quarta-feira, 12 de junho de 2019

 

Olá Ruben. Como é a minha vida hoje?...

Milhares de vezes, quando aquele número aparecia no mostrador do meu telemóvel, soava no auscultador a voz do Ruben de Carvalho: "Olá Pedro, estás bom?... Olha lá, como é a tua vida hoje?".
Por causa dos telefonemas do Ruben, desde que o conheci, em 1983, a minha vida profissional incluiu o jornal "Avante!", a Festa do "Avante!", a Telefonia de Lisboa, o Lisboa 94, e lembro-me lá agora de tantas outras coisas que fiz com ele, de tantas outras coisas que fiz para ele, de tantas outras coisas que fiz por causa dele. Ruben de Carvalho foi meu chefe.
Por causa dos telefonemas do Ruben, tive milhares de horas de conversa, milhares de jantares, milhares de discussões sobre política, história, sociologia, arte, música, relações humanas. Ruben de Carvalho foi meu mestre.
Por causa dos telefonemas do Ruben fui obrigado a estudar livros que ignorava, a ouvir discos que subestimava, a saber duvidar de certezas absolutas, a procurar questionar as minhas convicções para encontrar boas respostas sobre novos problemas, a recusar dogmas e lugares-comuns mas, ao mesmo tempo, a respeitar os milhares de anos de saber acumulado pela humanidade. Ruben de Carvalho ensinou-me a pensar.
Por causa dos telefonemas do Ruben conheci de perto dezenas de pessoas extraordinárias: a incrível companheira dele, a jurista Madalena Santos (que, aliás, nos apresentou); a Ivone Dias Lourenço; o grafista e desenhador José Araújo; o músico, musicólogo e realizador de TV e rádio, Manuel Jorge Veloso; os jornalistas João Chasqueira, Anabela Fino, Carlos Nabais, Domingos Mealha, Henrique Custódio e Leandro Martins; a Noémia; o apresentador Cândido Mota, o locutor Mário Dias...
Ruben de Carvalho foi ponto central e completou a circunferência do meu círculo de relações pessoais. Ruben de Carvalho foi meu amigo.
Contactei com importantes dirigentes comunistas que me impressionaram: António Dias Lourenço, Carlos Brito, Domingos Abrantes, Carlos Carvalhas e, claro, Álvaro Cunhal. Ruben de Carvalho foi meu camarada.
A biografia do Ruben é impressionante.
Foi militante comunista, logo durante a ditadura fascista, antes do 25 de abril; conspirou e lutou contra o regime.
Esteve nos movimentos unitários, da candidatura presidencial de Humberto Delgado às candidaturas eleitorais da CDE; esteve no apoio ao aparelho clandestino do PCP.
Foi preso político seis vezes.
Foi um jovem jornalista que chegou precocemente a subchefe de redação de um grande jornal diário, o "Século".
Fez a guerra colonial em Angola como enfermeiro, decidindo não dar "o salto" para o estrangeiro, mas encontrando uma forma de estar no exército português que não violentasse a sua solidariedade com os movimentos de libertação.
Fez a revista "Vida Mundial", que abriu uma janela de luz na informação opaca da época.
Foi chefe de gabinete de um ministro no primeiro governo da democracia.
Fez a primeira redação legal do "Avante!". Até construiu mobiliário, pois adorava o trabalho manual - não era acaso o brinquedo preferido em criança ter sido o das construções em Meccano.
Esteve no centro da criação da "Carvalhesa", o hino sem letra que tantos trauteiam nas campanhas eleitorais da CDU.
Fez, desde 1976 até hoje, a organização dos espetáculos da Festa do "Avante!".
Fez uma rádio local chamada Telefonia de Lisboa que o cavaquismo, assustado, fechou ilegalmente, como o tribunal administrativo veio a confirmar numa sentença tardia sobre um concurso para novas frequências de rádios.
Fez parte do comissariado do Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura - e isso fez dele, contava com ironia, um dos comendadores da nação, com direito a medalha e tudo.
Fez trabalho parlamentar como deputado eleito por Setúbal.
Foi um vereador empenhado na câmara de Lisboa.
Escreveu, publicou e ajudou a editar várias obras de referência sobre o fado. Lutou muito contra a ideia de que o fado era uma música "salazarenta", como alguma esquerda, mais tonta, logo a seguir à Revolução dos Cravos, crismara o género popular.
