A arte pós-moderna (surgida em meados do século XX) rompe com as verdades absolutas e a "alta cultura" do modernismo. Destaca-se pela apropriação, pastiche, intertextualidade e fusão com a cultura popular. Os trabalhos utilizam ironia e meios não tradicionais para questionar a própria instituição artística.
Obras e Artistas de Referência
Your Body Is a Battleground (1989), de Barbara Kruger Uma
das obras mais icónicas da apropriação pós-moderna. Combina uma
fotografia de rosto feminino dividida, texto forte e alto contraste para
criticar o controlo do corpo da mulher e as dinâmicas de poder.
Untitled Film Stills (1977–1980), de Cindy Sherman Uma
série de autorretratos fotográficos onde a artista encarna diversos
estereótipos femininos presentes no cinema clássico de Hollywood.
Questiona o olhar masculino, a construção da identidade e a natureza da
própria fotografia.
Rabbit (1986), de Jeff Koons Um
coelho insuflável fundido em aço inoxidável que reflete perfeitamente a
estética neo-pop. A obra eleva um objeto de cultura de massa efémero ao
estatuto de "alta arte" luxuosa, desafiando a distinção entre bom e mau
gosto.
Campbell's Soup Cans (1962), de Andy Warhol Sendo
uma das peças fundadoras da Pop Art, subverte a ideia de originalidade e
exclusividade artística ao reproduzir em massa latas de sopa de
supermercado, criticando e celebrando a sociedade de consumo.
Azulejão (2016), de Adriana Varejão Da
arte contemporânea/pós-moderna brasileira, esta instalação reimagina os
clássicos azulejos portugueses. A obra traz marcas e fissuras,
questionando narrativas históricas e a relação da arte com o passado
colonial.
Pode explorar e aprofundar as características que definem este período através da leitura dedicada do Pós-modernismo na RTP Ensina, que contextualiza detalhadamente a perda de confiança nas grandes narrativas históricas.
terça-feira, 14 de abril de 2026
David , de Miguel Ângelo, o Homem confiante e seguro de si da Renascença, e o as esculturas de Giacometti, nossas contemporâneas, do indivíduo frágil, trôpego, incerto. Os mercados, o marketing, o cinema, procuram atrair consumidores-pagadores para um ideal que, consciente ou mais ignorantemente, procura assemelhar-se a David, porém não conseguem com o músculo preencher o vazio a incerteza , a não confiança em sim mesmos,e o medo.
sábado, 21 de março de 2026
Heinrich Heine (1797-1856) Os tecelões da Silésia** Sem uma lágrima no sombrio olhar, Ei-los sentados, de dentes cerrados, junto ao tear: Alemanha, a tua mortalha tecemos à mão, E nela tecemos três vezes maldição – Ao tear, ao tear! Maldição ao ídolo a quem de Inverno Rezámos com frio e fomes de inferno; Em vão estivemos à espera e com esperança, E ele troçou de nós, riu-se da matança – Ao tear, ao tear! Maldição ao rei, rei dos ricaços, Que não abrandaram os nosso cansaços, Que nos arrancou os últimos vinténs E nos faz metralhar como a cães – Ao tear, ao tear! Maldição à pátria falsa e medonha, Onde apenas medram o roubo, a vergonha, Onde cada flor logo em botão se corta, Onde os vermes se cevam de carne morta! Ao tear, ao tear! Voa a lançadeira, estala o tear, E nós noite e dia a tecer, a suar, Velha Al’manha, tecemos tua mortalha à mão, E nela tecemos três vezes maldição. Ao tear, ao tear!
(Silésia, importante zona industrial da Polónia e da Chéquia. O Poeta Heinrich Heine é, para muitos, o maior poeta de língua alemã, com influência tanto a Ocidente como a Oriente. Escritor ácido nas suas crónicas, socialista, sendo embora mais velho que Karl Marx vinte anos, foi seu amigo e o filósofo que escreveu o "Manifesto" nutriu por ele profunda admiração. A influência de Heine nos escritos políticos de Marx é notória. Este poema aqui partilhado obteve ao tempo uma enorme repercussão e foi um "toque de finados " na poesia lírica romântica alemã vigente.)
21 de Março Dia Mundial da Poesia
Podes?
– Nicolás Guillén
Podes vender-me o ar que passa entre teus dedos E golpeia teu rosto e desalinha teus cabelos? Talvez possas vender-me cinco moedas de vento? Ou mais, talvez uma tormenta? Acaso me venderias ar fino – não todo – O ar que percorre teu jardim de flor em flor E sustenta o vôo dos pássaros? Dez moedas de ar fino, me venderias? O ar gira e passa na asa da mariposa. Ninguém o possui. Ninguém! Podes vender-me céu? Céu azul por vezes, ou cinza, também às vezes, Uma parte do teu céu, o que comprastes, pensas tu, Com as árvores do teu sítio, como quem compra o teto com a casa? Podes vender-me um dólar de céu? Dois quilômetros de céu, um pedaço, O que puderes, do “teu” céu? O céu está nas nuvens. Altas passam as nuvens. Ninguém o possui. Ninguém! Podes vender-me chuva? A água que forma tuas lágrimas molha tua língua? Podes vender-me um dólar de água da fonte? Um nuvem crespa, me venderias? Ou, quem sabe, água chovida das montanhas? Ou água dos charcos, abandonada aos cães? Ou uma légua de mar, talvez um lago? A água cai e corre. A água corre. Passa. Ninguém a possui. Ninguém. Podes vender-me terra? A profunda noite das raízes, dentes de dinossauros, A cauda espersa de longínquos esqueletos? Podes vender-me selvas já sepultadas, aves mortas, Peixes de pedra, enxofre dos vulcões, Milhões e milhões de anos em espiral crescendo? Podes vender-me terra? Podes vender-me? Podes A tua terra é terra minha, todos os pés se apóiam nela. Ninguém a possui. NINGUÉM! _________________________ Nicolás Guillén, poeta cubano. (1902-1989)
Max Ernst era um alemão artista nascido em 2 de abril de 1891. Ernst contribuiu para o Dadaista e surrealista movimentos, trabalhados no Estados Unidos e França e morreu em 1 de abril de 1976.
Vilhelm Hammershøi, Vista de Jægersborg Allé, 1892.
Por TERRY EAGLETON*
Primeiro capítulo do livro recém-traduzido “Tragédia”
“Não era algo de
ordem monstruosa; não era um destino raro e distinto; não era um golpe
de sorte que oprimia e imortalizava; tinha apenas o selo da desgraça
comum”. (Henry James, A fera na selva)
1.
A tragédia é considerada universal, o que é verdade se tivermos em
mente o sentido cotidiano da palavra. O luto pela morte de uma criança,
um desastre em uma mina ou a desintegração gradual de uma mente humana
não se limitam a nenhuma cultura em particular. A tristeza e o desespero
constituem uma língua franca. No entanto, a tragédia no sentido
artístico é um assunto altamente específico. Não há equivalente próximo
dela, por exemplo, na arte tradicional da China, Índia ou Japão.
Em um magnífico estudo da tragédia do início da era moderna, Blair
Hoxby aponta que “os europeus viviam sem nenhuma categoria para o
trágico, embora vissem tragédias em todos os lugares”. A forma não se
origina como reflexão atemporal sobre a condição humana, mas como uma
forma na qual determinada civilização enfrenta os conflitos que a
assolam durante um momento histórico efêmero.
Toda arte tem uma dimensão política, mas a tragédia, na verdade,
iniciou como uma instituição política. Para Hannah Arendt, ela é a arte
política par excellence. Apenas no teatro, Hannah Arendt
afirma, “a esfera política da vida humana é transposta para a arte”. De
fato, a tragédia grega antiga não é apenas uma instituição política em
si mesma, mas duas de suas obras, Eumênides, de Ésquilo, e Édipo emColono, de Sófocles, dizem respeito à fundação ou garantia de instituições públicas.
É fato conhecido que o drama trágico, realizado na Grécia antiga como
parte do festival de Dionísio, era financiado por um indivíduo nomeado
pela cidade-estado, cujo dever público era ensaiar e pagar o Coro. O
Estado supervisionava os procedimentos de forma geral sob a autoridade
do magistrado chefe e mantinha os roteiros das apresentações em seus
arquivos. Os atores eram pagos pela pólis, e o Estado também fornecia um fundo para subsidiar a taxa de entrada para que cidadãos muito pobres pudessem pagá-la.
