domingo, 5 de julho de 2026

 A lua da bruxa

Quando eu era pequenino
a minha avó contava-me histórias
naquele tempo não tínhamos televisão
nem telemóveis e este sortido de distração
de que gozam os meninos a todas as horas.
Os serões não o eram como são agora :
Jantar e nos invernos logo a caminha
Só nas noites de verão, aquecidas as casas
preguiçávamos na frescura do alpendre
-O que é a Lua, avó? , perguntava eu
-É casa da bruxa, respondia ela
- E o que é uma bruxa, perguntava eu
- Se olhares bem para a lua não a vês?
- A cara dela é a Lua?, insistia eu
-Sim, se olhares com muita força!
E eram assim nos verões e só nas noites quentes
quando ouvia a história dos dois irmãos que se perderam
na floresta e outros contos de arrepiar
Encantavam-me as histórias que a minha avó me contava
embora fossem sempre de bruxas e bruxedos acabavam bem.
Não sabia eu então que elas as lia nos livros arrumadinhos
no armário da sua roupa escassa no quarto dela.
A minha avó frequentara a escola até à terceira classe
e as amigas dela, vizinhas, nem escola tinham.
Nas noites geladas daqueles invernos de gelo
Para a caminha cedinho em meias grossas de lã
com a pressa do frio e a pressa de ouvi-la
à minha avó, Deus a tenha!
Que era ela que retirava
debaixo dos lençóis a botija de louça a escaldar
(as noites mereciam existir só por causa delas, sentia eu).

A minha avó deixou-me cedo
e não voltou mais. Não me lembro do dia em que a levaram para o velório.
Não está, meu filho, a avó foi para o céu, explicaram quando à noite por ela esperei.
-Para o céu? E porque me abandonou assim?, choraminguei eu.
No primeiro verão que passei já sem a sua presença
olhei tanto tempo fixamente para a lua
com este raciocínio de uma lógica que, dita voz alta,
fez emudecer os risos do meu irmão mais velho :
“se a lua é a casa da mãe de todas bruxas, e se a avó mora agora no céu,
então a lua já não é mais a casa da bruxa má. A avó não deixa!”
Quando, mais tarde, aprendi a verdade, preferi a ficção.
No final da primeira classe, nas férias grandes, sentado
Com os garotos da vizinhança nas escadas que levavam da rua para o alpendre
(as casas deles nem alpendres tinham, as portas abriam para a rua de terra batida)
imaginava para eles na lua uma casa de onde nos espreitava a minha avó
(a avó de algum deles também, admitia a custo).
Talvez por isso os lobos da serra uivavam para a lua
e as almas penadas não se perdiam nos caminhos.
Depois a minha mãe chamava-me : - Vem para dentro, faz-se tarde, tomem cuidado
não venha levar-vos no saco a bruxa má! -
Eu entrava em casa sem medo nenhum
porque eu via no luar as lágrimas de prata da minha avó.
E enviava-lhe um sentido beijo de menino.
É destas coisas da vida que lembro
É no passado e no destino.

terça-feira, 19 de maio de 2026

 Imagem de Untitled (Your body is a battleground) - Barbara Kruger ...Untitled (Your Body Is a Battleground)

Arte Pós-moderna

 

A arte pós-moderna (surgida em meados do século XX) rompe com as verdades absolutas e a "alta cultura" do modernismo. Destaca-se pela apropriação, pastiche, intertextualidade e fusão com a cultura popular. Os trabalhos utilizam ironia e meios não tradicionais para questionar a própria instituição artística.
Obras e Artistas de Referência
  • Your Body Is a Battleground (1989), de Barbara Kruger
    Uma das obras mais icónicas da apropriação pós-moderna. Combina uma fotografia de rosto feminino dividida, texto forte e alto contraste para criticar o controlo do corpo da mulher e as dinâmicas de poder.
  • Untitled Film Stills (1977–1980), de Cindy Sherman
    Uma série de autorretratos fotográficos onde a artista encarna diversos estereótipos femininos presentes no cinema clássico de Hollywood. Questiona o olhar masculino, a construção da identidade e a natureza da própria fotografia.
  • Rabbit (1986), de Jeff Koons
    Um coelho insuflável fundido em aço inoxidável que reflete perfeitamente a estética neo-pop. A obra eleva um objeto de cultura de massa efémero ao estatuto de "alta arte" luxuosa, desafiando a distinção entre bom e mau gosto.
  • Campbell's Soup Cans (1962), de Andy Warhol
    Sendo uma das peças fundadoras da Pop Art, subverte a ideia de originalidade e exclusividade artística ao reproduzir em massa latas de sopa de supermercado, criticando e celebrando a sociedade de consumo.
  • Azulejão (2016), de Adriana Varejão
    Da arte contemporânea/pós-moderna brasileira, esta instalação reimagina os clássicos azulejos portugueses. A obra traz marcas e fissuras, questionando narrativas históricas e a relação da arte com o passado colonial.
Pode explorar e aprofundar as características que definem este período através da leitura dedicada do Pós-modernismo na RTP Ensina, que contextualiza detalhadamente a perda de confiança nas grandes narrativas históricas.