Esteve sempre no centro do debate político; publicou milhares de artigos de jornal na "A Capital", "Diário de Notícias", "Público", "Expresso", "Sábado", "24horas", entre outros.
Foi comentador regular na SIC e na RTP.
Fez dois programas na Antena 1 que se tornaram referência na rádio portuguesa e demonstram publicamente a sua personalidade culta, pluralista e tolerante: com Iolanda Ferreira o "Crónicas da Idade Mídia"; com Rui Pego e Jaime Nogueira Pinto, o "Radicais Livres".
Fazer, construir, deixar obra feita num contexto de trabalho coletivo - este era o seu projeto pessoal.
É nesse sentido que deveríamos entender o seu maior legado: o da Festa do "Avante!".
A própria ideia inicial da organização da Festa, inspirada em festas similares de partidos comunistas, como o italiano e o francês, tinha como pressuposto o envolvimento coletivo de milhares de militantes comunistas na organização de um projeto político e cultural que demonstrasse, numa pequena cidade improvisada, o modelo de sociedade igualitária que o PCP defende. A Festa não é, portanto, obra de um indivíduo, é obra de um coletivo.
Com o engenheiro Fernando Vicente e o artista plástico Rogério Ribeiro, o Ruben moldou a forma técnica e estética inicial que milhares de camaradas seus desenvolveram, fizeram evoluir e construíram em vários terrenos e espaços, desde os pavilhões da antiga FIL, na rua da Junqueira, à atual Quinta da Atalaia, no Seixal.
A organização dos espetáculos, a sua tarefa central na Festa do "Avante!", suscitou-me há alguns anos estas palavras:
"Com ele aprendi ser sempre mais difícil decidir quem atua a meio da tarde do que escolher quem encerra a noite. Vi como era preciso ter coragem para dizer não a músicos ligados ao PCP, que caíam na tentação de querer transformar a festa de todos numa coutada exclusiva.
"Aprendi como se fabricam as grandes ideias e as dezenas de horas de discussão redonda, esgotantes, que é preciso ter para lá chegar. Vi como surgiram os filões das músicas brasileiras, folk ou africana, sempre um pouco à frente das modas em que elas depois se transformaram, e registei como aconteceu a que agora é marca definitiva do evento: o grande concerto de música clássica.
"Na Festa do Avante! ensinaram-me, como a muitos outros, o essencial do que me transformou num profissional bem-sucedido: é preciso entender o quadro geral de um problema e dar importância aos detalhes que fazem a diferença".
A Festa do "Avante!" é também relevante porque criou uma indústria: foi lá que se formou a primeira geração de técnicos e de produtores que tornaram os concertos e festivais de verão uma banalidade, que antes não existia em Portugal.
O Ruben foi sempre um intelectual ao serviço da classe operária. Era um génio que não acreditava nos golpes de génio, que acreditava cegamente no trabalho de equipa.
Há uma dezena de anos estivemos cerca de 20 minutos chateados.
Num fim de semana que passámos juntos, discutíamos as mudanças no mundo da comunicação que a internet trouxe. Às tantas fiz uma catilinária sobre a "burrice" da esquerda que deixava para a direita e para o PS o domínio ideológico dos "blogues" e das redes sociais. Ele, zangado (ui!, como era bravo...), espantava-se comigo: como é que eu, militante comunista, defendia a utilização de uma forma de comunicação que, pela sua natureza atomizada, promove o individualismo, o egocentrismo, a vaidade pessoal, o desprezo pelo outro? "Vamos mas é fazer bons sites coletivos, deixa lá isso dos blogues e dos Facebooks que isso é para quem tem a mania de ser vedeta..."
Ruben de Carvalho era um intelectual ao serviço da classe operária. Um revolucionário. Foi essa a missão que cumpriu na vida.
Olho para o telefone, depois de receber a notícia da morte do Ruben de Carvalho, o homem mais impressionante que conheci.
Não evito a comoção e pergunto-me: sem Ruben, como é a minha vida hoje?...
Um grande beijo, Madalena.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Poeta de canções, dramaturgo e romancista: Chico Buarque é mais do que Bob Dylan

