quinta-feira, 16 de agosto de 2018

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Violoncelo – Analise Literária de poema de Camilo Pessanha.

agosto 12, 2009 Camilo Pessanha (Coimbra, sete de setembro de 1867 — Macau, 1º de Março de 1926) foi um poeta português, expoente máximo do Simbolismo.
Tirou o curso de Direito em Coimbra. Em 1894, transferiu-se para Macau, onde, durante três anos, foi professor de Filosofia Elementar no Liceu de Macau, deixando de lecionar por ter sido nomeado em 1900, conservador do registro predial em Macau e depois juiz de comarca. Entre 1894 e 1915 voltou a Portugal algumas vezes, para tratamento de saúde, tendo, numa delas sido apresentado a Fernando Pessoa que era como Mário de Sá-Carneiro, grande apreciador da sua poesia.
Publicou poemas em várias revistas e jornais, mas seu único livro Clepsidra (1920), foi publicado sem a sua participação (pois se encontrava em Macau) por Ana de Castro Osório, a partir de autógrafos e recortes de jornais. Graças a essa iniciativa, os versos de Pessanha se salvaram do esquecimento.
Posteriormente, o filho de Ana de Castro Osório, João de Castro Osório, ampliou a Clepsidra original, acrescentando-lhe poemas que foram encontrados. Essas edições saíram em 1945, 1954 e 1969. Apesar da pequena dimensão da sua obra, é considerado um dos poetas mais importantes da língua portuguesa.
Foram os seus poemas simbolistas que largamente influenciaram a geração de Orpheu, desde Mário de Sá Carneiro até Fernando Pessoa. Sua poesia mostrava o mundo sob a ótica da ilusão, da dor e do pessimismo. O exílio do mundo e a desilusão em relação à Pátria também estão presentes em sua obra e passam a impressão de desintegração do seu ser. A sua obra mais famosa é Clepsidra, relógio de água, que contém a reunião de seus poemas com musicalidade marcante e temas até certo ponto dramáticos, publicado em 1922.
Camilo Pessanha que é, sem sombra de dúvidas, o maior e mais autêntico poeta Simbolista português foi fortemente influenciado pela poesia de do poeta francês Verlaine.
O poeta foi acometido de tuberculose retornando a Portugal por várias vezes para tratar de sua saúde. Essas viagens de pouco valeram, uma vez que o poeta faleceu em 1º de março de 1926 em Macau após o agravamento da doença, causado provavelmente pelo vício ao ópio.
É de Camilo Pessanha o próximo poema visitado:
Violoncelo
Chorai arcadas
Do violoncelo,
Convulsionadas.
Pontes aladas
De pesadelo…
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos.
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro.
Que ruínas, (ouçam)
Se se debruçam,
Que sorvedouro!
Trêmulos astros,
Soidões lacustres…
Lemes e mastros…
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas.
Blocos de gelo!
Chorai arcadas
Do violoncelo,
Despedaçadas…
Camilo Pessanha
Glossário:
Arcadas – Corrida do arco sobre as cordas do instrumento.
Convulsionadas – Pôr em convulsão, Fig. Excitar; agitar; Revolucionar.
Avoaçam – Esvoaçar.
Caudais – Relativo à cauda; Da cauda; Torrencial; Caudalosa.
Debruçam – Colocar-se de bruços; Inclinar-se.
Sorvedouro – Voragem onde a água faz remoinho; Precipício; abismo.
Trêmulos -. Que treme; Bruxuleante; Tímido; hesitante; indeciso; Tremido na voz ou no canto; Efeito produzido pelos instrumentos de corda multiplicando com grande rapidez as vibrações sobre a mesma nota; Efeito produzido no piano por duas notas ou dois acordes diferentes, feridos alternadamente e com grande rapidez; Conjunto de pedras preciosas que formam flores, oscilando nas extremidades de pequenos arames.
Soidões – Solidões;
Lacustres – De lago; dos lagos; Geol. Diz-se dos terrenos depositados no fundo das águas doces.
Alabastro – Espécie de mármore branco, translúcido, pouco duro e susceptível de um belo polido.
Balaústre – Colunelo ou pequeno pilar que, geralmente com outros, sustenta um peitoril ou corrimão.
Urna – Vaso, de forma variável, que servia aos Antigos para guardar as cinzas dos mortos, recolherem água das fontes, etc.
Anotarei a seguir alguns comentários sobre o ritmo:
O poeta utiliza em sua composição versos isométricos de quatro sílabas poéticas, num pé composto, antipasto, tônicas em primeira e quarta; com rimas perfeitas, regulares e graves.
O metro curto em estrofes de cinco versos com esquema ABAAB exalta o ritmo quebrado e soluçante do texto poético.
As figuras sonoras: aliteração bastante pronunciada de forma a criar uma harmonia musical nos versos, principais consoantes aplicadas; /s,/r, /d, /m/ e /t; assonâncias fundadas na aplicação as seguintes vogais, /a, /e/ e /o/.
A utilização predominante de paroxítonas em um metro par proporciona uma marcha de leitura, suave e cadenciada, a exceção da aliteração em /t, consoante linguodental explosiva, as outras ocorrências sonoras colaboram com uma fluência leitora musical uma das características marcantes desta corrente literária.
Realizando as anotações semânticas do poema, nos veremos diante da alma da criação, baseado em comparações apoiadas em contigüidades e figurações sinestésicas, Pessanha construiu um dos marcos do simbolismo português.
As metáforas sucedem na desconstrução do concreto, dispensando a denotação e sugerindo mediante as figuras de expressão os significados que o leitor deve alcançar.
Pessanha não faz concessões para uma leitura confortável, ele eleva o seu leitor à condição de conquistador, ao desfigurar o denotativo do poema a alternativa que resta ao leitor é a intuição e o tirocínio para realizar as relações mínimas que o texto impõe.