terça-feira, 14 de abril de 2026

 David , de Miguel Ângelo, o Homem confiante e seguro de si da Renascença, e o as esculturas de Giacometti, nossas contemporâneas, do indivíduo frágil, trôpego, incerto. Os mercados, o marketing, o cinema, procuram atrair consumidores-pagadores para um ideal que, consciente ou mais ignorantemente, procura assemelhar-se a David, porém não conseguem com o músculo preencher o vazio a incerteza , a não confiança em sim mesmos,e o medo.Exploring The Walking Man I by Alberto GiacomettiFoto 1 de 4Foto 1 de 4

sábado, 21 de março de 2026

 Heinrich Heine (1797-1856)

Os tecelões da Silésia**
Sem uma lágrima no sombrio olhar,
Ei-los sentados, de dentes cerrados, junto ao tear:
Alemanha, a tua mortalha tecemos à mão,
E nela tecemos três vezes maldição –
Ao tear, ao tear!
Maldição ao ídolo a quem de Inverno
Rezámos com frio e fomes de inferno;
Em vão estivemos à espera e com esperança,
E ele troçou de nós, riu-se da matança –
Ao tear, ao tear!
Maldição ao rei, rei dos ricaços,
Que não abrandaram os nosso cansaços,
Que nos arrancou os últimos vinténs
E nos faz metralhar como a cães –
Ao tear, ao tear!
Maldição à pátria falsa e medonha,
Onde apenas medram o roubo, a vergonha,
Onde cada flor logo em botão se corta,
Onde os vermes se cevam de carne morta!
Ao tear, ao tear!
Voa a lançadeira, estala o tear,
E nós noite e dia a tecer, a suar,
Velha Al’manha, tecemos tua mortalha à mão,
E nela tecemos três vezes maldição.
Ao tear, ao tear!

(Silésia, importante zona industrial da Polónia e da Chéquia. O Poeta Heinrich Heine é, para muitos, o maior poeta de língua alemã, com influência tanto a Ocidente como a Oriente. Escritor ácido nas suas crónicas, socialista, sendo embora mais velho que Karl Marx vinte anos, foi seu amigo e o filósofo que escreveu o "Manifesto" nutriu por ele profunda admiração. A influência de Heine nos escritos políticos de Marx é notória. Este poema aqui partilhado obteve ao tempo uma enorme repercussão e foi um "toque de finados " na poesia lírica romântica alemã vigente.)

 21 de Março Dia Mundial da Poesia

Podes?

– Nicolás Guillén

Podes vender-me o ar que passa entre teus dedos
E golpeia teu rosto e desalinha teus cabelos?
Talvez possas vender-me cinco moedas de vento?
Ou mais, talvez uma tormenta?
Acaso me venderias ar fino – não todo –
O ar que percorre teu jardim de flor em flor
E sustenta o vôo dos pássaros?
Dez moedas de ar fino, me venderias?
O ar gira e passa na asa da mariposa.
Ninguém o possui. Ninguém!
Podes vender-me céu?
Céu azul por vezes, ou cinza, também às vezes,
Uma parte do teu céu, o que comprastes, pensas tu,
Com as árvores do teu sítio, como quem compra o teto com a casa?
Podes vender-me um dólar de céu?
Dois quilômetros de céu, um pedaço,
O que puderes, do “teu” céu?
O céu está nas nuvens. Altas passam as nuvens.
Ninguém o possui. Ninguém!
Podes vender-me chuva?
A água que forma tuas lágrimas molha tua língua?
Podes vender-me um dólar de água da fonte?
Um nuvem crespa, me venderias?
Ou, quem sabe, água chovida das montanhas?
Ou água dos charcos, abandonada aos cães?
Ou uma légua de mar, talvez um lago?
A água cai e corre. A água corre. Passa.
Ninguém a possui. Ninguém.
Podes vender-me terra?
A profunda noite das raízes, dentes de dinossauros,
A cauda espersa de longínquos esqueletos?
Podes vender-me selvas já sepultadas, aves mortas,
Peixes de pedra, enxofre dos vulcões,
Milhões e milhões de anos em espiral crescendo?
Podes vender-me terra?
Podes vender-me?
Podes
A tua terra é terra minha, todos os pés se apóiam nela.
Ninguém a possui. NINGUÉM!
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Nicolás Guillén, poeta cubano. (1902-1989)

domingo, 15 de março de 2026

MAX ERNST

 Max Ernst, Os Artistas

Max Ernst era um alemão artista nascido em 2 de abril de 1891. Ernst contribuiu para o Dadaista e surrealista movimentos, trabalhados no Estados Unidos e França e morreu em 1 de abril de 1976.