Escritor foi o último a saber que ganhou o Prémio Camões por estar em Paris, onde tem residência, para comemorar o aniversário. Antes já ganhara tudo o que podia.
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"Quero ficar no teu corpo feito tatuagem" é o verso inicial de uma canção da peça Calabar - O Elogio da Traição que Chico Buarque escreveu com Ruy Guerra e subiu aos palcos em 1973. Pode dizer-se que só Calabar justificaria o Prémio Camões que Chico Buarque recebeu ontem após a escolha do júri porque reúne nessa canção - e outras como Anna de Amsterdam - a sedução capaz de pôr milhões a cantar enquanto pensam na condição humana da protagonista.
Mas Calabar não é só música porque nessa peça já estava tudo o que faz de Chico Buarque um dos maiores criadores da língua portuguesa, a razão pela qual Portugal e Brasil instituíram este prémio: além de compositor musical, é poeta e escritor de letras, autor de teatro e com meia dúzia de narrativas de ficção de fôlego.
A escolha de Chico Buarque implode pela primeira vez com a norma de atribuir o Camões a "especialistas" do clube da literatura, ficcionistas e poetas, uma orientação que vem desde a primeira escolha, Miguel Torga (1989), passou por Jorge Amado (1994), e no ano passado calhou a Germano Almeida.
Decerto que o nome de Chico Buarque não surgiu por acaso na lista de autores lusófonos que estão na calha todos os anos para este prémio, afinal a atribuição do Prémio Nobel a Bob Dylan gerou imensas especulações e o nome do brasileiro serviu sempre como exemplo de que se ele fosse o escolhido pela Academia Sueca seria uma decisão certa.
Depois de Bob Dylan todas as confusões podem surgir no campo do que é realmente a literatura, colocando de um lado os que apelam aos poemas de Homero e às trovas medievais como verdadeiros antecedentes literários ou dão a mão à obra poética de Leonard Cohen enquanto obra assente em literatura. De qualquer modo a ata do júri avançou com um argumento de peso relativamente à obra de Chico Buarque: "A contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa".
Tal como o poeta/letrista/músico norte-americano, também Chico Buarque é conhecido da maioria pelo que canta. Mas ambos têm uma outra faceta, sendo que aí Chico Buarque ainda leva mais vantagem. Não escreveu apenas Calabar e não teve parceria só com Ruy Guerra, a dramaturgia do brasileiro tinha gerado antes a peça Roda Viva e depois Gota d"Água, A Ópera do Malandro e O Grande Circo Místico.
Nos últimos anos, depois de em 1970 ter publicado Chapeuzinho Amarelo, em 1974 a novela Fazenda Modelo, tornou-se escritor de verdade com um romance inesperado, Estorvo (1991), seguido de Benjamim (1995), Budapeste (2003), Leite Derramado (2009) e o mais recente, O Irmão Alemão (2015). Nem sempre conseguiu escapar às críticas de ter a vida facilitada por ser famoso mas a obra vai confirmando que não é apenas capaz de escrever canções. Prova disso é ter recebido já três Prémio Jabuti, o mais importante do seu país, entre muitos outros.
Pelo meio escreveu centenas de poemas a que por facilidade se dá o nome de letras de canções, mesmo que sejam muito mais do que esse suporte para cantar acompanhado com o violão, como ainda recentemente fez ao passar pelo Coliseu de Lisboa e Porto durante várias noites e foi secundado por milhares de vozes como se estivessem a declamar o Mar Salgado de Fernando Pessoa.
A atribuição do Prémio Camões a um letrista é inédito, mesmo que um dos poetas mais populares galardoado anteriormente, Ferreira Gullar (2010), também tivesse sido musicado pelo cantor cearense Fagner. Até Jorge Amado viu versos seus serem canções, o próprio António Lobo Antunes (2007) teve aquilo que chamava de "umas letrinhas" escritas em almoços sobre as toalhas de papel transformadas num disco inteiro de Vitorino e a poesia de Saramago (1995) também foi cantada. Ou seja, podem-se sossegar as consciências, o bicho da letra de canção nunca esteve fora da verdadeira literatura.
Entre o júri que deu o Camões por unanimidade a Chico Buarque estava o escritor e compositor Antonio Cicero, que deu o exemplo da canção Construção como um poema "raro de se fazer". Ele e os outros membros do júri não demoraram muito tempo a conjugarem as suas preferências e em duas horas Chico Buarque estava escolhido.

