sábado, 14 de fevereiro de 2026

 

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha falsa e demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira, in 'Bandeira de bolso: uma Antologia Poética'

 https://youtu.be/Ch2mrPm1JnM?si=_ysqHWFRToQ2XNH4

 

C.Debussy - Clair de Lune, Maria João Pires live at Jardin Musical

domingo, 18 de janeiro de 2026

 POESIA PERSA (IRÃO)
«Um dos grandes marcos culturais e linguísticos na história do Irão é o Shahnameh (completado em 1010), um poema épico que relata os mitos fundadores do país, sendo a primeira grande obra escrita em persa moderno. Desde então, a poesia assumiu um papel central dentro do Irão e outros países falantes de persa (como o Tajiquistão, o Uzbequistão e o Afeganistão). Muitos governantes abrigavam poetas em suas cortes, financiando-os. Os panegíricos que esses poetas escreviam, denominados qasida, deram origem ao gazal, que tem natureza mais amorosa e erótica. O robāʿi, caracterizado por seu caráter epigramático e filosófico, é outra forma de imensa importância.

Eis aqui um gazel feito por Manuel Bandeira em louvor de Hafiz:

"Escuta o gazal que fiz,
Darling, em louvor de Hafiz:

– Poeta de Chiraz, teu verso
Tuas mágoas e a minha diz,

Pois no mistério do mundo
Também me sinto infeliz.

Falaste: "Amarei constante
Aquela que não me quis."

E as filhas de Samarcanda,
Cameleiros e sufís

Ainda repetem os cantos
Em que choras e sorrís.

As bem-amadas ingratas,
São pó: tu, vives, Hafiz!"

Além de gazéis, Hafiz escreveu methnevi (palavra que significa "duplicado": nesse tipo de poesia os versos são de rimas duplas); numerosos kite (fragmentos) – poemas religiosos, amorosos ou báquicos; e rubáiyát (quartetos).

Todas essas produções foram recolhidas no Divã (coletânea), após a morte do poeta, por seu amigo Mohammed Gulandam.

 POEMAS DE HAFIZ (reconhecidamente o maior poeta da civilização pesa e inovador da poesia de tradição persa)

JURAMENTO DE AMOR
Pela magia dos teus olhos, ó feliz rapariga, pela maravilha da penugem de tuas faces;

Pelo hálito de tua boca de rubis, pela tua cor e pelo teu aroma, ó bela Primavera que me enlevas;

Pela poeira do caminho que trilhas, pela terra que, sob os teus pés, faz ciúme à água clara;

Por esse andar que lembra o voo da perdiz dos montes, por esses olhos mais doces do que os olhos da gazela;

Por tua graça e pelo teu hálito em que há o perfume das madrugadas, pelo feitiço dos teus cabelos cheirosos como o vento da tarde;

Por esses olhos de ônix que tanto deslumbram os meus olhos, por essas pérolas do escrínio de tua palavra;

Pela flor de tuas faces, ó Roseira de inteligência, por esse divino jardim, lar dos meus sonhos:

Hafiz, o poeta, jura, se para ele volves o olhar, que, para satisfazer-te, sacrificará não só todos os seus bens, mas ainda a própria vida.

*

EMBRIAGUEZ
A violeta inveja o aroma das tuas tranças, e ante a flor aberta do teu sorriso o botão de rosa dilacera as pétalas.

Ó Rosa, cujo perfume tanto me embriaga, não deixes morrer assim o teu rouxinol, cantor incansável da tua beleza.

Amar-te – eis o destino escrito em minha fronte. O pó do limiar de tua porta é o meu paraíso; teu radioso semblante, a minha alegria; teu prazer, o meu repouso.

O amor é um mendigo que em seus trapos esconde um tesouro, e aquele que pede esmola pode ganhar uma coroa.

Esta alucinação a que a embriaguez me leva, e o delírio do meu amor, não me permitirão descansar a cabeça enquanto não a tiver inclinado até à poeira que pisas.

Tua beleza é um jardim de flores, e Hafiz, de cantos tão doces, é o teu rouxinol.

*

A CIDADE DO AMOR
Ó Cidade do Amor! Admirável cidade! Suave estância da graça! Namorados! é de lá que vos saúda o amor!