Os juízes do concurso eram eleitos pelo corpo de cidadãos e, sem dúvida, nas performances dramáticas
teriam exercido a perspicácia crítica que estavam acostumados a exercer
como jurados nos tribunais e como membros da assembleia política. Como
Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet comentam, era uma questão de
“a cidade se transformar em teatro”. “O texto da tragédia”, observa
Rainer Friedrich, “torna-se parte do discurso civil da pólis”.
2.
A tragédia, portanto, não era apenas experiência estética ou
espetáculo dramático. Era também uma forma de educação ético-política
que ajudava a inculcar a virtude cívica. Para Hannah Arendt, há um
paralelo entre a política e o teatro trágico, pois quando a política é
conduzida em sessão pública completa, como na Atenas antiga, ela
transforma seus participantes em artistas semelhantes a atores em um
palco.
A tragédia mais tardia não é, em sua maior parte, uma instituição
política oficial, embora na Alemanha do século XVIII, o romance Os anosde aprendizado de Wilhelm Meister,
de Goethe, e a teoria dramática de Gotthold Lessing reflitam sobre a
necessidade de um teatro estatal que unificasse a nação. Para Lessing,
assim como para alguns outros pensadores alemães de sua época, o teatro
promove a virtude pública e um senso de identidade coletiva.
Seja ou não baseado nacionalmente, no entanto, o drama trágico
continua a lidar com os assuntos de Estado, as revoltas contra a
autoridade, a ambição exagerada, as intrigas da corte, as violações da
justiça, as lutas pela soberania, tudo aquilo que tende a centrar-se nas
carreiras de figuras nobres cujas vidas e mortes têm consequências
importantes para a sociedade como um todo.
Politicamente falando, a tragédia grega tinha papel duplo, tanto
validando instituições sociais, quanto questionando-as. A arte pode
legitimar uma ordem social por meio de seu conteúdo, mas também
fornecendo ao público uma válvula de escape psicológica, promovendo
fantasias inofensivas que podem distraí-lo dos aspectos mais repugnantes
dos regimes sob os quais vive.
A Poética de Aristóteles não vê a tragédia como uma fantasia
inofensiva, mas a considera como alimentando o público com doses
rigidamente controladas de certas emoções (piedade e medo) que, de outra
forma, poderiam ser socialmente disruptivas. É, em suma, uma homeopatia
política.
No que diz respeito à tragédia como crítica, é surpreendente que um
evento político oficial, parte de um festival religioso reverenciado,
pudesse lançar luz tão ousada sobre o subtexto obscuro da civilização
grega antiga: sobre a loucura, o parricídio, o incesto, o infanticídio e
coisas do gênero, por mais que esses assuntos tenham sido empurrados
para o passado mitológico cautelosamente. É como se um festival em
homenagem à rainha da Inglaterra apresentasse uma série de quadros do
adultério desde Lancelot e Guinevere até as façanhas de Jack, o
Estripador.
3.
Na visão de Aristóteles, a tragédia grega pode fornecer uma forma de
terapia pública, purgando uma fragilidade emocional que pode colocar em
risco a saúde da pólis. Assim como em Platão, entretanto,
também é possível ver certos aspectos do teatro como politicamente
subversivos e exigir sua regulamentação estrita pelo Estado. A tragédia
mais tardia possui uma gama de papéis políticos. Ela pode lembrar o
público quão doentiamente precário o poder dos poderosos pode ser, ou
fornecer um corpo de mitologia em torno do qual a nação pode renascer.
Nós veremos mais adiante como a filosofia alemã da tragédia se propõe
a resolver certas contradições que surgem de um estágio inicial da
civilização de classe média. A dimensão pública ou política da tragédia
continua viva no teatro de Henrik Ibsen, mesmo que o cenário de seu
drama seja em grande parte doméstico. Isso ocorre porque, em Henrik
Ibsen, a família serve como um meio para tratar as questões sociais mais
profundas, de modo que os domínios privado e público se tornam difíceis
de serem dissociados.
É somente depois desse ponto que encontramos em uma escala
considerável o que poderia ser chamado de tragédia privada, prenunciada
em algum drama doméstico do século XVIII, no qual o que está
principalmente em jogo é um pai incestuoso, uma mãe viciada em drogas ou
um casal que sobrevive destruindo um ao outro.
A política da tragédia, no entanto, envolve mais do que o que
acontece no palco. Ela também significa uma luta sobre o significado do
trágico em si. Em seu estudo A morte da tragédia, o crítico
George Steiner vê a tragédia como uma crítica à modernidade. O espírito
verdadeiramente trágico expira com o nascimento do moderno. Ele não pode
sobreviver a uma era que deposita a fé em valores seculares, uma
política esclarecida, a conduta racional dos assuntos humanos e a
inteligibilidade final do universo.
Ele fica desconfortável nesse mundo desencantado, de modo que o termo
“tragédia moderna” se torna uma espécie de oxímoro. A tragédia não pode
tolerar uma ética utilitária ou uma política igualitária. Como
aristocrata entre as formas de arte, ela serve, entre outras coisas,
como traço de memória de certa ordem social mais espiritualmente
exaltada no coração de uma época desagradavelmente prosaica. Ela
representa um resíduo de transcendência em uma era de materialismo.
O que iniciou como instituição política, portanto, acaba como uma
forma de antipolítica. Somos resgatados das garras do comerciante, do
escrivão e do conselheiro local, e restaurados a um mundo de deuses,
mártires, heróis e guerreiros. Em uma era desvalorizada de pessoas
comuns, podemos nos voltar mais uma vez para o mistério, a mitologia e o
metafísico. Dada a afinidade histórica entre a tragédia e a democracia,
essa aversão ao espírito democrático é especialmente irônica.
A tragédia, ou pelo menos uma versão parcial dela, está entre os
vários substitutos da religião no período moderno, lidando como faz com a
culpa, a transgressão, o sofrimento, a redenção e a glorificação. É com
a morte de Deus que a arte trágica renasce, com toda a aura majestosa
da divindade que ela substitui. Para boa parte da teoria estética, não
pode haver nada mais resplandecente que o sublime, do qual a tragédia é a
expressão suprema; o que quer dizer que a tragédia é duplamente
destacada, ocupando o mais alto posto do mais elevado modo estético.
4.
Nessa visão, que absolutamente não se limita à obra de George
Steiner, o drama trágico é tudo o que a era moderna não é: elitista em
vez de igualitário, de sangue nobre em vez de mãos calejadas, espiritual
em vez de científico, absoluto em vez de contingente, irremediável em
vez de reparável, universal em vez de paroquial, uma questão de destino
em vez de autodeterminação. Ele lida com a morte de príncipes em vez do
suicídio de mercadores.
Arthur Schopenhauer é um dos raros filósofos da tragédia que insiste
que um grande infortúnio – que em sua visão levemente heterodoxa é
suficiente para constituir uma ação trágica – pode acontecer a qualquer
pessoa, independentemente da posição social. Esse infortúnio, ele
comenta, não precisa ser causado por circunstâncias raras ou personagens
monstruosos, mas pode surgir fácil e espontaneamente do comportamento
humano habitual.
No entanto, embora o filósofo sustente que as tragédias cotidianas
são as melhores, no sentido de que mais de nós podemos nos identificar
com elas, também afirma, de forma um tanto inconsistente, que os
protagonistas trágicos devem preferencialmente ter status nobre,
já que sua queda causa mais impacto. As circunstâncias que mergulham
uma família de classe média na penúria e no desespero, observa
Schopenhauer, podem parecer insignificantes aos olhos dos poderosos e,
uma vez que podem ser remediadas com facilidade pela ação humana,
dificilmente os levarão à piedade.
Os romancistas naturalistas franceses Edmond e Jules de Goncourt são
bem mais generosos. Eles escrevem: “Nós devemos nos perguntar se nesta
era de igualdade em que vivemos ainda poderia haver, para o escritor ou
para o leitor, quaisquer classes demasiadamente desprezíveis, quaisquer
misérias demasiadamente indignas, quaisquer dramas obscenos, quaisquer
catástrofes insuficientemente nobres em seu terror. Ficamos curiosos
para saber se a Tragédia, a forma convencional de uma literatura
esquecida e de uma sociedade desaparecida, estava realmente morta; se,
em um país sem castas e sem aristocracia legal, os infortúnios dos
pequenos e dos pobres poderiam despertar interesse, emoção e piedade no
mesmo grau que os infortúnios dos grandes e ricos; se, em uma palavra,
as lágrimas que são derramadas pelos de baixo poderiam evocar lágrimas
tão facilmente quanto as que são derramadas pelos de cima”.
5.
