terça-feira, 27 de novembro de 2018

Le cinéma de Bertolucci en quatre scènes cultes

BERNARDO BERTOLUCCI



Cinema
O dia (e a hora
e o sítio) em que Bertolucci me entrou pela vida adentro
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Foto epa
No momento em que desaparece um dos grandes cineastas da chamada nova vaga italiana, Bernardo Bertolucci (1941-2018), recordamos como os seus filmes foram vividos em Portugal, onde nos últimos anos do Estado Novo e nos primeiros da democracia Bertolucci era visto por muitos como um cineasta cinéfilo, burguês, revolucionário, para quem a psicanálise e o marxismo eram referências

Texto Jorge Leitão Ramos

Foi em 1972 que chegou a Portugal o primeiro filme de Bertolucci, “A Estratégia da Aranha”. Trouxe-o o Animatógrafo, a empresa com que António da Cunha Telles dava um safanão de monta no ramerrame da distribuição de cinema em Portugal. A mim, pessoalmente, chegou-me de uma forma particularmente turbulenta. Sei o dia e a hora e o local: 14 de outubro de 1972, sessão das 21h45, no cinema Satélite – pequena sala incrustada no edifício do velho Monumental, ali no Saldanha.
Tivera um dos dias mais agitados e perturbados da minha vida, comparecera ao funeral de Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE poucos dias antes, com todas as emoções à flor da pele e a brutalidade policial em ação máxima. Passara o dia a honrar uma vítima do fascismo português.
O que me calhou no filme não poderia vir mais a (des)propósito. “A Estratégia da Aranha” é a história de um jovem, filho de um herói morto na luta antifascista da Itália de Mussolini, que vai à terra natal do pai para saber exatamente o que aconteceu no assassinato ocorrido trinta anos antes. A verdade que encontra, por trás da pompa celebratória, do busto na praça, da memória gloriosa, é nada empolgante. O homem fora, de facto, um traidor, executado pelos próprios resistentes que era suposto liderar. Foi assim, problematizando a gesta dos heróis, questionando-me pessoalmente nos meus gestos, que Bertolucci me entrou na vida. Inesquecivelmente, claro.
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Foto epa
Voltou no dia 8 de agosto de 1974. Já caíra o velho Estado Novo e com ele a Censura e todo o cortejo de ignomínias em que tínhamos vivido. Nessa noite estreou-se em Lisboa, no enorme cinema S. Jorge, esgotado com dias de antecedência, “O Último Tango em Paris”. O filme vinha com aura de escândalo, a cena da manteiga era citada desde longe, o Expresso enviara mesmo um dos seus críticos ao estrangeiro para ver o filme e dele falar, em 1973, quando, cá pelo burgo vê-lo era só um sonho.
O clima que se vivia na sala antes da projeção era de clandestinidade, estávamos à beira do maior dos interditos. No fim, descomprimimos – era só aquilo? E, sobretudo, como é que, antes, não haviam chegado ecos do que o filme, na verdade era, a história triste de um derradeiro herói americano (no sentido intelectual, no sentido com que falamos de Hemingway ou de Henry Miller) em caminho de solidão e decadência com um Marlon Brando numa das mais corajosas prestações algumas vez vistas num ecrã? E ainda, como é que, ainda hoje, a fama do filme assenta num detalhe e na ideia de escândalo, num Eros que só lá está porque é o reverso de Thanatos - que, esse sim, se vê muito bem?
Depois de 1974, o convívio com os filmes de Bertolucci tornou-se normal. Ainda recuperámos, no ano seguinte, “O Conformista”, que nos calhou de esguelha numa situação em que o caminho português para o socialismo estava na ordem do dia. A história de um protagonista que perfilha a ideologia do fascismo menos por convicção que por acomodamento e que é um burguês civilizado, talvez simpático (Trintignant não tem como não) causou engulhos.
Menos, todavia, do que outra recuperação de filmes anteriores do cineasta (”Antes da Revolução”), onde a vontade de um mundo outro, de uma juventude em brasa, era temperada por uma frase de Talleyrand que o título assumia – “Só quem não viveu antes da Revolução é que não conhece a alegria de viver”.
Por essa altura, podia compor-se, na cabeça de um espectador português um quadro preciso de um cineasta cinéfilo, burguês, revolucionário, para quem a psicanálise e o marxismo eram referências. “1900” que veio a seguir, seria a mais imponente saga de conteúdo político jamais feita – nunca se viram tantas bandeiras vermelhas e tantos cânticos revolucionários, tantas vedetas e tanta desmesura narrativa (dura mais de cinco horas) e tudo pago com financiamentos americanos.
O filme é um olhar épico sobre o passado político italiano e, talvez, o mais ardente apelo ao compromisso histórico que os ‘anos de chumbo’ viriam delapidar. Cinco anos volvidos, “A Estratégia de um Homem Ridículo” é, em sangue e intimidade (pequena produção intramuros), a ácida reflexão sobre o fenómeno do terrorismo e as fraturas que a Itália experimentava – e também por cá, à esquerda, doeu.
Depois foi “O Último Imperador” com uma chuva de Óscares, um êxito planetário, as grandes viragens políticas da China olhadas como um drama individual e um colossal espetáculo.
E depois, Bertolucci, perdeu-se. Não se perdeu em decadência, perdeu-se de rumo em filmes que nunca foram maus, sequer desinteressantes, mas a que parecia faltar a energia a que nos acostumara. A doença que o acometeu, uma hérnia discal operada, reoperada, que o manda para uma cadeira de rodas, fá-lo parar de filmar.
Retornou em 2012, com “Eu e Tu”. A última coisa que mostrou publicamente foi, no ano seguinte, um pequeníssimo sketch para um filme comemorativo do Festival de Veneza. Filmou os buracos da rua onde as rodas da sua cadeira encalhavam, breve comédia dramática da luta de um homem com a sua realidade.
 

