Mostras de webarte e VJs em galerias apontam a necessidade de revisão dos juízos estéticos
Os tempos mudaram e a arte não é mais para ser vista.
Bio art, web art, net art e ambientes imersivos (voltados para a rede ou
não) exploram um outro tipo de virtualidade que demanda interação ao
invés de contemplação e introspecção.
O artista romântico morreu,
não se trata mais apenas de um ser criativo com extrema sensibilidade,
dotado de "dons" e visão particular do mundo. O novo artista agora é um
mix de pesquisador com cientista, que faz ou contrata para fazer, que se
não possui ferramentas necessárias as cria, recria, programa,
desenvolve, imagina e constrói.
A obra não é mais o resultado,
agora é o processo; a contemplação não é mais sinônimo de observação e
sim de experimentação/interação.
Para os artistas do século 21, o
computador não é apenas mais uma ferramenta, é a ferramenta das
ferramentas. Por meio dele, dados, cores, imagens, sons, vídeos, DNA e
etc. são manipulados e somados às suas pesquisas, resultam em novos
conceitos e práticas que um dia foi ficção no melhor estilo.
Inspirados
pela imensa possibilidade de criação deste "admirável mundo novo"
reúnem-se vez ou outra para mostrar e discutir seus projetos. Encontros,
seminários, simpósios, workshops e festivais congregam todos aqueles
que têm propostas para divulgar, promover e incentivar as manifestações
que se utilizam da linguagem eletrônica.
Os últimos meses parecem
mesmo comprovar que esses eventos vêm ganhando espaço e se tornando cada
vez mais necessários. Como o Arte e Pesquisa 2003 - 3º Encontro
Internacional de Arte e Tecnologia, realizado em julho na UnB
(Universidade de Brasília).
Nos três dias de imersão total os
artistas-pesquisadores apresentaram seus trabalhos/projetos, falaram de
novas tendências, de tecnologias e das dificuldades técnicas, lógicas e
financeiras, o que aparentemente não os impede de continuar a produzir.
Basta
mencionar alguns para desfazer qualquer dúvida, e aí vão eles:
“Trambula”, de Tânia Fraga, que visa implementar um caminhão midíatico
para divulgar a arte contemporânea por todo o território nacional;
“PocketCave”, de Diana Domingues, que construiu um sistema de realidade
virtual portátil, e “Bodyarchitecture”, de Rejane Cantoni, que explora a
computação ubíqua, realidade virtual, realidade aumentada e bits
tangíveis, dando continuidade a investigações iniciadas com o importante
projeto “OPE_RA”, realizado com Daniela Kutschat, premiado no
Transmídia do Itaú Cultural em 2002.
Neste clima de vitrine do
universo arte hi-tech, recentemente, pudemos acompanhar também a 4º
edição do FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica), uma
iniciativa independente organizada por Paula Perissinotto e Ricardo
Barreto, no Paço das Artes (Cidade Universitária – USP), que resultou em
uma mostra composta de Exposição, Hypersonica e Symposium, em agosto.
Assim
como o Arte e Pesquisa 2003, o FILE foi intenso. Temas diversificados
referentes aos estudos e pesquisas ligados às “novas” artes e cultura
digital foram o foco das abordagens dos artistas-teóricos presentes.
Na
noite de abertura do Symposium, em 19 de agosto, no Centro Cultural
Britânico, para um auditório lotado, Lúcia Santaella falou sobre os
desafios do pós-humano, destacando:
"Em tempos de mutação temos
que ficar perto dos artistas, pelo simples fato de que parafraseando
Lacan, eles sabem sem saber que sabem. Semelhante a este, há um dictum
de Goethe que vale a pena mencionar: ‘Há um empirismo da sensibilidade
que se identifica muito intimamente com o objeto e assim se torna
propriamente falando, teoria. É de fato uma espécie de teoria não verbal
e poética que os artistas criam na sua aproximação sensível dos enigmas
do real’. Por isso, sou movida pela convicção de que, nessa entrada do
terceiro ciclo evolutivo da espécie humana, temos de prestar atenção no
que os artistas estão fazendo. Pressinto que são eles que estão criando
uma nova imagem do ser humano no vórtice de suas atuais transformações.
São os artistas que nos têm colocado frente a frente com a face humana
das tecnologias".
Na semana que se seguiu os artistas brasileiros e
estrangeiros delinearam o mapa da arte e tecnologia no país ao
apresentarem seus trabalhos. E provaram que realmente merecem atenção.
“Corpos Informáticos”, de Maria Beatriz Medeiros, por exemplo, vem
pesquisando performance e telepresença (presença em tempo real, ou quase
real, mediada pela tecnologia), por meio do uso de softwares como o
netmeeting e i-visit.
Destaque também para a rigorosa investigação
experimental sobre interfaces coevolutivas e processos de comunicação
entre corpo que dança e computador de Rachel Zuanon. A artista
apresentou seu projeto que envolve a captação de sinais cerebrais, um
estudo complexo que esbarra nas barreiras do corpo, arte e ciência.
Com
essa pauta e mais arte wireless, realidade virtual, novo cinema e
direitos autorais, o FILE Symposium, seguiu durante a terceira semana de
agosto, onde foram apresentadas 20 palestras, 4 mesas redondas e 3
performances.