Nunca os olhos do Céu pousaram sobre mais frescas raparigas! Jamais se ofereceu mais bela presa às flechas do caçador!

Quem já viu formas terrestres mais semelhantes a anjos? Que a poeira mortal nunca lhes suje as vestes!

E tu, ó Bem-Amada, porque afastas de tua presença uma criatura tão desgraçada como eu?

Ah! que esperança eu tinha de um beijo, de um abraço!

Amada, o vinho é de boa vindima: bebe-o sem demora, goza da hora propícia. Mais tarde, dizes tu... Mas quem pode contar com outra Primavera?

Vê: os companheiros da Tulipa e da Rosa já estão reunidos no jardim. Cada conviva enche a sua taça em homenagem àquela a quem ama...

E eu – como resolver este enigma do meu coração? Que sofrimento! Doloroso mistério!

Os meus cabelos se misturaram às tranças de uma doce rapariga. Como é perigoso habitar a Cidade do Amor!

*

VOTOS DE AMANTE
Que a tua beleza cada dia mais resplandeça!

Que tua face de cores frescas, igual à tulipa, não deixe de me alegrar os olhos.

Que a visão do teu amor, brilhante como uma estrela, cintile cada vez mais no meu pensamento.

Que todas as belezas deste mundo se ponham ao serviço da tua beleza.

Inclinem-se todos os ciprestes diante da tua esbeltez.

Derramem sangue em vez de lágrimas os olhos rebeldes ao teu encanto.

Teu olhar, que sabe enfeitiçar todos os corações, seja ele dotado de todos os sortilégios.

Não conheça repouso nem paz o coração que de leve te possa ferir.

Que os teus lábios tão doces, mais caros a Hafiz que a sua própria alma, ignorem sempre os beijos indignos deles.

*

O CÍRCULO ENCANTADO
Quem pensa com amor na lanugem de tuas faces fica pelo resto da vida prisioneiro num círculo encantado.

Quando, no dia da ressurreição, minha cabeça se erguer do pó da sepultura, as cicatrizes do louco amor que me inspiras serão visíveis ainda em todos os pontos do meu coração.

Possam os teus anelados cabelos formar um abrigo em que eu descanse a cabeça e onde encontre repouso o coração mal-ferido.

Aproxima-te de mim, por um minuto, ó coração do meu coração: mais tarde a união será talvez impossível.

Até quando permitirás, ó pérola rara, que eu tenha a alma abismada no oceano da tristeza?

As lágrimas me assomam; sinto-as tremer nos cílios... Ei-las agora a cair-me em ondas.

Tudo porque os teus olhos de amorosos olhares não se volvem para Hafiz. O orgulho é a qualidade do cruel narciso.

*

LEMBRANÇA
Nada mais grato ao coração que a lembrança das palavras de amor.

Sob o zimbório arredondado deste quarto imagino ainda escutar-lhes o eco; mas o vinho rubro que bebi é apenas uma água amarga.

Poupa-me o coração, de há muito – e para sempre – embriagado pela tua beleza.

O narciso está morrendo de inveja dos teus olhos. Não alcançou o segredo da magia do teu olhar, e suas pétalas se fanaram.

De tão maravilhado com a tua beleza, o pintor andou fixando por toda parte, nas portas e paredes, a lembrança dela.

O coração de Hafiz veio um dia brincar em tuas tranças. Quis retornar, era tarde: ficou prisioneiro para sempre.

*

A LUA DA ESPERANÇA
A fênix da felicidade cairá num laço se te dignares – simplesmente – de passar perto de minha casa.

Quando minha alma esteve entregue, em sacrifício, aos teus lábios, acreditei que um gole de água pura me refrescaria a boca.

Se os reis são indignos de beijar a poeira de tua porta, que esperança posso nutrir de que respondas à minha saudação?

Todavia, ó Hafiz, não deixes, despeitado, essa porta; tenta a fortuna. Talvez o dado da sorte venha a cair em teu nome.

Na noite em que a lua da esperança se ergue no céu, que o seu reflexo de prata inunde a tua açoteia!
Quando Hafiz se refere à poeira de tua rua, as rosas do jardim da vida nos envolvem com o seu perfume.