Bernardo Bertolucci. Uma história maior do que um tango

Cláudia Sobral 27/11/2018 07:59
Confinado a uma cadeira de rodas há mais de dez anos, o realizador de “O Último Tango em Paris”, “O Último Imperador” e “Os Sonhadores” morreu ontem em Roma, vítima de um cancro. Tinha 77 anos
“Não falei sobre isto durante décadas, mas o Godard é o meu verdadeiro guru, compreendem? Para mim havia um cinema antes e um cinema depois do Godard - como antes e depois de Cristo. Portanto, a opinião dele sobre o filme significava tudo para mim.” Isto é Bernardo Bertolucci há dez anos, a contar ao “Guardian” do seu encontro com Jean-Luc Godard depois de este ter assistido à estreia em Paris de “O Conformista”. Filme de 1970 que adaptou do romance de Alberto Moravia com a história de um intelectual de classe alta que, durante o regime de Mussolini, é contratado para ir a Paris assassinar um dissidente que em tempos lhe tinha dado aulas de Filosofia. Um filme que lhe pareceu que agradaria a Godard. Mas não.
E continua Bertolucci, sobre o encontro: “Não me disse nada. Entregou-me um bilhete e foi-se embora. Peguei bo bilhete, tinha um retrato do Mao e um recado escrito à mão com a letra que conhecíamos dos seus filmes. A nota dizia:  ‘Tens de lutar contra o individualismo e o capitalismo.’ Foi a reação dele ao meu filme. Fiquei tão irritado que o amarrotei e atirei na direção dos meus pés. Tenho mesmo pena de o ter feito porque adoraria tê-lo agora para o guardar como uma relíquia.”
Com a aprovação de Godard ou sem ela, “O Conformista” viria a tornar-se, com Jean-Louis Trintignant no papel do protagonista, num dos mais relevantes  filmes do pós-guerra. Um filme que, descreverá Stuart Jeffries no artigo para o qual Bertolucci lhe contou esta história, o realizador encarou o passado fascista do seu país para “encontrar no seu coração uma disfunção psicossexual”. Um filme que veio no tempo dos sonhos falhados que foram os anos de ressaca do Maio de 68, sem o qual “os subsequentes ‘O Padrinho’ [1971] e ‘Apocalypse Now’ [1980] seriam inimagináveis”.
Era apenas o princípio do que estaria por vir de Bertolucci, que dois anos depois estrearia “O Último Tango em Paris”, com o qual se orgulha de ter apresentado ao mundo uma Maria Schneider que não foi apenas atriz nesse filme, mas o centro de uma polémica que o acompanharia praticamente até à sua morte - ontem, em Roma, vítima de um cancro. Há mais de dez anos que o realizador vivia confinado a uma cadeira de rodas, depois de uma cirurgia mal sucedida a uma hérnia discal, que o deixou sem andar.
A manteiga de O Último Tango Aí, nesse ano de 1970 em que esperou e desesperou pela aprovação do mestre que não veio, não tinha apresentado ainda ao mundo aquela que se tornaria, para o grande público e para a história da cultura pop do último século, a sua obra maior - pelo menos em polémica. Polémica que abreviadamente se conta com uma baguete, um pedaço de manteiga e uma troca de olhares entre Marlon Brando - a contracenar na mais que badalada cena com Schneider - e o realizador. Uma das mais célebres cenas de sodomização da história do cinema sobre a qual a atriz, que à data da rodagem tinha apenas 19 anos, demorou quase 40 anos a quebrar o silêncio, para contar uma história que Bertolucci demoraria anos a comentar. “Devia ter ligado ao meu agente ou pedido a presença de um advogado na rodagem porque não se pode obrigar alguém a fazer algo que não está no guião, mas naquela altura eu não sabia disso”, contou a atriz em 2007 numa entrevista ao “Daily Mail”.
“O Marlon disse-me: ‘Maria, não te preocupes, é só um filme’. Mas durante a cena, mesmo não sendo real o que o Marlon estava a fazer, as minhas lágrimas eram reais. Senti-me humilhada e, para ser honesta, senti-me quase violada, tanto pelo Marlon como pelo Bertolucci. Depois da cena, o Marlon não procurou consolar-me ou pedir-me desculpa”, recordou a atriz, para acrescentar que “felizmente, só houve um take”.