Voltando à agenda do evento, no dia 16 foi a vez do
Hypersonica, uma versão performática onde Djs e Vjs apresentaram suas
mais novas criações em tempo real.
Essas vídeo-performances, que
até pouco tempo atrás eram apresentadas em espaços expositivos
diferentes ao do mundo das artes, vêm se tornando cada vez mais comuns.
Geralmente apresentadas como “algo” a mais no clubs e discotecas da
noite paulistana, Vjs e Djs, responsáveis pelo “show”, agora são
artistas.
Segundo o VJ Alexis, que se apresentou nessa primeira
edição na tarde de sábado, também no Paço das Artes, "o Hypersonica é só
a ponta do iceberg que está surgindo no horizonte artístico brasileiro.
Faço performances repentistas com imagens há quatro anos, mas somente
agora abrem-se espaços institucionais para esse tipo de proposta. Parece
que o mainstream artístico 'erudito' sempre leva alguns anos para
entender o que o ‘underground’ está fazendo".
Na noite do dia 13,
quarta-feira, foi inaugurada a Exposição da 4ª edição do FILE. Ambiente
fechado, teto baixo, espaço escuro sem iluminação, telas brancas presas
no teto (para receber a projeção de imagens) e seus respectivos
computadores espalhados pelo ambiente, causaram uma certa vertigem em
quem por ali passou.
O visitante foi convidado a interagir através
do “tradicional desktop”. As “obras” ali “arquivadas” sem texto
introdutório ou resumo o deixaram sem saber em que trabalho clicar. A
alternativa/solução mais moderna e confortável é a versão site, que nos
permite acessar os trabalhos de qualquer lugar do globo, a qualquer hora
e data.
Em meados de setembro foi a vez da exposição “Imagem não
Imagem”, com curadoria de Christine Mello, aberta na Galeria Vermelho.
Este evento serviu para acentuar a reflexão sobre a arte eletrônica em
espaços institucionais.
Tratava-se de uma exposição sobre o
próprio ato criativo, em que os artistas e grupos (Bruno de Carvalho,
Lucas Bambozzi, Luiz Duva, Neide Jallageas, Simone Michelin, Spetto,
grupos, Corpos Informáticos, feitoamãos/F.A.Q. e NeoTao) foram
convidados para criar a partir de procedimentos e etapas comuns:
1.
Todos deveriam assistir o filme “Complemento Nacional”, de Arlindo
Machado (1978), e de acordo com as idéias conceituais nele apresentadas,
associar um trabalho pessoal preexistente ou não.
2. Os trabalhos selecionados foram reunidos sob a forma de um banco de dados coletivo.
3. O banco de dados foi disponibilizado e oferecido à (re)criação da matéria comum.
"Embora
os criadores envolvidos tenham tido acesso a um mesmo contexto
conceitual e a um banco de dados comum de imagens e sons, é possível
observar as mais distintas formas de abordar estas realidades. A
exposição diz respeito, assim, a mostrar instâncias da criação
possibilitadas pela recombinação do discurso das mídias, capaz de nos
oferecer linguagens híbridas, bem como novas modalidades de circulação
da imagem", afirma Christine Mello no folder da exposição.
Aos que
pretendem visitar a mostra, apenas para lembrá-los, não se esqueçam que
os trabalhos apresentados estarão em formato vídeo, já que as
apresentações do procedimento número 3 foram ao vivo. Quem esteve
presente acompanhou performances que agora já não podem ser mais
experimentadas da mesma forma. Os trabalhos se tornaram documentações.
A
pergunta é: se os trabalhos não são mais os mesmos, e há muito tempo já
extrapolaram a questão do limite físico, devemos continuar a exibi-los
da mesma maneira de séculos atrás?
Parece-me que estamos presos ao velho paradigma da exposição...
Já
que os tempos mudaram, e nada mais é como antes, temos que repensar a
maneira como eles devem ser exibidos. A palavra “exposição” possui um
significado antigo, de museologia, que nos remete a idéia de quadros
pendurados nas paredes e esculturas apoiadas, onde a documentação
torna-se a obra, ignorando o que faz, desse tipo de arte, arte: o
processo.
link-se
Tânia Fraga http://www.lsi.usp.br/~tania/tania.htm
Diana Domingues http://artecno.ucs.br
OP_ERA http://www.op-era.com
Festival Internacional de Linguagem Eletrônica http://www.file.org.br
Corpos Informáticos - http://www.corpos.org
Rachel Zuanon - http://www.zuannon.com.br/
VJ Alexis http://www.vjalexis.com.br
Galeria Vermelho http://www.galeriavermelho.com.br
Bruno de Carvalho - http://www.desobdc.hpg.ig.com.br/bdc.html
Lucas Bambozzi - http://comum.com/lucas/works/
Neide Jallageas - http://www.neidejallageas.hpg.ig.com.br
Simone Michelin http://www.smichelin.art.br/
NeoTao http://www.chez.com/neotao/neotao.htm
Roberta Alvarenga
É pesquisadora visitante da Ohio State University (EUA) e aluna do curso de tecnologia e mídias digitais da PUC-SP.