terça-feira, 18 de agosto de 2026

 

10 principais obras de Wassily Kandinsky para conhecer a vida do pintor

Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes
Tempo de leitura: 8 min.

Wassily Kandinsky (1866 — 1944) foi um pintor russo, apontado como um dos grandes artistas do século XX. Precursor no campo da arte abstrata, foi também teórico e professor da Bauhaus, a célebre escola alemã.

Conheça, abaixo, a biografia de Kandinsky resumida através das suas obras mais famosas:

1. O cavaleiro azul (1903)

O cavaleiro azul (1903)

Wassily Kandinsky nasceu no dia 4 de dezembro de 1866, em Moscou. Depois do divórcio dos pais, ainda durante a infância, ele foi viver com uma tia na cidade de Odessa, na Ucrânia. Alguns anos mais tarde, regressou à Rússia, onde estudou Direito e começou a trabalhar na Faculdade de Direito de Moscou.

Em 1896, aos 30 anos, Kandinsky casou com a sua prima, Anna Chimyakina. Foi nessa fase que assistiu a uma exposição de Claude Monet que o influenciou a se dedicar inteiramente à pintura. Na sequência, ele abandonou a sua carreira e começou a criar telas de inspiração pós-impressionista, passando a frequentar a Academia de Belas Artes de Munique.

No quadro O cavaleiro azul, parte da sua produção inicial, já podemos encontrar algumas características que ganhariam força na sua obra, por exemplo, o movimento e o uso de cores vivas. A tela também deu nome ao grupo de pintores expressionistas que o artista fundou, posteriormente, com Franz Marc.

2. Beleza Russa em uma Paisagem (1905)

Beleza Russa em uma Paisagem (1905)

No ano de 1902, o pintor conheceu aquela que viria a ser a sua segunda companheira: Gabriele Münter, uma de suas aulas. Os dois começaram a viver um relacionamento e, algum tempo depois, decidiram morar juntos.

Durante o período que concerne os anos de 1906 a 1908, ele viajou pela Europa, tendo feito uma exposição em Paris, e acabou se fixando com Gabriele na Baviera, Alemanha. Talvez por isso, as obras pintadas por Kandinsky, na época, retratavam várias paisagens e espaços urbanos.

Ele também encontrava inspiração no folclore e na arte tradicional do seu país. Isso se torna visível, por exemplo, na tela Beleza Russa em uma Paisagem, com a figura de uma noiva russa. Com pontos coloridos de vários tamanhos, o vestido na noiva parece se misturar com o cenário; no entanto, a mulher continua sendo o foco do quadro.

3. Primeira Aquarela Abstrata (1910)

Primeira Aquarela Abstrata (1910)

Primeira Aquarela Abstrata foi um ponto de viragem, um "divisor de águas", não só na carreira de Kandinsky, mas também na própria História da Arte. Até a esse momento, o pintor estava criando telas com paisagens cada vez menos representativas.

Na sequência dos seus estudos sobre a criação artística, em 1910, surgiu Primeira Aquarela Abstrata, quadro que é apontado como sendo a pintura que inaugurou o abstracionismo na arte ocidental. Contudo, existem dúvidas acerca da sua data, já que alguns estudiosos afirmam que a obra é de 1913.

A partir deste ponto, o pintor russo se dedicou às telas atravessadas por linhas e cores, produzindo arte não figurativa, ou seja, aquela na qual não conseguimos reconhecer elementos da nossa realidade.

4. Composição VII (1913)

Composição VII (1913)

As obras abstratas de Kandinsky passaram a ser categorizadas como impressões, composições e improvisações. As primeiras e as últimas eram criações mais imediatas que se baseavam, respectivamente, nas paisagens que o autor via e naquilo que estava sentindo / imaginando.

Por outro lado, as composições eram produto de um trabalho árduo de reflexão acerca dos elementos integrados nas telas e o modo como interagiam entre si. Por exemplo, antes de pintar Composição VII em 3 dias, o artista realizou inúmeros estudos e esboços. O quadro transmite a impressão de movimento, com uma espécie de redemoinho ou furacão quase no centro.