Reação a Bolsonaro

Quanto à decisão do júri, que deve ser muito menos contestada do que a da Academia Sueca pelos lugares onde a lusofonia impera, os grandes detratores estarão no próprio Brasil que elegeu Bolsonaro recentemente. Aliás, notou-se alguma parcimónia nos foguetes que o anúncio costuma merecer no Brasil na imprensa. A razão também poderia ter sido a surpresa, afinal os académicos gostam de escolher entre os seus e não alguém tão de fora.
No entanto, Chico Buarque faz parte da metade do povo brasileiro que é contra o governante populista que ocupa o Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro, alem de ser apoiante de Lula e do PT. Situação que parece estar a tornar-se numa tradição, pois os mais recentes premiados brasileiros com o Camões são do contra. Também Raduan Nassar (2016) contestava a manobra de impeachment de Dilma e saiu do seu retiro no interior de São Paulo ao fim de vinte anos para apoiar publicamente a ex-Presidente.
Não esquecer que o sucesso de Chico Buarque enquanto artista e compositor começou durante a ditadura militar, um regime que só terminou nos anos 1980, tendo sido obrigado a exilar-se, a gravar discos que a polícia política censurava - como a palavra sífilis no Fado Tropical - e só passou a compor livremente já a sua carreira ia longa. Feijoada Completa foi o primeiro disco em que pôde lançar sem penalização da censura. Mesmo assim quando a abertura política já estava a ser ensaiada, Chico Buarque esteve para ficar ligado a um atentado durante o espetáculo do 1. De Maio do RioCentro que organizou mas a bomba explodiu antes do tempo no exterior do pavilhão.
Exemplo de algum distanciamento posterior da política encontra-se em vários discos, desde o último Caravanas até a um dos seus melhores trabalhos de anos mais recentes, o tema Morro Dois Irmãos.
Quem for reler a peça Calabar vai rever os tempos atuais no Brasil, substituídos que foram os ocupantes portugueses e holandeses por uma estrutura política que continua a fazer o "elogio da traição", o subtítulo da peça Calabar. Talvez se questione sobre a atualidade dos versos de uma outra canção da peça e considere que este Prémio Camões acertou mesmo no escritor/poeta/compositor que o júri escolheu: "Não existe pecado do lado de baixo do Equador.
in Diário de Notícias, Portugal

sábado, 18 de maio de 2019

Giovanni Segantini

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Giovanni Segantini
Pintor

Descrição

Traduzido de inglês-Giovanni Segantini foi um pintor italiano conhecido por suas grandes paisagens pastorais dos Alpes. Ele foi um dos artistas mais famosos da Europa no final do século 19, e suas pinturas foram coletadas pelos principais museus. Wikipedia (inglês)
 



quarta-feira, 1 de maio de 2019

Erotismo anima corpos de homens e mulheres numa exposição de Júlio Pomar

Corpos de homens e mulheres surgem animados pela sexualidade e erotismo nas telas e desenhos da nova exposição de Júlio Pomar (1926---2018), cuja obra foi atravessada por estas formas, "que amava por se tornarem outras", quando pintava.

Erotismo anima corpos de homens e mulheres numa exposição de Júlio Pomar