A lua da bruxa
Quando eu era pequenino
a minha avó contava-me histórias
naquele tempo não tínhamos televisão
nem telemóveis e este sortido de distração
de que gozam os meninos a todas as horas.
Os serões não o eram como são agora :
Jantar e nos invernos logo a caminha
Só nas noites de verão, aquecidas as casas
preguiçávamos na frescura do alpendre
-O que é a Lua, avó? , perguntava eu
-É casa da bruxa, respondia ela
- E o que é uma bruxa, perguntava eu
- Se olhares bem para a lua não a vês?
- A cara dela é a Lua?, insistia eu
-Sim, se olhares com muita força!
E eram assim nos verões e só nas noites quentes
quando ouvia a história dos dois irmãos que se perderam
na floresta e outros contos de arrepiar
Encantavam-me as histórias que a minha avó me contava
embora fossem sempre de bruxas e bruxedos acabavam bem.
Não sabia eu então que elas as lia nos livros arrumadinhos
no armário da sua roupa escassa no quarto dela.
A minha avó frequentara a escola até à terceira classe
e as amigas dela, vizinhas, nem escola tinham.
Nas noites geladas daqueles invernos de gelo
Para a caminha cedinho em meias grossas de lã
com a pressa do frio e a pressa de ouvi-la
à minha avó, Deus a tenha!
Que era ela que retirava
debaixo dos lençóis a botija de louça a escaldar
(as noites mereciam existir só por causa delas, sentia eu).
A minha avó deixou-me cedo
e não voltou mais. Não me lembro do dia em que a levaram para o velório.
Não está, meu filho, a avó foi para o céu, explicaram quando à noite por ela esperei.
-Para o céu? E porque me abandonou assim?, choraminguei eu.
No primeiro verão que passei já sem a sua presença
olhei tanto tempo fixamente para a lua
com este raciocínio de uma lógica que, dita voz alta,
fez emudecer os risos do meu irmão mais velho :
“se a lua é a casa da mãe de todas bruxas, e se a avó mora agora no céu,
então a lua já não é mais a casa da bruxa má. A avó não deixa!”
Quando, mais tarde, aprendi a verdade, preferi a ficção.
No final da primeira classe, nas férias grandes, sentado
Com os garotos da vizinhança nas escadas que levavam da rua para o alpendre
(as casas deles nem alpendres tinham, as portas abriam para a rua de terra batida)
imaginava para eles na lua uma casa de onde nos espreitava a minha avó
(a avó de algum deles também, admitia a custo).
Talvez por isso os lobos da serra uivavam para a lua
e as almas penadas não se perdiam nos caminhos.
Depois a minha mãe chamava-me : - Vem para dentro, faz-se tarde, tomem cuidado
não venha levar-vos no saco a bruxa má! -
Eu entrava em casa sem medo nenhum
porque eu via no luar as lágrimas de prata da minha avó.
E enviava-lhe um sentido beijo de menino.
É destas coisas da vida que lembro
É no passado e no destino.
domingo, 5 de julho de 2026
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