Se afastando das imagens da realidade física, as suas telas procuravam a liberdade que existia na música, relacionando os sons e as cores. Kandinsky também trocou cartas com o compositor musical austríaco Arnold Schönberg, algo que influenciou o seu trabalho.

5. Fuga (1914)

Fuga (1914)

Repleto de dinamismo, cores, linhas e formas curvas, Fuga foi um quadro produzido num momento importante da trajetória do artista e também do mundo. Em 1914, a Primeira Guerra Mundial estava começando a assolar a Europa e Kandinsky decidiu deixar a Alemanha.

Depois de passar alguns meses na Suíça, ele acabou se separando de Gabriele e regressando à Rússia. Lá, conheceu Nina Andreievskaya e casou novamente; da união nasceu um filho, Vsevolod, que morreu com apenas 3 anos.

Com a Revolução Russa de 1917, chegaram diversas transformações no panorama cultural do país e o pintor passou a trabalhar para o governo de Lenin, tendo sido um dos criadores do Instituto de Cultura Artística, em Moscou.

6. Composição VIII (1922)

Composição VIII (1922)

Apesar da sua participação na vida política russa, as concepções e os preceitos artísticos de Kandinsky não se enquadravam na cultura soviética, que se tornava cada vez mais engajada. Assim, em 1921, o pintor decidiu voltar para a Alemanha.

No ano seguinte, começou a dar aulas de diversas matérias na escola de arte vanguardista Bauhaus. Nessa época, influenciada pela arte avant-garde, a sua produção foi extremamente rica e o seu trabalho se tornou cada vez mais célebre.

Composição VIII é uma obra constituída por formas geométricas entre as quais se destaca o círculo, símbolo da perfeição que viria a se tornar fundamental na pintura do artista.

Através de um jogo de contrastes, a composição dos elementos também pode sugerir uma paisagem, na qual os triângulos seriam montanhas e, no canto superior esquerdo, os círculos representariam o sol.

7. Amarelo-Vermelho-Azul (1925)

Amarelo-Vermelho-Azul (1925)

Em 1924, o pintor criou o grupo Die Blaue Vier, ou Os Quatro Azuis, com três artistas que eram seus contemporâneos, entre os quais se destacou Paul Klee. No ano seguinte, eles viajaram para os Estados Unidos da América, onde realizaram várias exposições e palestras.

As telas que o russo produziu nessa fase exprimiam movimento e liberdade, características próprias da Arte Moderna que vigorava na época. Em Amarelo-Vermelho-Azul, um de seus quadros mais famosos, ele se serve das cores primárias, associando determinados tons e figuras geométricas.

Também é interessante reparar que a pintura se divide em duas metades que sintetizam influências diferentes. O lado esquerdo é dominado por cores vivas e linhas retas, enquanto o esquerdo apresenta cores mais escuras e elementos abstratos.

8. Vários Círculos (1926)

Vários Círculos (1926)

Com Vários Círculos, o artista continuou empreendendo as suas obras geométricas, agora priorizando as linhas curvas e a figura do círculo, que já estava presente na sua pintura desde Composição VIII e aqui ganhou maior preponderância.

Os círculos de várias cores contrastam com o fundo escuro, e criam uma espécie de cosmos, simbolizando a busca da espiritualidade na pintura. Assim, a composição transmite as ideias de infinito, eternidade, e também as inúmeras possibilidades que existem na criação artística.

Enquanto prosperava na escola de artes e design fundada por Walter Gropius, Kandinsky conseguiu a nacionalidade alemã, no ano de 1928.

9. Composição X (1939)

Composição X (1939)

Quando o nazismo começou a dominar a Alemanha, os artistas da Bauhaus viraram alvo de perseguição, tendo várias obras roubadas e até destruídas. Em 1933, a escola foi fechada e o pintor precisou abandonar o país.

No ano seguinte, ele realizou uma exposição na Galeria del Milione, em Milão, e se mudou para a França, o seu derradeiro destino, adotando a nacionalidade do país em 1939. A produção artística de Kandinsky, nesta época, se destacou pelas suas cores e texturas, voltando a retratar seres vivos (o chamado estilo biomórfico).