Nesse sentido, os Goncourt são herdeiros da linhagem da denominada
tragédia burguesa que, para figuras do século XVIII como Diderot e
Lessing, nos apresenta homens e mulheres comuns em situações familiares.
Na visão de Lessing, os espectadores de classe média nas bancadas devem
se ver refletidos nos personagens no palco. Para essa corrente de
pensamento, a tragédia não deve ser definida nem por um tom heroico, por
convenções neoclássicas, nem pelo status social dos personagens, mas por sua autenticidade emocional.
A teoria trágica medieval e renascentista vê a queda de um herói de
alta linhagem da prosperidade para a miséria como crucial para a forma;
mas, uma vez que os protagonistas são impassivelmente burgueses em vez
de glamourosamente aristocráticos, a noção de tragédia como queda
calamitosa começa a desaparecer. O mesmo acontece com a ideia de que ela
expõe a precariedade do poder ou a mutabilidade dos assuntos humanos.
Para uma visão mais tradicional que a de Lessing, a arte trágica não é
uma questão de infortúnios dos pobres, mas de mito e destino, ritual e
sacrifício de sangue, crimes graves e expiação heroica, mal e redenção,
deuses ciumentos e vítimas submissas. O sofrimento que ela retrata é
enobrecedor, além aterrador, de modo que deixamos o teatro edificado por
cenas de carnificina. Somente quando confrontada pela calamidade, o
espírito humano é capaz de revelar sua verdadeira nobreza.
A tragédia é a forma peculiar que não nos apresenta nem simplesmente a
aflição humana, nem simplesmente o que a transcende, mas uma em função
da outra. Nas palavras de George Steiner, ela representa “uma fusão de
tristeza e alegria, de lamento pela queda do homem e de regozijo na
ressurreição de seu espírito”. A forma artística desempenha papel vital,
moldando, distanciando, purificando e condensando os materiais trágicos
de uma forma que torna o poder de nos apavorar mais aceitável.
David Hume observa, no ensaio Da tragédia, que a
eloquência e a “artisticidade” da arte trágica tornam mais prazeroso o
conteúdo angustiante. Edmund Burke desenvolve o argumento engenhoso de
que esse prazer é a maneira de a Natureza nos impedir de evitar cenas de
miséria da vida real, inspirando-nos a voar em auxílio dos envolvidos.
Além disso, ficcionalizar eventos é investi-los com inteligibilidade,
bem como universalidade potencial, que podem faltar na vida cotidiana.
Na tragédia grega antiga, empurrar a ação para um passado lendário pode
ter o mesmo efeito cognitivo. Apesar de todo o caos e a incerteza da
ação trágica, podemos discernir vagamente o funcionamento da providência
dentro dela, principalmente se ficarmos um pouco distantes.
6.
Na visão de alguns críticos modernos, filósofos como Hegel revigoram o
inenarrável ao insistir que a tragédia revela um desígnio racional. É
um caso persuasivo, embora o próprio fato de a arte trágica existir
sugira que há mais no mundo do que a dor. A tragédia não é um grito sem
palavras. O trauma do “real” para Jacques Lacan está além da linguagem,
mas a tragédia permanece desse lado do silêncio.
“A linguagem por meio de sons, ou melhor ainda, palavras, é uma vasta
libertação”, escreve Bertolt Brecht, “porque significa que o sofredor
está começando a produzir algo. Ele já está misturando sua tristeza com
um relato dos golpes que recebeu; já está fazendo algo do totalmente
devastador. A observação instalou-se.”.
Na tragédia, observa Roland Barthes em Sobre Racine, nunca
morremos porque estamos sempre falando. O verdadeiro desespero acontece
quando não somos mais capazes de falar. Se há esperança após a morte de
Lear, ela está inscrita – entre outros lugares – na própria integridade
do verso, que não consegue se calar diante dessa catástrofe.
No entanto, o fato de a poesia não se revelar completamente é uma
pequena recompensa pelos horrores que retrata. “Toda obra de arte,
incluindo a tragédia”, observa Yuri Jivago, de Boris Pasternak,
“testemunha a alegria da existência. […] Ela está sempre meditando sobre
a morte e, assim, está sempre criando vida.” Mas as realizações da arte
em nenhum sentido redimem o sofrimento que o romance retrata.
Em uma visão conservadora, Ésquilo é trágico, mas Auschwitz não. Não
se trata de que o Holocausto não seja lamentável além das palavras, mas
de que ele nada faz para elevar nosso senso de possibilidade humana. O
que quer que nos deixe abatidos em vez de exaltados – um acidente aéreo,
a fome, a morte de uma criança – não se qualifica para o status trágico. O sentido estético da palavra se liberta de seu significado cotidiano.
É uma fissura histórica, bem como conceitual: os gregos antigos
parecem ter pouca ideia do trágico em nosso sentido coloquial do termo,
ou, nesse caso, da tragédia como uma visão de mundo (embora o
pronunciamento sombrio de Sófocles, de que seria melhor para homens e
mulheres nunca terem nascido, tenha toda a ressonância dessa ideia).
Para a Grécia antiga, o termo pode evocar o magnífico ou o grandioso,
razão pela qual Aristófanes pode zombar do alto estilo da tragédia, mas
raramente do triste.
O termo “trágico” em seu sentido comum é um desenvolvimento posterior
e, como tal, é um caso de vida imitando a arte. Significa algo como
“indizivelmente triste”, distinto de forma de arte ou visão do mundo.
Vale a pena notar, incidentalmente, que uma cultura pode ter uma visão
trágica sem produzir nenhuma arte trágica muito notável, ou vice-versa.
7.
Na visão clássica, desastres da vida real não são trágicos porque são
uma questão de sofrimento bruto. É somente quando esse sofrimento é
moldado e distanciado pela arte, de modo que algo de seu significado
mais profundo seja liberado, que podemos falar adequadamente de
tragédia. A arte trágica faz mais do que retratar o intolerável; ela
também nos convida a refletir sobre ele, honrá-lo, homenageá-lo,
investigar suas causas, lamentar as vítimas, absorver a experiência em
nossa vida cotidiana, recorrer a seus terrores para confrontar nossa
fraqueza e mortalidade e, talvez, encontrar algum momento provisório de
afirmação em seu cerne.
Essa afirmação, como vimos, pode ser simplesmente o fato de que a
própria arte continua a ser possível. O problema dessa teoria, no
entanto, é que essas coisas também podem acontecer em calamidades da
vida real, que raramente são um caso de sofrimento e nada mais. O ataque
ao World Trade Center, em 2001, levou rapidamente a um drama coletivo
de luto e meditação públicos, mito e lenda, designação e homenagem,
contemplação e comemoração, todos os que faziam parte da ação trágica.
Nós não precisamos que o sofrimento seja colocado no palco para ver além
da dor imediata.
A versão conservadora da tragédia depende muito do teatro da Grécia
antiga, mas não se encaixa em algumas de suas obras. O drama de
Eurípides, por exemplo, dificilmente se destaca por apresentar uma visão
legal e harmônica do universo. Para as teorias conservadoras, tal ordem
nos concede o consolo do significado, e mostrá-lo sendo violado é
demonstrar quão inexpugnável ele é. Elas também promovem sentimentos de
reverência, admiração e submissão.
Conscientes de nossa fragilidade, encontramos no trágico uma crítica à
razão arrogante, sem nos entregarmos ao pessimismo ou ao determinismo
científico. Nós nos sabemos livres, mas de forma compatível com um
respeito pela necessidade cósmica. Se o determinismo vulgar deve ser
rejeitado, o individualismo anárquico também deve. Os seres humanos não
são meros brinquedos de forças externas, nem (como em uma mitologia
comum da classe média) independentes e soberanamente autorresponsáveis.
Eles são livres o suficiente para refutar os materialistas
científicos, mas sujeitos à lei cósmica de maneira que igualmente
confunde os individualistas liberais. Os poderes humanos são, portanto,
humilhados e afirmados de uma só vez. Somos agentes, com certeza, mas
não somos totalmente a fonte de nossas próprias ações.
Aqui, há um paralelo remoto com o público de uma tragédia teatral,
que é ativo na forma como interpreta o drama, mas fisicamente passivo e
impotente, incapaz de intervir para evitar a catástrofe e, portanto, tão
vítima do destino quanto os protagonistas. Com algumas exceções de
vanguarda, todo teatro é uma imagem do determinismo, dado que o público
não tem permissão para subir no palco. As palavras “teatro” e “teoria”
são etimologicamente correlatas, e ambas sugerem contemplação em vez de
ação.
8.
