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No
momento em que desaparece um dos grandes cineastas da chamada nova vaga
italiana, Bernardo Bertolucci (1941-2018), recordamos como os seus
filmes foram vividos em Portugal, onde nos últimos anos do Estado Novo e
nos primeiros da democracia Bertolucci era visto por muitos como um
cineasta cinéfilo, burguês, revolucionário, para quem a psicanálise e o
marxismo eram referências
Texto Jorge Leitão Ramos
Foi
em 1972 que chegou a Portugal o primeiro filme de Bertolucci, “A
Estratégia da Aranha”. Trouxe-o o Animatógrafo, a empresa com que
António da Cunha Telles dava um safanão de monta no ramerrame da
distribuição de cinema em Portugal. A mim, pessoalmente, chegou-me de
uma forma particularmente turbulenta. Sei o dia e a hora e o local: 14
de outubro de 1972, sessão das 21h45, no cinema Satélite – pequena sala
incrustada no edifício do velho Monumental, ali no Saldanha.
Tivera
um dos dias mais agitados e perturbados da minha vida, comparecera ao
funeral de Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE poucos dias antes,
com todas as emoções à flor da pele e a brutalidade policial em ação
máxima. Passara o dia a honrar uma vítima do fascismo português.
O
que me calhou no filme não poderia vir mais a (des)propósito. “A
Estratégia da Aranha” é a história de um jovem, filho de um herói morto
na luta antifascista da Itália de Mussolini, que vai à terra natal do
pai para saber exatamente o que aconteceu no assassinato ocorrido trinta
anos antes. A verdade que encontra, por trás da pompa celebratória, do
busto na praça, da memória gloriosa, é nada empolgante. O homem fora, de
facto, um traidor, executado pelos próprios resistentes que era suposto
liderar. Foi assim, problematizando a gesta dos heróis, questionando-me
pessoalmente nos meus gestos, que Bertolucci me entrou na vida.
Inesquecivelmente, claro.

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Voltou
no dia 8 de agosto de 1974. Já caíra o velho Estado Novo e com ele a
Censura e todo o cortejo de ignomínias em que tínhamos vivido. Nessa
noite estreou-se em Lisboa, no enorme cinema S. Jorge, esgotado com dias
de antecedência, “O Último Tango em Paris”. O filme vinha com aura de
escândalo, a cena da manteiga era citada desde longe, o Expresso enviara
mesmo um dos seus críticos ao estrangeiro para ver o filme e dele
falar, em 1973, quando, cá pelo burgo vê-lo era só um sonho.
O
clima que se vivia na sala antes da projeção era de clandestinidade,
estávamos à beira do maior dos interditos. No fim, descomprimimos – era
só aquilo? E, sobretudo, como é que, antes, não haviam chegado ecos do
que o filme, na verdade era, a história triste de um derradeiro herói
americano (no sentido intelectual, no sentido com que falamos de
Hemingway ou de Henry Miller) em caminho de solidão e decadência com um
Marlon Brando numa das mais corajosas prestações algumas vez vistas num
ecrã? E ainda, como é que, ainda hoje, a fama do filme assenta num
detalhe e na ideia de escândalo, num Eros que só lá está porque é o
reverso de Thanatos - que, esse sim, se vê muito bem?
Depois
de 1974, o convívio com os filmes de Bertolucci tornou-se normal. Ainda
recuperámos, no ano seguinte, “O Conformista”, que nos calhou de
esguelha numa situação em que o caminho português para o socialismo
estava na ordem do dia. A história de um protagonista que perfilha a
ideologia do fascismo menos por convicção que por acomodamento e que é
um burguês civilizado, talvez simpático (Trintignant não tem como não)
causou engulhos.
Menos,
todavia, do que outra recuperação de filmes anteriores do cineasta
(”Antes da Revolução”), onde a vontade de um mundo outro, de uma
juventude em brasa, era temperada por uma frase de Talleyrand que o
título assumia – “Só quem não viveu antes da Revolução é que não conhece
a alegria de viver”.
Por
essa altura, podia compor-se, na cabeça de um espectador português um
quadro preciso de um cineasta cinéfilo, burguês, revolucionário, para
quem a psicanálise e o marxismo eram referências. “1900” que veio a
seguir, seria a mais imponente saga de conteúdo político jamais feita –
nunca se viram tantas bandeiras vermelhas e tantos cânticos
revolucionários, tantas vedetas e tanta desmesura narrativa (dura mais
de cinco horas) e tudo pago com financiamentos americanos.
O
filme é um olhar épico sobre o passado político italiano e, talvez, o
mais ardente apelo ao compromisso histórico que os ‘anos de chumbo’
viriam delapidar. Cinco anos volvidos, “A Estratégia de um Homem
Ridículo” é, em sangue e intimidade (pequena produção intramuros), a
ácida reflexão sobre o fenómeno do terrorismo e as fraturas que a Itália
experimentava – e também por cá, à esquerda, doeu.
Depois
foi “O Último Imperador” com uma chuva de Óscares, um êxito planetário,
as grandes viragens políticas da China olhadas como um drama individual
e um colossal espetáculo.
E
depois, Bertolucci, perdeu-se. Não se perdeu em decadência, perdeu-se
de rumo em filmes que nunca foram maus, sequer desinteressantes, mas a
que parecia faltar a energia a que nos acostumara. A doença que o
acometeu, uma hérnia discal operada, reoperada, que o manda para uma
cadeira de rodas, fá-lo parar de filmar.
Retornou
em 2012, com “Eu e Tu”. A última coisa que mostrou publicamente foi, no
ano seguinte, um pequeníssimo sketch para um filme comemorativo do
Festival de Veneza. Filmou os buracos da rua onde as rodas da sua
cadeira encalhavam, breve comédia dramática da luta de um homem com a
sua realidade.
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