Violoncelo
Chorai arcadas – Apóstrofo/Metáfora
Do violoncelo,
Convulsionadas. – Prosopopéia
Pontes aladas – Alegoria
De pesadelo…
De que esvoaçam, – Alegoria/Sinestesia
Brancos, os arcos. – Sinestesia
Por baixo passam, – Anacoluto
Se despedaçam,
No rio, os barcos. – Anástrofe
Fundas, soluçam – Anástrofe/ Sinestesia
Caudais de choro. – Alegoria/Sinestesia
Que ruínas, (ouçam) – Sinestesia
Se se debruçam,
Que sorvedouro!
Trêmulos astros, – Metáfora
Soidões lacustres… Metonímia
Lemes e mastros…
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas.
Blocos de gelo! – Sinestesia
Chorai arcadas – Apóstrofo/Metáfora
Do violoncelo,
Despedaçadas…
A música do violoncelo provoca um estado de espírito ansioso, uma sensação de mistério e tristeza; mas este sentimento não é capturado notadamente, é apenas sugerido por uma série de imagens e associações. O eu poético não esclarece que a tristeza, esta ansiedade ou inquietude esteja relacionada à música saída do violoncelo, mas logo a apostrofe “chorai arcadas” nos revela o caráter triste da música.
O poema assenta numa intuição associativa que liga o som grave do violoncelo ao sentimento de dor e de mistério. “Arcadas” designa o movimento do arco sobre as cordas, e ainda o sentido de arcarias. “Arcadas”, por associação trouxe a imagem de “pontes” que também são “arcadas”.
A música no seu gemer contínuo, evoca um curso de água; a ligação ondulante dos versos das duas primeiras estrofes relaciona de forma objetiva, um curso de água. Os adjetivos “convulsionadas” e “aladas” vêm dar a “pontes” a sugestão do arco que voa e provoca o vibrar das cordas. “De pesadelo” vem acentuar o movimento febril e ansioso que se inicia com os adjetivos anteriormente citados.
Na segunda estrofe, já se fala dos “arcos”, das “pontes”. Atentemos para a analogia e contínua associação de palavras e conceitos: tal como arco sobre as cordas; também as pontes “aladas” e os seus arcos “esvoaçam”, até que a sensação do rio corrente nos aparece mais clara: “Por baixo passam, /Se despedaçam, /No rio, os barcos.”
Acentua-se agora mais a impressão da tristeza, “Chorai arcadas” repete-se, intensificado em “fundos soluçam”. Não só o sentido do verbo é mais forte e os timbres mais escuros, mas também o modo do verbo se modificou acentuando agora realidade presente avassaladora do som.
Há a impressão de que a noite paira na poesia: já se não vêm arcadas brancas na ponte, nem barcos passando; ficou apenas o rio agora transformado em caudal. É impossível uma localização fixa no espaço e no tempo; as correlações e analogias produzem apenas a inexorável sensação do fluir.
As arcadas foram primeiro do violoncelo, depois arcos de pontes e agora são de novo o correr do arco sobre as cordas donde brotam caudais de música triste (choro).
A poesia carrega-se mais de amargura: “Que ruínas (ouçam) /Se se debruçam,/ Que sorvedouro!” As imagens vão-se alterando ao sabor do movimento do poema: as “pontes convulsionadas”, os “barcos despedaçados” repetem-se noutras imagens, ilustrando melhor a impressão do estalar do coração na visão das “ruínas”. Uma sensação de distancia, profundidade, engrandece a idéia de “caudal” e enquadra-se no sentido profundo de todo o poema. Subitamente, o movimento parece afrouxar. As frases perdem o verbo e suprimem a ação e afigura-se que os arcos deixaram de correr sobre as cordas, que a música vai desaparecendo.
“Trêmulos astros” é uma imagem nova, uma sugestão de luz que surgiu por contraste com o tom escuro da estrofe precedente e com as “solidões lacustres”. Agora já não é um caudal que passa, são lagos que alastram ermos, escuros… As ruínas arrastadas no caudal vieram dar ao lago escuro: “lemes e mastros”, restos de barcos despedaçados; como se o violoncelo evocasse em nosso espírito as quilhas, as cordas, os cabos dos navios…
A idéia de ruína intensifica-se ainda; “E os alabastros /Dos balaústres! / Urnas quebradas / Blocos de gelo…” tudo isto nos sugere a idéia de brancura, de fragmentação de coisas brancas, a idéia de uma acrópole destruída, e, por cima deste cemitério imenso e solitário, o poeta gostaria de ouvir uma música apropriada, saída de um instrumento também em ruínas (sempre a associação): “Chorai Arcadas, /Despedaçadas, / Do violoncelo”.
É preciso entrar atento no mundo poético de Pessanha para que os seus poemas não pareçam como um caos de frases absurdas. As imagens constantes, as lúcidas conotações e associações são o segredo da unidade do poema. Pessanha é extremamente sensível à luminosidade e ao som, daí as sinestesias freqüentes. Os estímulos sensoriais combinam-se, aproveitam-se mutuamente para produzirem, neste poema, a impressão de água corrente, de ruínas, dos destroços: “Fundas, soluçam/ Caudais de choro/ Que ruínas (ouçam). Constroem sensações visuais: “fundas”, “caudais”, “ruínas”; constrói sensações auditivas: “soluçam”, “choro”, “ouçam”. “Ouçam ruínas” é uma sinestesia que nos sugere não apenas as ruínas em si, mas também o cataclismo que as provocou.
Para fechar esta análise e realizar uma leitura mais completa deste poema único em sua realização e seus efeitos, convém anotar, o isolamento de Pessanha em Macau, a relação que os Portugueses têm com o mar e o que representou para o seu povo as conquistas de além-mar, para o país e para o seu povo.
Ofereço ainda como subsídio para uma análise de maior profundidade, uma anotação de intertextualidade entre Pessanha e Verlaine:

Chanson d’automne.

Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure
Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Paul Verlaine.

 Publicado em Análise Literária

Violoncelo

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trêmulos astros,
Soidões lacustres...
_ Lemes e mastros...
E os alabastros

Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
_ Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
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domingo, 12 de agosto de 2018

Walt Whitman                                             

Vida

Sempre a indesencorajada alma do homem
resoluta indo à luta.
(Os contingentes anteriores falharam?
Pois mandaremos novos contingentes
e outros mais novos.)
Sempre o cerrado mistério
de todas as idades deste mundo
antigas ou recentes;
sempre os ávidos olhos, hurras, palmas
de boas-vindas, o ruidoso aplauso;
sempre a alma insatisfeita,
curiosa e por fim não convencida,
lutando hoje como sempre,
batalhando como sempre.


Walt Whitman, in "Leaves of Grass"
Estados Unidos
31 Mai 1819 // 26 Mar 1892
Poeta

sexta-feira, 10 de agosto de 2018


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Cesário Verde (25 Fev 1855 // 19 Jul 1886)

Cesário Verde

Num Bairro Moderno

 

 

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho da horta aglomerada
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a.
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais." È muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, ao bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injetados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor do leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como alguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!..."

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

"Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!"
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Ouço um canário - que infantil chilrada!
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'
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