Dado que somos capazes de extrair valor do fracasso e da desolação,
há esperança, mas não algum otimismo entusiástico. Tanto os pessimistas
quanto os progressistas estão, portanto, ultrapassados.
A nobreza humana é afirmada em oposição aos materialistas mecânicos,
mas os sonhadores utópicos são lembrados da finitude humana. É preciso
apegar-se ao valor que a tragédia revela, ao mesmo tempo que reconhece
sua fragilidade, seguindo um curso entre o cinismo e o triunfalismo. A
razão tem seu lugar nos assuntos humanos – com devido respeito aos
niilistas subversivos –, mas o enigma do sofrimento expõe os limites
dessa razão em relevo gritante, fato que não traz conforto aos
racionalistas da classe média. Há pena e medo, mas essas são emoções
edificantes, que não devem ser confundidas com algum humanitarismo
sentimental.
A tragédia, nessa visão, valoriza a sabedoria sobre o conhecimento, o
mistério sobre a lucidez, o eterno sobre o histórico. Ela representa o
lado obscuro do Iluminismo, a sombra lançada pelo excesso de luz dos Aufklarers. “O éthos da tragédia”, escreve Christopher Norris, “é algo estranho à semântica geral do racionalismo humanista”.
Entre as discussões com os illuminati está a alegação de que
as raízes da tragédia são mais profundas do que o social e,
consequentemente, estão além do reparo. Nenhum medicamento poderia curar
o pé inflamado de pus de Filoctetes, nenhum aconselhamento psicológico
resgataria Fedra de sua condenação. Uma orientação matrimonial não
poderia fazer nada por Anna Karenina, tampouco um curso sobre diferença
cultural salvaria o destino de Otelo.
A tragédia é, portanto, uma rejeição aos reformistas sociais e
utopistas políticos. Aos olhos de George Steiner, o drama de Ibsen falha
no teste da tragédia porque gira em torno de questões que podem ser
corrigidas na prática. Em Um inimigo do povo, Ibsen toma como
tema a infecção de uma casa de banho pública, que, na visão de Steiner, é
assunto demasiadamente indigno para uma tragédia genuína. “Se há
banheiros nas casas da tragédia”, escreve com um floreio esplêndido, “é
para Agamenon ser neles assassinado”.
9.
Nessa teoria, há algo intoleravelmente imaturo na esperança social,
comparada ao desencanto maduro daqueles que perscrutaram o coração
escuro das coisas. “O destino de Lear”, declara Steiner, “não pode ser
resolvido pelo estabelecimento de lares adequados para os idosos”. Não é
de fato óbvio que seja assim. Se Lear, expulso por suas filhas
implacáveis, tivesse recebido consolo e abrigo de alguma alma mais
gentil, talvez não tivesse precisado morrer.
Mesmo assim, William Empson tem razão quando argumenta que “é apenas
em grau que qualquer melhoria da sociedade poderia evitar o desperdício
de poderes humanos; o desperdício, mesmo em uma vida afortunada, e o
isolamento, mesmo de uma vida rica em intimidade, não podem deixar de
ser sentidos profundamente, e é esse o sentimento central da tragédia”.
Esse não precisa ser um caso antipolítico; na verdade, William Empson o
faz como um socialista de longa data. Isso é, no entanto, insistir nos
limites do político. A política pode abolir certos conflitos, mas não
pode acabar com toda a angústia e desespero.
Na visão tradicional, a arte trágica não pode sobreviver por muito
tempo em um mundo desprovido de mito, providência e presença onerosa dos
deuses. No entanto, o momento exato que ela morre é uma questão de
disputa. Ao contrário de Mark Twain, a tragédia tem sido assunto não de
um, mas de toda uma série de obituários prematuros. Hegel sustenta que a
arte como tal chegou ao fim na era moderna e que, embora o drama
trágico continue a ser encenado, é em grande parte um material inferior,
carente da dimensão histórico-mundial dos antigos.
A arte se voltou de tais questões importantes para a ética e a
psicologia, um declínio já prefigurado na obra e Eurípides. Para
Nietzsche, a tragédia morreu na própria infância, estrangulada em seu
berço com o advento do cético Eurípides e do cerebral Sócrates. Sigmund
Freud considera vital a ideia de destino para a tragédia antiga e duvida
que possa haver qualquer equivalente moderno convincente. O complexo de
Édipo sobrevive ao próprio Édipo, mas alguns críticos estão menos
seguros de que a tragédia também tenha sobrevivido.
Richard Halpern rejeita a tese da “morte da tragédia”, mas argumenta
com alguma plausibilidade que a forma entrou em “férias prolongadas” ao
longo do século XVIII e da maior parte do século XIX. Pode-se
acrescentar que esse é o período em que uma classe média cada vez mais
autoconfiante está em ascensão, e que quando essa garantia começa a
vacilar, nas décadas finais do século XIX, a tragédia encena um retorno.
George Steiner parece afirmar que a arte sobrevive até Racine, mas
depois começa a declinar. O declínio, ele sustenta, “foi concomitante
com a democratização dos ideais ocidentais […]. A tragédia argumenta uma
aristocracia do sofrimento, uma excelência da dor”.30 Há aqueles para
quem o responsável é o cristianismo, com sua visão escatológica de
esperança, que administra o coup de grâce, assim como estudos – como The Modern Temper [O temperamento moderno], de Joseph Wood Krutch –, para os quais os assassinos emquestão são a ciência e o secularismo.
10.
Quão trágica é a morte da tragédia – se seu fim deve ser lamentado
como uma perda dolorosa – é uma questão para debate. Ao analisar o livro
Metateatro: uma novavisão da forma dramática, de
Lionel Abel, Susan Sontag compartilha a visão do autor de que a morte da
tragédia não é motivo de consternação, mesmo porque, na opinião dela, a
tragédia nunca foi uma corrente central do teatro ocidental.
Albert Camus considera a perda de um senso de ordem e restrição nos
tempos modernos como fatal para o espírito trágico, que não pode
prosperar sem que os indivíduos sejam severamente lembrados dos limites
de seus poderes. Agnes Heller e Ferenc Fehér veem o fim da tragédia como
seguindo de perto os calcanhares da morte de Deus, em vez de ver o alto
estilo trágico como a compensação a uma divindade ausente. O mundo
moderno é o teatro do deus absconditus, um abismo ontológico no qual a liberdade e a dignidade trágicas desapareceram sem deixar vestígios.
Há também aqueles para quem a tragédia não pode sobreviver ao
Holocausto, ou à perda generalizada de significado da modernidade
tardia, ou à subjetividade profunda e descentralizada do pós-modernismo.
Em contraste, A tragédia moderna, de Raymond Williams, uma réplica a George Steiner em seu próprio título, vê a arte trágica mantendo o vigor no século XX.
George Steiner recrimina tanto o cristianismo quanto o marxismo por
terem colaborado para o declínio da tragédia: “O menor toque de qualquer
teologia que tenha um Céu compensador para oferecer ao herói trágico é
fatal”. Nesse cálculo, uma das figuras trágicas mais comoventes da
ficção inglesa – Clarissa, de Samuel Richardson, que acredita
devotamente na vida após a morte – não é trágica de forma alguma, nem
Hamlet, se ele realmente acredita que a felicidade no sentido de
paraíso, em vez de esquecimento misericordioso, é onde está o seu
destino.
Tanto o marxismo quanto o cristianismo são fundamentalmente
esperançosos, enquanto a tragédia termina mal na visão de George
Steiner. No entanto, isso é certamente duvidoso. Aristóteles fala de uma
transição da miséria para a felicidade, bem como o inverso. A Oresteia termina
com uma nota positiva: boa parte do drama trágico mistura uma tensão de
esperança, embora tímida e provisória, com a lamentação. O que é
trágico não é apenas uma conclusão calamitosa, como George Steiner
parece imaginar, mas o fato de que homens e mulheres devem ser
arrastados pelo inferno para serem redimidos; que muitos deles, como
Édipo e Lear, não sobreviverão a esse processo purgatorial; e que, mesmo
que sobrevivam, não há garantia de que emergirão dele em forma
espiritual mais animada.
Além disso, o que é trágico não é simplesmente o trauma de ruptura e
reconstrução, mas o fato de que isso é necessário em primeiro lugar.
Somente porque a nossa humanidade está tão desfigurada, e a autoilusão
tão profundamente enraizada, é que esses batismos de fogo são
essenciais. Seria melhor se os reformistas estivessem certos e
pudéssemos evoluir para um futuro de justiça e camaradagem sem a
necessidade de autoexpropriação radical.
