sexta-feira, 14 de agosto de 2026

 Vai e vê
«E a morte não terá domínio» Dylan Thomas

Vai e vê
Como é infinito o universo
onde o amor é uma rosa
plantada nas estrelas furiosas
nos céus onde desfilam monstros alados
dos frutos da nossa imaginação.
Vai e vê
O namoro dos pintassilgos
Agitando os caniçais.
Vai e vê
Toda a infinitude do amor.
(da escuridão brota sempre uma doutrina
que iluminará multidões :
é deste modo que de mundos mortos
Se alimentam os girassóis ).
Vai e vê
Ó sim, o amor é uma pegada na areia,
pois que seja,
Outras pegadas se seguirão.
Nada como um colo macio de perdão.
Os tempos vão e vêm ,
Cavalos livres sobre as pradarias,
lençóis de linho
a secar na relva (lembras-te?), o enternecer dos entardeceres.
Aquele aroma do folar de enchidos
que as nossas avós coziam para a nossa pequenez
(lembras-te?).
Vai e vê
como nações, impérios, costumes, se extinguem
pelo castigo de Sodoma e Gomorra.
Não é o amor que afia espadas, que cala os pássaros,
que ameaça ventos do fim do mundo. Passarão.
Vai e vê
como o amor se repete, sim, nas mãos frágeis das crianças
e no abraço solar dos amantes.
Vai e vê
depois conta-me
como se fosse uma história para adormecer.
Conta-me antes que
um outro se erga das minhas cinzas.
Vai e vê.
----------------N. P.-------------------------2026

quarta-feira, 15 de julho de 2026

 https://youtu.be/Idsb6gk6j_U?si=yiWC50y3IaUfKj8V

Concerto de Aranjuez

 

domingo, 5 de julho de 2026

 A lua da bruxa

Quando eu era pequenino
a minha avó contava-me histórias
naquele tempo não tínhamos televisão
nem telemóveis e este sortido de distração
de que gozam os meninos a todas as horas.
Os serões não o eram como são agora :
Jantar e nos invernos logo a caminha
Só nas noites de verão, aquecidas as casas
preguiçávamos na frescura do alpendre
-O que é a Lua, avó? , perguntava eu
-É casa da bruxa, respondia ela
- E o que é uma bruxa, perguntava eu
- Se olhares bem para a lua não a vês?
- A cara dela é a Lua?, insistia eu
-Sim, se olhares com muita força!
E eram assim nos verões e só nas noites quentes
quando ouvia a história dos dois irmãos que se perderam
na floresta e outros contos de arrepiar
Encantavam-me as histórias que a minha avó me contava
embora fossem sempre de bruxas e bruxedos acabavam bem.
Não sabia eu então que elas as lia nos livros arrumadinhos
no armário da sua roupa escassa no quarto dela.
A minha avó frequentara a escola até à terceira classe
e as amigas dela, vizinhas, nem escola tinham.
Nas noites geladas daqueles invernos de gelo
Para a caminha cedinho em meias grossas de lã
com a pressa do frio e a pressa de ouvi-la
à minha avó, Deus a tenha!
Que era ela que retirava
debaixo dos lençóis a botija de louça a escaldar
(as noites mereciam existir só por causa delas, sentia eu).

A minha avó deixou-me cedo
e não voltou mais. Não me lembro do dia em que a levaram para o velório.
Não está, meu filho, a avó foi para o céu, explicaram quando à noite por ela esperei.
-Para o céu? E porque me abandonou assim?, choraminguei eu.
No primeiro verão que passei já sem a sua presença
olhei tanto tempo fixamente para a lua
com este raciocínio de uma lógica que, dita voz alta,
fez emudecer os risos do meu irmão mais velho :
“se a lua é a casa da mãe de todas bruxas, e se a avó mora agora no céu,
então a lua já não é mais a casa da bruxa má. A avó não deixa!”
Quando, mais tarde, aprendi a verdade, preferi a ficção.
No final da primeira classe, nas férias grandes, sentado
Com os garotos da vizinhança nas escadas que levavam da rua para o alpendre
(as casas deles nem alpendres tinham, as portas abriam para a rua de terra batida)
imaginava para eles na lua uma casa de onde nos espreitava a minha avó
(a avó de algum deles também, admitia a custo).
Talvez por isso os lobos da serra uivavam para a lua
e as almas penadas não se perdiam nos caminhos.
Depois a minha mãe chamava-me : - Vem para dentro, faz-se tarde, tomem cuidado
não venha levar-vos no saco a bruxa má! -
Eu entrava em casa sem medo nenhum
porque eu via no luar as lágrimas de prata da minha avó.
E enviava-lhe um sentido beijo de menino.
É destas coisas da vida que lembro
É no passado e no destino.

terça-feira, 19 de maio de 2026

 Imagem de Untitled (Your body is a battleground) - Barbara Kruger ...Untitled (Your Body Is a Battleground)

Arte Pós-moderna

 

A arte pós-moderna (surgida em meados do século XX) rompe com as verdades absolutas e a "alta cultura" do modernismo. Destaca-se pela apropriação, pastiche, intertextualidade e fusão com a cultura popular. Os trabalhos utilizam ironia e meios não tradicionais para questionar a própria instituição artística.
Obras e Artistas de Referência
  • Your Body Is a Battleground (1989), de Barbara Kruger
    Uma das obras mais icónicas da apropriação pós-moderna. Combina uma fotografia de rosto feminino dividida, texto forte e alto contraste para criticar o controlo do corpo da mulher e as dinâmicas de poder.
  • Untitled Film Stills (1977–1980), de Cindy Sherman
    Uma série de autorretratos fotográficos onde a artista encarna diversos estereótipos femininos presentes no cinema clássico de Hollywood. Questiona o olhar masculino, a construção da identidade e a natureza da própria fotografia.
  • Rabbit (1986), de Jeff Koons
    Um coelho insuflável fundido em aço inoxidável que reflete perfeitamente a estética neo-pop. A obra eleva um objeto de cultura de massa efémero ao estatuto de "alta arte" luxuosa, desafiando a distinção entre bom e mau gosto.
  • Campbell's Soup Cans (1962), de Andy Warhol
    Sendo uma das peças fundadoras da Pop Art, subverte a ideia de originalidade e exclusividade artística ao reproduzir em massa latas de sopa de supermercado, criticando e celebrando a sociedade de consumo.
  • Azulejão (2016), de Adriana Varejão
    Da arte contemporânea/pós-moderna brasileira, esta instalação reimagina os clássicos azulejos portugueses. A obra traz marcas e fissuras, questionando narrativas históricas e a relação da arte com o passado colonial.
Pode explorar e aprofundar as características que definem este período através da leitura dedicada do Pós-modernismo na RTP Ensina, que contextualiza detalhadamente a perda de confiança nas grandes narrativas históricas.

terça-feira, 14 de abril de 2026

 David , de Miguel Ângelo, o Homem confiante e seguro de si da Renascença, e o as esculturas de Giacometti, nossas contemporâneas, do indivíduo frágil, trôpego, incerto. Os mercados, o marketing, o cinema, procuram atrair consumidores-pagadores para um ideal que, consciente ou mais ignorantemente, procura assemelhar-se a David, porém não conseguem com o músculo preencher o vazio a incerteza , a não confiança em sim mesmos,e o medo.Exploring The Walking Man I by Alberto GiacomettiFoto 1 de 4Foto 1 de 4