Bertolucci manteve-se em silêncio e só há cinco anos, depois da morte de Schneider, em 2011, haveria de esclarecer o assunto, para confirmar que a atriz que interpretava Jeannie naquele filme não tinha consciência do quão longe ele e Marlon Brando tinham combinado levar a cena. “Estávamos a tomar o pequeno-almoço, com o Marlon, no chão do apartamento onde estávamos a filmar. Havia uma baguete, havia manteiga e nós olhámos um para o outro e, sem dizermos nada, percebemos o que queríamos. Fui horrível para a Maria porque não lhe disse”, reconheceu então, já em 2013, numa conversa com a imprensa em que disse não se sentir, ainda assim, arrependido da decisão. Apenas de nunca lhe ter pedido desculpa: “Quando ela morreu pensei, meu Deus, lamento não lhe ter pedido desculpa pelo que o Marlon e eu lhe fizemos naquela cena, por termos decidido não lhe dizer. O sentimento de humilhação foi muito real, mas acho que o que realmente a ofendeu foi sentir que não lhe foi permitido preparar-se para a cena como atriz. Mas o que eu queria era ter a reação dela como pessoa, não como atriz.”
Dos Óscares a um final abreviado Entretanto, no ano passado, num desses fenómenos de velhas polémicas que as redes sociais fazem renascer como se nunca tivessem existido, o vídeo dessas declarações à imprensa voltou a ser partilhado, noticiado, e dessa vez o assunto não  escapou entre os pingos da chuva. Era já tempo do #MeToo e a rápida onda de indignação que se levantou contra o ator e o realizador entre os seus pares nas redes sociais fez dessa ocasião a última em que o nome de Bertolucci encheu páginas de jornais por todo o mundo.
Mas separemos disso a obra daquela que foi uma das figuras-chave para uma era dourada no cinema italiano, que na sua história poderemos colocar ao lado de nomes como Antonioni, Fellini ou Pasolini. E adicionemos a isso a transição que foi capaz de fazer para Hollywood com um título que, em dia de balanços para a história, não será possível ignorar entre a sua cinematografia: “O Último Imperador”. O filme com o qual o realizador trilhou o seu caminho até aos Óscares - nove, ao todo, incluindo o de Melhor Filme e Melhor Realizador em 1987. Depois disso, realizou ainda outro dos seus mais icónicos - “Os Sonhadores”, de 2003. Depois disso, e já depois das complicações que o atiraram para uma cadeira de rodas, estreou ainda “Yo e Te” (2012), adaptado do romance homónimo de Niccolò Ammaniti, que ficaria como a sua última longa metragem.
Do realizador-argumentista nascido a 16 de março de 1941 em Parma, Itália, que antes de se fazer homem do cinema foi poeta depois de ter começado a trabalhar como assistente de realização de nomes como Pier Paolo Pasolini - “Accattone” (1961) - haverá sempre mais para contar. “La commare secca”, logo no ano seguinte a essa colaboração, seria o seu primeiro filme, mas o reconhecimento viria a partir da sua segunda longa-metragem: “Antes da Revolução”, de 1964. Mas as colaborações com outros realizadores continuaram. Em 1968, por exemplo, Sergio Leone estreava “Era Uma Vez no Oeste”, cujo argumento Bertolucci assinou. Não tinha chegado ainda a hora de “O Conformista”.
E aí voltamos para a explicação do realizador para a reação de Godard descrita no início. E disse ele: “Eu já tinha passado a fase em que ser capaz de comunicar era considerado um pecado mortal. Ele não.” Mas não era apenas isso. Era a morada do professor a silenciar que era a mesma de Godard, na Saint Jacques. “O que sempre me deixou orgulhoso - que quase me faz corar de orgulho - é o facto de o Francis Ford Coppola, o Martin Scorsese, o Steven Spielberg, todos me terem dito que ‘O Conformista’ é a sua primeira influência moderna.” E é verdade que foi essa uma das primeiras longas de Vittorio Storaro, celebrizado por tudo, mas sobretudo por “Apocalypse Now” como diretor de fotografia.
De uma maneira ou de outra, “O Conformista” foi também o filme da sua libertação, como diria ainda na mesma entrevista. “A certa altura tive que ter cuidado para não ser um imitador, uma cópia de Godard. Acho que não é uma experiência exclusivamente minha mas de muita gente da minha geração.” Mas o que havia a destruir não era apenas isso, e aqui estará a razão de toda a sua obra: “Através da psicanálise descobri que fazer filmes foi uma forma de matar o meu pai. Naquilo pelo qual faço filmes - o prazer da culpa. Tive que o aceitar a partir de certa altura, e o meu pai também teve que aceitar que era morto a cada filme. Uma vez disse-me uma frase engraçada: ‘És muito inteligente. Mataste-me uma data de vezes sem seres preso.’”
in Jornal i