Infelizmente, aqueles que sustentam essa visão são os verdadeiros
fantasistas utópicos, enquanto os realistas impassíveis são os que veem a
tragédia como um esforço para contemplar a cabeça da Medusa do Real sem
serem transformados em pedra.
11.
Tanto o marxismo quanto o cristianismo são de fato doutrinas
trágicas, mas isso não é porque eles preveem um fim desastroso para a
história. É porque eles estão conscientes do preço terrível que um mundo
injusto deve pagar por sua redenção. O chamado Novo Testamento
é notável por ser um documento trágico, mas não heroico. Não há nada de
minimamente nobre ou edificante na morte sórdida de seu protagonista
marginal, uma morte tradicionalmente reservada pelo poder imperial
romano para insurgentes políticos.
Kathleen M. Sands escreve que “a fé teísta é precisamente a convicção
de que a tragédia é apenas aparente e que as perdas contadas na
tragédia não são realmente definitivas”; mas, embora o sofrimento possa
ser finalmente superado, isso só pode acontecer se a sua realidade for
confrontada, e é essa dupla ótica que tanto os pessimistas quanto os
panglossianos falham em reconhecer. O corpo ressuscitado de Jesus, ainda
carregando as marcas de suas feridas, não pode anular o fato de sua
tortura e humilhação.
Nem mesmo Deus pode mudar o passado. Ele não pode fazer com que
aqueles que morreram em tormento tenham realmente morrido em regozijo. É
verdade que a fé cristã oferece a promessa de um futuro além da
tragédia – um mundo em que tudo o que estiver rompido será
reconstituído, aqueles que choram serão consolados e todas as lágrimas
serão enxugadas –, mas esse futuro só pode ser alcançado por meio da
passagem através da morte e do abandono.
Quanto a Marx, aqueles que afirmam que “ele repudiou todo o conceito
de tragédia” ignoram, entre outras coisas, seu horror à destruição dos
tecelões ingleses de teares manuais, a qual ele vê como um processo
profundamente trágico, bem como seu comentário de que o capitalismo
surge escorrendo sangue por todos os poros. Gilles Deleuze está
enganado, portanto, ao afirmar que “a dialética em geral não é uma visão
trágica do mundo, mas, ao contrário, a morte da tragédia, a
substituição da visão trágica por uma concepção teórica (com Sócrates)
ou uma concepção cristã (com Hegel)”. Marx é um dialético para quem a
elaboração do conflito envolve perdas irreparáveis. Aqueles que
pereceram na luta de classes não serão recompensados por quaisquer
sucessos que seus descendentes sejam capazes de registrar.
12.
Em A tragédia moderna, Raymond Williams considera as
revoluções anticoloniais do século XX como constitutivas de uma única
ação trágica estendida no espaço e no tempo; mas ao chamá-las de
trágicas ele não quer dizer que essas insurreições foram derrotadas, ou
que foi loucura lançá-las em primeiro lugar. Ele quer dizer, antes, que
os crimes do colonialismo foram tão monstruosos que resolvê-los envolveu
uma luta até a morte, e aqui reside a tragédia. Que a vida deva surgir
da morte não é motivo para comemoração, mas é preferível a não haver
vida alguma.
George Steiner de A morte da tragédia insiste que a tragédia
implica valor, mesmo que também a questione. Não lamentamos a perda do
que consideramos sem valor. A morte de um inseto não é uma ocasião para a
retórica raciniana. Talvez a tragédia final fosse uma condição na qual
estivéssemos tão descuidados com o valor humano que não seríamos mais
capazes de lamentar. “[O] homem [trágico]”, comenta George Steiner, “é
enobrecido pelo rancor vingativo ou pela injustiça dos deuses. Não o
torna inocente, mas o santifica como se tivesse passado pela chama”.
Mais tarde, no entanto, defendeu que qualquer exaltação desse tipo
significa a ruína da tragédia. Até mesmo Shakespeare, com a única
exceção de Timon de Atenas, demonstra-se, nessa visão
deprimente, insuficientemente sombrio para se qualificar para a chamada
arte trágica “absoluta”, na qual “a nulidade devora como um buraco
negro”.
Se a tragédia deve ser absoluta, o que dizer daquelas situações em
que as esperanças de alguém poderiam ter sido preenchidas, mas estão, na
verdade, frustradas? Isso não é mais pungente do que uma esperança
estéril desde o início? Jude Fawley, de Thomas Hardy, morre tendo
consciência de que há planos para fundar uma faculdade para
trabalhadores na universidade que o excluiu, fato que empresta uma ponta
mais afiada ao seu próprio fracasso, ao mesmo tempo que qualifica
qualquer desespero absoluto.
Há, de fato, notavelmente poucas tragédias de inclinação niilista inflexível – certamente não Timon, a
menos que se leia a peça endossando, de forma absurda, a misantropia
enlouquecida de seu protagonista –, mas, aos olhos de Steiner, tais
instâncias de melancolia incessante são definitivas da forma. O menor
lampejo de positividade provavelmente dará conforto aos defensores
obstinados da engenharia social.
Ele poderia ter listado em seu apoio os dramaturgos do Trauerspiel examinados em A origem do drama trágico alemão,
de Walter Benjamin, que, em uma Europa devastada pela Guerra dos Trinta
Anos, apresentam a existência humana como vazia e vã. Em vez disso,
propõe o Woyzeck implacavelmente triste de Büchner como
exemplar do modo trágico, embora seu protagonista esteja longe de ser
nobre, o tipo de herói trágico que Steiner geralmente prefere.
A peça também data de bem depois da época em que The Death of Tragedy supõe
que a tragédia tenha expirado, expulsa por uma aliança profana entre
ciência, racionalismo, secularismo, democracia e a brutalização da
linguagem por uma modernidade degradada. Elogios profusos também são
feitos à obra de Kleist, Hölderlin e Wagner, embora, assim como Büchner,
todos os três escrevam depois do momento em que se diz que a tragédia
se calou.
13.
Se a tragédia sobrevive ou não aos gregos antigos depende, entre
outras coisas, do que se quer dizer com o termo. Se Sófocles e Tchekhov
são trágicos em sentidos bem diferentes, então a questão da continuidade
é complicada. “A tragédia”, escreve Raymond Williams, “não é um tipo de
fato único e permanente, mas uma série de experiências, convenções e
instituições”. Se é assim, no entanto, então somos obrigados a perguntar
por que chamamos todas essas experiências, convenções e instituições
pelo mesmo termo.
O nome é tudo o que elas têm em comum ou denota um único fenômeno? É
uma disputa entre os nominalistas e os essencialistas, ou os
historicistas e os universalistas. Aristóteles pertence ao último campo
em sua crença de que a poesia é uma forma mais universal do que a
história, enquanto outros adotam uma visão historicamente mais relativa.
Friedrich Hölderlin defende um vínculo orgânico entre a tragédia grega
antiga e o republicanismo, convencido de que somente com a recriação de
tais condições políticas a arte trágica pode prosperar novamente.
A Revolução Francesa, portanto, oferece a possibilidade de seu
renascimento. Enquanto isso, a tragédia, na visão de Hölderlin,
definhou. Ela declinou de sua antiga grandeza para o sentimentalismo e o
sensacionalismo. Há um sentido em que isso também é verdade para Karl
Marx, que, na célebre passagem de abertura de O 18 brumário de Luís Bonaparte,
contrasta sardonicamente o espírito nobre da antiga república romana
com as tentativas espalhafatosas dos revolucionários burgueses modernos
de se enfeitarem com suas vestes. Levados a se enganar sobre o escasso
conteúdo de suas próprias insurreições, eles se esforçam em uma mistura
de farsa e páthos “para manter a paixão deles no alto plano da grande tragédia histórica”.
Em A origem do drama trágico alemão, Walter Benjamin insiste
na especificidade histórica da tragédia, argumentando que apenas a
variedade grega antiga realmente merece o termo. A filosofia da
tragédia, ele critica, é um discurso desistoricizante, reduzindo a
tragédia a um conjunto generalizado de sentimentos em condições
históricas bastante diferentes. “O trágico” não existe. Não há nada no
teatro moderno que remotamente se assemelhe a Ésquilo ou Sófocles.
O Trauerspiel alemão do século XVII, por outro lado, está explicitamente vinculado ao seu contexto histórico. Em um estudo intitulado Hamlet or Hecuba? [Hamlet ou Hécuba?], o
filósofo Carl Schmitt é igualmente cético em relação a uma visão
universalista da arte, sobretudo porque a era moderna é incapaz de
produzi-la. O erudito clássico Jean-Pierre Vernant insiste que a
tragédia é particular aos gregos antigos e que, apenas um século ou mais
depois, o próprio Aristóteles é incapaz de realmente entendê-la.