Composição X, a última das suas composições, é considerada uma das telas mais importantes e complexas do artista. Assim como na obra analisada acima, o fundo negro contrasta com as cores vivas e sugere uma imagem cósmica, tendo também ligação a temas relacionados com a espiritualidade.

Embora seja marcada por elementos abstratos, nesta obra conseguimos reconhecer algumas figuras do mundo real como a lua, um balão ou os livros que são representados.

10. Azul do céu (1940)

Azul do céu (1940)

Durante o período que viveu na França, Kandinsky continuou pintando e passou a conviver com grandes artistas da época, como Kasimir Malevich e Piet Mondrian. Os três ficaram conhecidos como o "trio sagrado da abstração".

Em Azul do Céu, obra da sua fase final, são representadas várias figuras biomórficas (podem ser criaturas microscópicas ou pequenos animais), que terão sido inspiradas na tapeçaria francesa. O fundo azul transmite uma atmosfera de harmonia, sonho e até eternidade à obra.

Mesmo enfrentando uma situação financeira difícil, e perante o começo da Segunda Guerra Mundial, o pintor permaneceu no país até ao fim. No dia 13 de dezembro de 1944, o abstracionista morreu em Neuilly-sur-Seine, na França, onde veio a ser sepultado.

Se você se interessa pelo abstracionismo, conheça também:

Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Apaixonada por leitura e escrita, produz conteúdos on-line desde 2017, sobre literatura, cultura e outros campos do saber.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

 Vai e vê
«E a morte não terá domínio» Dylan Thomas

Vai e vê
Como é infinito o universo
onde o amor é uma rosa
plantada nas estrelas furiosas
nos céus onde desfilam monstros alados
dos frutos da nossa imaginação.
Vai e vê
O namoro dos pintassilgos
Agitando os caniçais.
Vai e vê
Toda a infinitude do amor.
(da escuridão brota sempre uma doutrina
que iluminará multidões :
é deste modo que de mundos mortos
Se alimentam os girassóis ).
Vai e vê
Ó sim, o amor é uma pegada na areia,
pois que seja,
Outras pegadas se seguirão.
Nada como um colo macio de perdão.
Os tempos vão e vêm ,
Cavalos livres sobre as pradarias,
lençóis de linho
a secar na relva (lembras-te?), o enternecer dos entardeceres.
Aquele aroma do folar de enchidos
que as nossas avós coziam para a nossa pequenez
(lembras-te?).
Vai e vê
como nações, impérios, costumes, se extinguem
pelo castigo de Sodoma e Gomorra.
Não é o amor que afia espadas, que cala os pássaros,
que ameaça ventos do fim do mundo. Passarão.
Vai e vê
como o amor se repete, sim, nas mãos frágeis das crianças
e no abraço solar dos amantes.
Vai e vê
depois conta-me
como se fosse uma história para adormecer.
Conta-me antes que
um outro se erga das minhas cinzas.
Vai e vê.
----------------N. P.-------------------------2026

quarta-feira, 15 de julho de 2026

 https://youtu.be/Idsb6gk6j_U?si=yiWC50y3IaUfKj8V

Concerto de Aranjuez

 

domingo, 5 de julho de 2026

 A lua da bruxa

Quando eu era pequenino
a minha avó contava-me histórias
naquele tempo não tínhamos televisão
nem telemóveis e este sortido de distração
de que gozam os meninos a todas as horas.
Os serões não o eram como são agora :
Jantar e nos invernos logo a caminha
Só nas noites de verão, aquecidas as casas
preguiçávamos na frescura do alpendre
-O que é a Lua, avó? , perguntava eu
-É casa da bruxa, respondia ela
- E o que é uma bruxa, perguntava eu
- Se olhares bem para a lua não a vês?
- A cara dela é a Lua?, insistia eu
-Sim, se olhares com muita força!
E eram assim nos verões e só nas noites quentes
quando ouvia a história dos dois irmãos que se perderam
na floresta e outros contos de arrepiar
Encantavam-me as histórias que a minha avó me contava
embora fossem sempre de bruxas e bruxedos acabavam bem.
Não sabia eu então que elas as lia nos livros arrumadinhos
no armário da sua roupa escassa no quarto dela.
A minha avó frequentara a escola até à terceira classe
e as amigas dela, vizinhas, nem escola tinham.
Nas noites geladas daqueles invernos de gelo
Para a caminha cedinho em meias grossas de lã
com a pressa do frio e a pressa de ouvi-la
à minha avó, Deus a tenha!
Que era ela que retirava
debaixo dos lençóis a botija de louça a escaldar
(as noites mereciam existir só por causa delas, sentia eu).