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

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O QUE ANDO A LER

Últimas Cartas ao Meu Irmão Théo, de Van Gogh

Não haverá, na pintura, muitas histórias tão fascinantes como a de Van Gogh. Nem haverá, na vida em geral, muitas relações fraternas tão comoventes como a que Vincent mantinha com Théo. Além do permanente apoio emocional, foi o suporte financeiro dado pelo irmão mais novo que permitiu a Van Gogh dedicar-se em exclusivo à pintura. Em muitas das cartas que escreve ao irmão, Vincent começa por agradecer a “nota de 50 francos” e as tintas, telas e materiais de desenho que Théo lhe enviava pelo correio numa base mensal.

O livro compila a intensa correspondência enviada por Van Gogh ao irmão – as cartas que recebia de Théo desapareceram – no último ano e meio de vida, entre março de 1889 e julho de 1890. Nessa fase, o estado mental de Vincent é muito instável. Por vezes parece sereno, outras é consumido pela angústia e atormentado por alucinações.

“Aperto com força a tua mão, em espírito; não sei se te escreverei muitas vezes, porque nem todos os meus dias são suficientemente lúcidos para te escrever com um pouco de lógica”, desabafa numa carta. As primeiras missivas são enviadas a partir do asilo de Saint-Rémy, onde Vincent foi compulsivamente internado, depois de um abaixo-assinado subscrito por vários habitantes de Arles, no sul de França, onde então vivia, que, hiperbolizando alguns episódios de maior excentricidade ou “sobre-excitação” de Vincent, alegavam que o pintor era um perigo para a segurança do bairro. “Naturalmente que isto foi um golpe rude para mim, que diligenciava ser amigo de todos e não desconfiava de ninguém”, escreve, numa carta de 19 de março de 1889.

Curiosamente, é à medida que o seu estado mental fica mais instável que Van Gogh pinta alguns dos seus quadros mais emblemáticos e que a sua obra começa finalmente a conseguir algum reconhecimento entre a comunidade artística – embora só consiga vender um único quadro até morrer. “Meu caro irmão, reflexão feita, não digo que o meu trabalho esteja de todo bem, mas é o que ainda consigo fazer de menos mau. Tudo o resto, como as relações com as pessoas, tudo isso é muito secundário, pois não detenho talento para tal. Nesse campo, pouco ou nada posso fazer”, confessa, numa carta de 21 de maio de 1890.

Poucos meses depois, a 27 de julho, durante um passeio pelo campo em Auvers-sur-Oise, para onde entretanto se mudara, Vincent dispara sobre si mesmo um tiro no peito. Consegue cambalear durante a noite até à pensão onde vivia, mas não pede ajuda a ninguém e sobe em silêncio até ao quarto, onde horas mais tarde acaba por ser encontrado ferido. O médico que é chamado para o salvar não consegue remover a bala. Vincent morre dois dias depois, passando as últimas horas em desespero para conseguir manter-se vivo até à chegada do irmão. Théo chega a tempo da despedida. Encontra-o deitado na cama, a fumar cachimbo, aparentemente sereno. Deita-se a seu lado e ampara-lhe a cabeça. Nos seus braços, Vincent diz-lhe: “É assim que eu gostaria de morrer”. E foi assim que morreu.

Théo nunca recuperou da perda do irmão. Morreu seis meses depois, em janeiro de 1891, com apenas 33 anos. Foi sepultado ao lado de Vincent, em Auvers.» in Expresso curto 19/11/2018 Joana Pereira Bastos