Bernard Williams também considera a tragédia como específica da
Grécia antiga, mas sugere que as noções éticas modernas se aproximam da
visão grega da vida humana. As teorias da tragédia também podem fazer
parte dos contextos históricos: na visão de Simon Goldhill, a filosofia
da tragédia de Hegel apela às normas e aos valores coletivos da tragédia
grega antiga como resposta ao universalismo abstrato e ao
individualismo de Immanuel Kant. “Para Hegel”, sustenta Goldhill, “a
tragédia é porta de entrada para repensar a noção de sujeito de Kant”.
As teorias trágicas alemãs que examinaremos a seguir propõem uma ideia
universal de tragédia, mas essa visão em si é produto de um momento
histórico único.
É possível sustentar uma ideia essencialista da tragédia enquanto
também se afirma que, como forma dramática, ela desapareceu há muito
tempo. Por esse ângulo, a tragédia captura a realidade da condição
humana, mas as condições artísticas e históricas não são mais favoráveis
para sua representação no palco. Se a tragédia é parte do espírito
humano em geral, então é difícil ver como ela pode morrer; e ela só pode
se manifestar artisticamente em certos momentos históricos importantes.
14.
É possível, no entanto, que a escolha entre o historicismo e o
universalismo, ou o nominalismo e o essencialismo, seja desnecessária.
Talvez seja verdade, com o devido respeito aos essencialistas, que não
haja uma única característica que todas as tragédias compartilhem. Nem
todas as obras que chamamos de trágicas apresentam um destino malévolo
ou a queda dos poderosos, uma falha fatal ou insinuações do Absoluto,
uma exaltação do espírito ou um Deus ausente.
No entanto, há tópicos sobrepostos e semelhanças familiares
suficientes entre as chamadas obras trágicas para que o caso nominalista
seja igualmente implausível. Sem dúvida, todos os textos que
denominamos de trágicos têm uma característica em comum, a saber, algum
tipo de aflição ou adversidade, e nesse ponto os essencialistas estão
certos.
Até Raymond Williams, tendo lançado dúvidas sobre a ideia de uma
essência trágica em um estudo, modifica sua posição em outro,
argumentando que “o conceito de tragédia ainda representa um agrupamento
razoável de obras, embora difícil, de certo modo em torno da morte e do
sofrimento extremo e da desintegração”. Mas a diversidade de tal
sofrimento o reduz ao mais fino dos denominadores comuns, o que por sua
vez deve satisfazer o mais entusiástico culturalista ou historicista.
Além disso, a comédia não é estranha à dor e à angústia, como Shylock e
Malvólio podem atestar.
A tragédia, no sentido cotidiano de fracasso e colapso, é, de fato,
universal. Nem mesmo a mais utópica das ordens sociais seria intocada
por ferimentos mortais, desejos frustrados e relacionamentos rompidos. O
preço de rejeitar uma visão como a morte de príncipes por um sentido
mais comum do termo é que certos tipos de tragédia se tornam
irreparáveis, o que pode não ser o caso se estiver confinado aos
assuntos de uma elite.
Os príncipes podem deixar de travar guerras, mas não há um término
aparente para a mágoa ou o ciúme sexual. Pode-se despojar o trágico de
seu privilégio, então, mas apenas ao custo de aceitar que parte dele
veio para ficar. O câncer sem dúvida será curado, mas a morte não.
Talvez devêssemos hesitar antes de desejar uma vida além da tragédia, já
que uma das maneiras mais seguras de alcançá-la seria perder nosso
senso de valor. No entanto, mesmo que sempre haja esperanças arruinadas e
ferimentos irreversíveis, não se segue que haja uma linhagem
ininterrupta de arte que dramatize essas coisas da mesma maneira; e já
notamos que a arte trágica não é, de forma alguma, comum a todas as
civilizações.
Assim, a questão é se a tragédia morre ou simplesmente se transforma.
Com o surgimento da sociedade de classe média, o foco começa a mudar de
uma ação coletiva para o herói individual. Para Friedrich Schelling,
como veremos mais adiante, a ação trágica é internalizada, psicologizada
e individualizada de uma forma em desacordo com o antigo teatro grego,
ao qual ele acredita ser fiel.
O que para Aristóteles é questão de ação, para Schelling é questão de
consciência. Todo processo trágico deve fluir de um estado interior do
ser, não de condições históricas. Conflito e rebelião são, em grande
parte, assuntos internos, pois a alma solitária e superior do herói é
dilacerada apenas para ser gloriosamente restaurada à totalidade. Há os
críticos de mente aberta, para quem essa é uma nova versão intrigante da
tradição trágica, e as almas mais puristas, para quem não é tragédia de
jeito nenhum.
15.
Em Ou-Ou, Søren Kierkegaard vê a marca registrada da
tragédia moderna como a autorresponsabilidade absoluta – e, portanto,
culpa absoluta – de um protagonista que se mantém ou cai inteiramente em
virtude de seus próprios atos. Pode-se contrastar isso com a versão
antiga da arte, com sua intrincada interação entre crime e inocência, o
eu e o Outro, agente livre e circunstância restritiva. Aos olhos de
Kierkegaard, esse individualismo trágico deve ser elogiado. Ele
representa um ganho sobre o que aconteceu antes.
Esse não é o caso de Hegel, no entanto, que argumenta em sua Estética que
a tragédia moderna individualiza o conflito de forma que o reduz a um
caso puramente externo e acidental. O herói trágico da Antiguidade é uma
espécie superior de ser, alguém que é criado acima do cidadão médio e
está sujeito à necessidade de uma maneira especial. Tais figuras são, de
acordo com Hegel, o meio de forças histórico-mundiais, mas isso não
pode ser dito dos personagens mais intensamente psicologizados do palco
trágico moderno.
A arte trágica de Shakespeare, por exemplo, não surge do desenrolar
rigoroso do destino, mas de circunstâncias infelizes que sempre poderiam
ter sido diferentes. A reconciliação torna-se um assunto mais interno e
psicológico, como acontece com os críticos neo-hegelianos (por exemplo,
A. C. Bradley em A tragédia shakespeareana). Com o
desaparecimento da ideia de destino, desbaratada por um senso moderno do
fortuito e do contingente, a arte de um Ésquilo ou um Sófocles não é
mais possível.
É um preconceito que Hegel compartilha com o adversário filosófico
Friedrich Nietzsche, para quem a tragédia moderna deixou de ser uma arte
da esfera pública e, em vez disso, foi individualizada e conduzida para
a esfera privada. As esperanças de Nietzsche no renascimento de uma
cultura trágica giram em torno da renovação da esfera na qual o
surgimento de uma mitologia compartilhada desempenhará papel vital.
A morte da tragédia pode, às vezes, ser um código para a morte da
tragédia grega. Alguns daqueles que identificam a arte com o teatro de
Ésquilo, Sófocles e Eurípides tendem a anunciar seu fim quando encontram
tragédias concebidas em diferentes circunstâncias históricas. Esse é
certamente o caso de A Short View of Tragedy: ItsOriginal Excellence and Corruption [Uma breve visão da tragédia: sua excelênciaoriginal e corrupção] (1693), de Thomas Rymer, como o título sugere.
É como se alguém declarasse que a poesia está morta porque não é mais
invariavelmente composta em dísticos heroicos, ou que o Boeing não é
uma aeronave porque não é um Tiger Moth. Fomos informados com bastante
frequência que deuses, mitos, destino, protagonistas de alta linhagem,
um espírito de exaltação e um senso do numinoso são essenciais para a
tragédia, mas geralmente não nos dizem o porquê.
Talvez o papel dos olímpicos na tragédia grega seja demonstrar a
coragem dos que desafiam seus esquemas malévolos ou se submetem
bravamente ao destino que decretam; mas é possível dramatizar tais
virtudes sem um panteão de divindades moralmente desonrosas à mão, e boa
parte da tragédia posterior faz precisamente isso.
16.
Longe de acabar com a tragédia, a modernidade pode muito bem ter lhe
emprestado um novo sopro de vida. Antes de mais nada, ela inflou
imensuravelmente as fileiras de potenciais protagonistas trágicos. Em
uma era democrática, qualquer um arrancado da rua e colocado em um apuro
intolerável é um possível candidato. Como Rita Felski observa, “nessa
visão democratizada do sofrimento, a alma de um bancário ou de uma
balconista se torna campo de batalha no qual forças importantes e
incalculáveis se desenrolam”.
