
EXPERIMENTALIDADES
terça-feira, 28 de julho de 2026
quarta-feira, 15 de julho de 2026
https://youtu.be/Idsb6gk6j_U?si=yiWC50y3IaUfKj8V
Concerto de Aranjuez
domingo, 5 de julho de 2026
A lua da bruxa
Quando eu era pequenino
a minha avó contava-me histórias
naquele tempo não tínhamos televisão
nem telemóveis e este sortido de distração
de que gozam os meninos a todas as horas.
Os serões não o eram como são agora :
Jantar e nos invernos logo a caminha
Só nas noites de verão, aquecidas as casas
preguiçávamos na frescura do alpendre
-O que é a Lua, avó? , perguntava eu
-É casa da bruxa, respondia ela
- E o que é uma bruxa, perguntava eu
- Se olhares bem para a lua não a vês?
- A cara dela é a Lua?, insistia eu
-Sim, se olhares com muita força!
E eram assim nos verões e só nas noites quentes
quando ouvia a história dos dois irmãos que se perderam
na floresta e outros contos de arrepiar
Encantavam-me as histórias que a minha avó me contava
embora fossem sempre de bruxas e bruxedos acabavam bem.
Não sabia eu então que elas as lia nos livros arrumadinhos
no armário da sua roupa escassa no quarto dela.
A minha avó frequentara a escola até à terceira classe
e as amigas dela, vizinhas, nem escola tinham.
Nas noites geladas daqueles invernos de gelo
Para a caminha cedinho em meias grossas de lã
com a pressa do frio e a pressa de ouvi-la
à minha avó, Deus a tenha!
Que era ela que retirava
debaixo dos lençóis a botija de louça a escaldar
(as noites mereciam existir só por causa delas, sentia eu).
A minha avó deixou-me cedo
e não voltou mais. Não me lembro do dia em que a levaram para o velório.
Não está, meu filho, a avó foi para o céu, explicaram quando à noite por ela esperei.
-Para o céu? E porque me abandonou assim?, choraminguei eu.
No primeiro verão que passei já sem a sua presença
olhei tanto tempo fixamente para a lua
com este raciocínio de uma lógica que, dita voz alta,
fez emudecer os risos do meu irmão mais velho :
“se a lua é a casa da mãe de todas bruxas, e se a avó mora agora no céu,
então a lua já não é mais a casa da bruxa má. A avó não deixa!”
Quando, mais tarde, aprendi a verdade, preferi a ficção.
No final da primeira classe, nas férias grandes, sentado
Com os garotos da vizinhança nas escadas que levavam da rua para o alpendre
(as casas deles nem alpendres tinham, as portas abriam para a rua de terra batida)
imaginava para eles na lua uma casa de onde nos espreitava a minha avó
(a avó de algum deles também, admitia a custo).
Talvez por isso os lobos da serra uivavam para a lua
e as almas penadas não se perdiam nos caminhos.
Depois a minha mãe chamava-me : - Vem para dentro, faz-se tarde, tomem cuidado
não venha levar-vos no saco a bruxa má! -
Eu entrava em casa sem medo nenhum
porque eu via no luar as lágrimas de prata da minha avó.
E enviava-lhe um sentido beijo de menino.
É destas coisas da vida que lembro
É no passado e no destino.
terça-feira, 19 de maio de 2026
Untitled (Your Body Is a Battleground)
Arte Pós-moderna
- Your Body Is a Battleground (1989), de Barbara Kruger
Uma das obras mais icónicas da apropriação pós-moderna. Combina uma fotografia de rosto feminino dividida, texto forte e alto contraste para criticar o controlo do corpo da mulher e as dinâmicas de poder. - Untitled Film Stills (1977–1980), de Cindy Sherman
Uma série de autorretratos fotográficos onde a artista encarna diversos estereótipos femininos presentes no cinema clássico de Hollywood. Questiona o olhar masculino, a construção da identidade e a natureza da própria fotografia. - Rabbit (1986), de Jeff Koons
Um coelho insuflável fundido em aço inoxidável que reflete perfeitamente a estética neo-pop. A obra eleva um objeto de cultura de massa efémero ao estatuto de "alta arte" luxuosa, desafiando a distinção entre bom e mau gosto. - Campbell's Soup Cans (1962), de Andy Warhol
Sendo uma das peças fundadoras da Pop Art, subverte a ideia de originalidade e exclusividade artística ao reproduzir em massa latas de sopa de supermercado, criticando e celebrando a sociedade de consumo. - Azulejão (2016), de Adriana Varejão
Da arte contemporânea/pós-moderna brasileira, esta instalação reimagina os clássicos azulejos portugueses. A obra traz marcas e fissuras, questionando narrativas históricas e a relação da arte com o passado colonial.
terça-feira, 14 de abril de 2026
David , de Miguel Ângelo, o Homem confiante e seguro de si da Renascença, e o as esculturas de Giacometti, nossas contemporâneas, do indivíduo frágil, trôpego, incerto. Os mercados, o marketing, o cinema, procuram atrair consumidores-pagadores para um ideal que, consciente ou mais ignorantemente, procura assemelhar-se a David, porém não conseguem com o músculo preencher o vazio a incerteza , a não confiança em sim mesmos,e o medo.
sábado, 21 de março de 2026
Heinrich Heine (1797-1856)
Os tecelões da Silésia**
Sem uma lágrima no sombrio olhar,
Ei-los sentados, de dentes cerrados, junto ao tear:
Alemanha, a tua mortalha tecemos à mão,
E nela tecemos três vezes maldição –
Ao tear, ao tear!
Maldição ao ídolo a quem de Inverno
Rezámos com frio e fomes de inferno;
Em vão estivemos à espera e com esperança,
E ele troçou de nós, riu-se da matança –
Ao tear, ao tear!
Maldição ao rei, rei dos ricaços,
Que não abrandaram os nosso cansaços,
Que nos arrancou os últimos vinténs
E nos faz metralhar como a cães –
Ao tear, ao tear!
Maldição à pátria falsa e medonha,
Onde apenas medram o roubo, a vergonha,
Onde cada flor logo em botão se corta,
Onde os vermes se cevam de carne morta!
Ao tear, ao tear!
Voa a lançadeira, estala o tear,
E nós noite e dia a tecer, a suar,
Velha Al’manha, tecemos tua mortalha à mão,
E nela tecemos três vezes maldição.
Ao tear, ao tear!
(Silésia, importante zona industrial da Polónia e da Chéquia. O Poeta Heinrich Heine é, para muitos, o maior poeta de língua alemã, com influência tanto a Ocidente como a Oriente. Escritor ácido nas suas crónicas, socialista, sendo embora mais velho que Karl Marx vinte anos, foi seu amigo e o filósofo que escreveu o "Manifesto" nutriu por ele profunda admiração. A influência de Heine nos escritos políticos de Marx é notória. Este poema aqui partilhado obteve ao tempo uma enorme repercussão e foi um "toque de finados " na poesia lírica romântica alemã vigente.)