia

 
Era uma vez na AMAZÔNIA, a mais bonita floresta
Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
No fundo d’água as IARAS, caboclo lendas e mágoas
E os rios puxando as águas
PAPAGAIOS, PERIQUITOS, cuidavam das suas cores
Os peixes singrando os rios, Curumins cheios de amores
Sorria o JURUPARI, URAPURU, seu porvir
Era: FAUNA, FLORA, FRUTOS E FLORES
Toda mata tem caipora para a mata vigiar
Veio caipora de fora para a mata definhar
E trouxe DRAGÃO-DE-FERRO, prá comer muita madeira
E trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira.
Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
Prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar:
Se a floresta meu amigo tivesse pé prá andar
Eu garanto meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá.
O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar
E o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar??
Depois tem passarinho, tem o ninho, tem o ar
ICARAPÉ, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar.
Mas o DRAGÃO continua a floresta devorar
E quem habita essa mata prá onde vai se mudar??
Corre ÍNDIO, SERINGUEIRO, PREGUIÇA, TAMANDUÁ
TARTARUGA, pé ligeiro, corre-corre TRIBO DOS KAMAIURA
No lugar que havia mata, hoje há perseguição
Grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão
Castanheiro, seringueiro já viraram até peão
Afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé da Nana tá de prova, naquele lugar tem cova
Gente enterrada no chão:
Pois mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
Disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro
Roubou seu lugar
Foi então que um violeiro chegando na região
Ficou tão penalizado e escreveu essa canção
E talvez, desesperado com tanta devastação
Pegou a primeira estrada sem rumo, sem direção
Com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
Dentro do seu coração.
Aqui termina essa história para gente de valor
Prá gente que tem memória muito crença muito amor
Prá defender o que ainda resta sem rodeio, sem aresta
ERA UMA VEZ UMA FLORESTA NA LINHA DO EQUADOR.
Via: voar fora da asa http://bit.ly/2eyWMT7