Horácio aconselha os poetas a não permitirem que os deuses falem com
sotaques plebeus, e sem dúvida os heróis trágicos também não deveriam,
mas quando se trata de heróis modernos, deixamos de lado esse toque de
esnobismo. Do Iluminismo em diante, somos confrontados com a proposição
alucinante (longamente antecipada pelo cristianismo) de que homens e
mulheres devem ser valorizados somente por sua filiação à espécie
humana, não por sua posição, caráter, gênero ou origem étnica.
Nesse sentido, é a diferença que pode ser reacionária, não a
identidade. Arthur Miller aponta que a teoria psicanalítica desempenha
certo papel nesse credo revolucionário, uma vez que as estratégias do
inconsciente são indiferentes às divisões sociais. Fonte antiga tanto da
comédia quanto da tragédia é o fato de que qualquer um pode desejar
qualquer outra pessoa. O desejo não respeita distinções sociais, o que
também é verdade para o seu terrível gêmeo freudiano, a morte.
Mesmo assim, a ideia de que qualquer um pode ser sujeito de tragédia
pode ter implicação menos positiva. Pode significar que a tragédia seja a
única conquista excepcional que está ao alcance das pessoas comuns. É
isso que Eugene O’Neill tem em mente quando escreve: “A tragédia do
Homem é talvez a única coisa significativa sobre ele. […] A vida
individual se torna significativa apenas pela luta”. A era moderna está
tão moralmente falida que um fim trágico é o único valor a que a maioria
de nós pode aspirar.
Existem outras razões pelas quais a modernidade pode facilitar a
tragédia em vez de frustrá-la. Estamos recentemente cientes dos limites
da razão, da fragilidade e da opacidade do sujeito humano outrora
soberano, de sua exposição a forças enigmáticas além de seu controle,
das restrições impostas à sua agência e autonomia, de sua fonte em um
Outro anônimo que parece inexpressivamente indiferente ao seu bem-estar,
do inevitável conflito de bens em uma cultura pluralista, da densidade
complexa de uma ordem social na qual o dano humano pode se espalhar como
febre tifoide.
Essa é uma condição não totalmente remota da condição de uma cultura
pequena e fortemente interligada como a Atenas das tragédias. Em tempos
pós-freudianos, também podemos achar possível perguntar quem está
realizando determinada ação, mesmo que a resposta em nosso caso não seja
Hera ou Zeus, ou se não há algum hiato fatal entre a intenção e o
efeito embutido em nosso comportamento.
17.
Unidos em um planeta globalizado, um senso de pecado original – o
conhecimento de que nós, como inocentes culpados, não podemos nos mover
na malha espessa de conexões sem involuntariamente causar dano a alguém,
em algum lugar – encena um retorno. Há também a questão de se o planeta
sobreviverá ao ato final de arrogância da humanidade, seja na forma de
desastre ecológico ou devastação nuclear. Essa é a natureza do “poder
que um homem invoca contra seu próprio ser quando lhe dá as costas”,
como Hegel coloca.
Além disso, ao alimentar tais aspirações faustianas, a modernidade
corre o risco de testemunhar seu ignominioso colapso. Nenhum período
histórico liberou poderes humanos tão abundantemente quanto a era
moderna, e nenhum corre, portanto, mais risco de ser dominado pelas
forças que ele desencadeia. Como Max Weber observa: “A multidão de
deuses antigos, desencantados e, portanto, na forma de forças
impessoais, estão saindo de seus túmulos, lutando pelo poder sobre
nossas vidas e retomando a sua eterna luta uns com os outros”.
Por toda a insensibilidade ao sofrimento humano, há algo a ser dito
sobre a alegação aparentemente perversa de que a tragédia é um modo
afirmativo (uma vez que foi despojada de todo um conjunto de suposições
duvidosas): que isso ocorre porque retrata o triunfo do espírito humano
indomável, que confrontar a adversidade deve ser invariavelmente
moderado e contido, que somente em tal extremo a essência da humanidade é
exposta ou que o perfil de uma ordem providencial pode ser visível
através do que pode parecer, à primeira vista, puro infortúnio.
Essas não são as maneiras mais convincentes pelas quais a tragédia
pode inspirar seu público. Antes, trata- -se de que o espetáculo
daqueles que estão em perigo mortal ou dor atroz pode renovar nosso
senso de valor da humanidade que está sob cerco. Mesmo assim, o que os
filósofos da tragédia em geral deixam de acrescentar é que há outras
maneiras igualmente frutíferas de relembrar o que prezamos sobre os
seres humanos, que não apreciamos seu valor apenas os observando morrer.
Há aqueles, como Jacques Lacan e Slavoj Žižek, para quem o gulag e
o Holocausto não podem ser descritos como trágicos, já que o horror que
eles revelam é tão profundo que não é possível ser sublimado em
dignidade trágica. Descrever os confinados atingidos dos campos nazistas
como trágicos, afirma Žižek, é uma obscenidade moral. É como se o mero
ato de atribuir significado a tais ultrajes fosse um gesto de traição.
Mas o sem sentido é o absurdo, e o gulag e o Holocausto certamente não foram isso.
Afirmar que eles fazem algum tipo de sentido não é, por isso,
investi-los de valor. O inteligível não é o mesmo que o moralmente
aceitável. Há os que temem que falar coerentemente sobre os campos de
concentração seja conspirar com as formas repressivas da razão que
ajudaram a criá-los. No entanto, a racionalidade também desempenhou
papel fundamental para pôr fim a essas atrocidades. Em todo caso, não é
como se enfrentássemos uma escolha entre o totalmente sem sentido, por
um lado, e o lucidamente significativo, por outro.
18.
Não é preciso abraçar o absurdo para rebaixar algum grande esquema de
significância, embora possa haver um elemento do ridículo na mais
exaltada das tragédias. A tragédia grega antiga está ciente de que há
algo que transcende a construção de sentido, mas isso não quer dizer que
as atrocidades humanas derrotem todo o raciocínio.
Tomás de Aquino sustenta que, quando falamos de Deus, não sabemos do
que estamos falando, mas, mesmo assim, preenche grande número de volumes
sobre Ele. Para Freud, o não significado reside na raiz do significado,
mas isso não é motivo para abandonar a significação.
Em todo caso, com o devido respeito a Žižek, não há necessidade de um
evento envolver dignidade ou nobreza para que ele seja qualificado como
trágico. É necessário, com certeza, que envolva um senso de valor, mas
isso não precisa se manifestar em alguma grandeza de espírito nas
figuras que vemos no palco. Podemos ser nós, o público, que atuamos como
guardiões de sua humanidade quando as figuras em cena sentem que ela
está escapando delas.
Eugene O’Neill afirma que a tragédia deve ter uma “nobreza
transfiguradora” sobre ela, mas ele falha em notar essa distinção entre a
experiência dos personagens e a do público. Os prisioneiros de Belsen
ou Buchenwald não tiveram que morrer santificados por seus sofrimentos,
ou com uma corajosa resignação ao seu destino, ou conscientes de si como
figuras históricas mundiais, ou exultantes no pensamento de que, embora
eles pudessem perecer, o próprio espírito humano é invencível, para
ganhar o título de trágico. Eles somente tiveram que ser homens e
mulheres em uma situação intolerável.
A verdade banal é que não é preciso fazer nada em particular para se
qualificar como um protagonista trágico. É preciso simplesmente ser um
ser humano no fim de seu limite. Não é preciso ser virtuoso, apenas
virtuoso o suficiente para não merecer a miséria à qual se é reduzido. A
tragédia, na frase schopenhaueriana, é a fábula de um grande
infortúnio. Não importa se ocorre dentro ou fora do palco, se é visitado
por Zeus ou acontece por puro acidente, se o protagonista é uma
princesa ou um motorista, se você planeja a própria queda ou é abatido
por outros, se o evento resulta em reconciliação ou em um impasse, ou se
testemunha um espírito humano transcendente. Na maior parte das vezes, é
o público em geral, fiel a esses princípios, que usa a palavra
“tragédia” da maneira mais produtiva, e são os teóricos que normalmente
falham.
19.
A tragédia apresenta seres humanos em estados extremos, o que é, sem
dúvida, uma das razões pelas quais o Modernismo, que está muito
preocupado com o que se poderia chamar de Sala 101 do espírito humano, é
tão favorável à forma. Como J. M. Coetzee observa em À espera dos bárbaros:
“a última verdade é dita apenas na última extremidade”. É a visão do
torturador sobre a humanidade, a que assume que a verdade e a vida
cotidiana são antitéticas. Dessa maneira, o protagonista trágico é
lançado em uma situação que faz que suas ilusões rotineiras e os
compromissos comuns caiam como muitos farrapos, enquanto ele é levado
face a face com a verdade de sua identidade.