A minha avó deixou-me cedo
e não voltou mais. Não me lembro do dia em que a levaram para o velório.
Não está, meu filho, a avó foi para o céu, explicaram quando à noite por ela esperei.
-Para o céu? E porque me abandonou assim?, choraminguei eu.
No primeiro verão que passei já sem a sua presença
olhei tanto tempo fixamente para a lua
com este raciocínio de uma lógica que, dita voz alta,
fez emudecer os risos do meu irmão mais velho :
“se a lua é a casa da mãe de todas bruxas, e se a avó mora agora no céu,
então a lua já não é mais a casa da bruxa má. A avó não deixa!”
Quando, mais tarde, aprendi a verdade, preferi a ficção.
No final da primeira classe, nas férias grandes, sentado
Com os garotos da vizinhança nas escadas que levavam da rua para o alpendre
(as casas deles nem alpendres tinham, as portas abriam para a rua de terra batida)
imaginava para eles na lua uma casa de onde nos espreitava a minha avó
(a avó de algum deles também, admitia a custo).
Talvez por isso os lobos da serra uivavam para a lua
e as almas penadas não se perdiam nos caminhos.
Depois a minha mãe chamava-me : - Vem para dentro, faz-se tarde, tomem cuidado
não venha levar-vos no saco a bruxa má! -
Eu entrava em casa sem medo nenhum
porque eu via no luar as lágrimas de prata da minha avó.
E enviava-lhe um sentido beijo de menino.
É destas coisas da vida que lembro
É no passado e no destino.

terça-feira, 19 de maio de 2026

 Imagem de Untitled (Your body is a battleground) - Barbara Kruger ...Untitled (Your Body Is a Battleground)

Arte Pós-moderna

 

A arte pós-moderna (surgida em meados do século XX) rompe com as verdades absolutas e a "alta cultura" do modernismo. Destaca-se pela apropriação, pastiche, intertextualidade e fusão com a cultura popular. Os trabalhos utilizam ironia e meios não tradicionais para questionar a própria instituição artística.
Obras e Artistas de Referência
  • Your Body Is a Battleground (1989), de Barbara Kruger
    Uma das obras mais icónicas da apropriação pós-moderna. Combina uma fotografia de rosto feminino dividida, texto forte e alto contraste para criticar o controlo do corpo da mulher e as dinâmicas de poder.
  • Untitled Film Stills (1977–1980), de Cindy Sherman
    Uma série de autorretratos fotográficos onde a artista encarna diversos estereótipos femininos presentes no cinema clássico de Hollywood. Questiona o olhar masculino, a construção da identidade e a natureza da própria fotografia.
  • Rabbit (1986), de Jeff Koons
    Um coelho insuflável fundido em aço inoxidável que reflete perfeitamente a estética neo-pop. A obra eleva um objeto de cultura de massa efémero ao estatuto de "alta arte" luxuosa, desafiando a distinção entre bom e mau gosto.
  • Campbell's Soup Cans (1962), de Andy Warhol
    Sendo uma das peças fundadoras da Pop Art, subverte a ideia de originalidade e exclusividade artística ao reproduzir em massa latas de sopa de supermercado, criticando e celebrando a sociedade de consumo.
  • Azulejão (2016), de Adriana Varejão
    Da arte contemporânea/pós-moderna brasileira, esta instalação reimagina os clássicos azulejos portugueses. A obra traz marcas e fissuras, questionando narrativas históricas e a relação da arte com o passado colonial.
Pode explorar e aprofundar as características que definem este período através da leitura dedicada do Pós-modernismo na RTP Ensina, que contextualiza detalhadamente a perda de confiança nas grandes narrativas históricas.