Como veremos em um capítulo posterior, Willy Loman de Arthur Miller é
um espécime misto. Willy se apega à sua falsa consciência até o fim; no
entanto, ao se negar a recuar dessa identidade falsa, ele também se
nega a desistir de sua exigência do reconhecimento que uma sociedade
corrupta é incapaz de satisfazer. É essa tenacidade aterrorizante, ao
mesmo tempo corajosa e iludida, que o leva à solidão e à morte.
Nesse sentido, Willy Loman exibe uma intransigência admirável, mas
alarmante, que persegue o palco trágico tão cedo quanto os protagonistas
obstinados, rabugentos e magnificamente inflexíveis de Sófocles. Há
certa tradição de figuras trágicas que são movidas por alguma compulsão
interna para permanecerem leais a um compromisso que envolve todo o seu
ser e que prefeririam ser arrastadas para a morte em vez de ceder a um
desejo que prezam mais do que a própria existência.
É isso que Jacques Lacan chama de desejo do Real, uma forma de anseio
em que Eros e Tânatos estão intimamente interligados. Em nenhum lugar
essa recusa é mais óbvia do que na leitura lacaniana da Antígona de
Sófocles, uma figura que em A éticada psicanálise,
Lacan considera como habitante de algum reino transcendente além da
razão, da ética e da significação, um avatar enigmático do Absoluto que
se posiciona no limite extremo da ordem simbólica e não pode suportar
estar sujeito à sua lei. Dado que a morte também espreita nessa
fronteira, não é surpreendente que ela e a heroína se encontrem em
termos tão íntimos.
Fiel a essa leitura, Slavoj Žižek afirma que Antígona representa uma
“fidelidade incondicional à Alteridade da Coisa que perturba todo o
edifício social”. No confronto entre Creonte e Antígona, comenta Žižek,
não há “nenhum diálogo, nenhuma tentativa (por parte de Antígona) de
convencer Creonte das boas razões para seus atos por meio de argumentos
racionais, apenas a insistência cega em seus direitos”.
Somos convidados a admirar uma personagem surda à razão, desdenhosa
da sociedade humana, arrogantemente inflexível em sua suprema
autoconfiança, arrebatada pela ideia da morte, altivamente desdenhosa da
virtude menor, mas honrosa da prudência e sem nenhuma compreensão muito
firme de sua motivação. O ato de desafiar Creonte é de pura recusa e
rebelião, um evento “milagroso” que atinge os fundamentos da ordem
social. Se for assim, então não está claro por que ela é apresentada
pela peça como agindo em obediência à obrigação consagrada pelo tempo e à
vontade dos deuses.
É impressionante como essa figura idealizada, que às vezes navega de
forma embaraçosa perto do pseudoexistencialista adolescente da versão de
Jean Anouilh da peça de Sófocles, está tão exatamente alinhada com a
leitura espiritualmente elitista da tragédia que já consideramos. A
interpretação lacaniana de Antígona é legatária dessa linhagem
conservadora, ao mesmo tempo que lhe empresta uma reviravolta
aparentemente radical. O desdém agudo de Lacan pela vida cotidiana é
característica comum do pensamento francês de esquerda, com devoção a
algum ato puro, verdade superior, recusa inflexível, gesto gratuito,
violência purificadora, rebelião absoluta ou culto glamouroso de
autenticidade.
Uma inconsequente nobre aversão pela prudência, pela equivalência e
pelo cálculo é preferível à mentalidade calculista da pequena burguesia.
O esplendor estético de um ato puro de revolta conta mais do que os
atos comuns de compaixão. Em uma política de eterna revolta, uma mais
boêmia do que bolchevique, o louco, violento, maligno e monstruoso
subvertem as ortodoxias sombrias da sociedade suburbana.
20.
No entanto, nem todas as ortodoxias são perniciosas, nem todas as
subversões, revolucionárias. A ortodoxia social atualmente inclui a
proteção de minorias étnicas contra abusos e o direito de trabalhadores e
trabalhadoras à greve. Em A visão em paralaxe, Slavoj Žižek adota a distinção elitista de Kierkegaard entre o rotineiramente ético e o autenticamente religioso.
No entanto, o escândalo do Evangelho cristão é que Deus está
mais fundamentalmente presente não no culto, no ritual ou na
experiência interior, mas no ato de visitar os doentes e de alimentar os
famintos. A ideia da vida comum, difamada de forma sublime por tanta
teoria da tragédia, foi na verdade inventada pelo cristianismo, que é,
em alguns aspectos, uma forma de antirreligião. O ético é, simplesmente,
como a fé religiosa é vivida na prática cotidiana. Para aqueles que
encontram um toque de banalidade nessa visão, no entanto, a ética é um
domínio reservado aos plebeus espirituais deste mundo, enquanto os
aristocratas da vida interior se movem em uma esfera além do bem e do
mal.
Se o eterno rebelde vagueia à beira da ordem simbólica com pouco mais
que desprezo por ela em seu coração, o mesmo acontece com o terrorista.
O desafio de Antígona a uma autoridade injusta pode ser um ato
“monstruoso”, pelo menos do ponto de vista da convenção social, mas
explodir cabeças de crianças pequenas se encaixa nessa descrição de
forma mais exata.
Os patriarcas obstinados, como Creonte, oferecem um alvo fácil para
as Antígonas deste mundo, mas e se tais rebeldes se encontrassem diante
de uma ordem socialista- -feminista? Os campeões ainda estariam tão
ansiosos para honrar o ato de rejeição? A oposição entre o rebelde e a
ordem política é puramente formalista. Ela obscurece a questão de qual
forma de revolta está em jogo, contra qual tipo de soberania. Existem
maneiras preciosas de autoridade e atos infantis de dissidência.
O que essa versão de Antígona tem a oferecer é realmente uma
forma de elitismo de esquerda. De certo ponto, é uma versão radical do
steinerismo até a questão da morte da tragédia. Citando o famoso ditado
de Hegel de que nenhum homem é herói para seu criado, Žižek reclama que,
na era moderna, “todas as posturas superiores dignas são reduzidas a
motivações inferiores”. A Modernidade diminuiu a capacidade de
sublimidade. Para ele, assim como para o Nietzsche das Meditações intempestivas, estamos condenados a existir em um mundo sem heróis, uma perspectiva que alegrava o coração de Bertolt Brecht.
O que Žižek denomina de violência ética – situação na qual, uma vez
que os pontos de vista morais são mutuamente incomensuráveis, temos que
lutar contra isso em vez de tentar um acordo – deu lugar a um
consensualismo desprezível. Em uma veia nietzschiana, a própria vida é
Vontade de Poder, uma questão de luta e contenção. Devemos, portanto,
romper com as ilusões habermasianas (ou apolíneas) de racionalidade
reunindo o vigor espiritual de que precisamos para encarar o Real (ou
dionisíaco) de frente.
No entanto, não é verdade, como o relato conservador da tragédia
assume (incluindo sua versão lacaniana), que o extremo e a vida comum
estejam sempre em desacordo. O fato de que tudo continua normalmente,
observa Walter Benjamin, é a crise. George Eliot fala, em Middlemarch,
sobre “aquele elemento da tragédia que reside no próprio fato da
frequência”, ou seja, aqueles estados de desespero silencioso que
geralmente são persistentes demais para que tratemos com a sensibilidade
que exigem. Na sociedade da autora, eles eram geralmente a experiência
das mulheres.
“Se nós tivéssemos uma visão e um sentimento aguçados de toda a vida
humana comum”, observa George Eliot, “seria como ouvir a grama crescer e
o coração do esquilo bater, e morreríamos daquele rugido que se
encontra do outro lado do silêncio. Da forma como é, os mais rápidos de
nós andam por aí bem acrescidos de estupidez”. Esse isolamento da dor
certamente parece ser o caso de alguns teóricos tradicionais da
tragédia.
*Terry Eagleton, filósofo e crítico literário, é
professor emérito de literatura inglesa na Universidade de Oxford.
Autor, entre outros livros, de O acontecimento da literatura (Unesp). [https://amzn.to/3Z8cRnn]
Referência
Terry Eagleton. Tragédia. Tradução: Rachel Meneguello. São Paulo, Unesp, 2025, 226 págs. [https://amzn.to/4tu050R]