quarta-feira, 1 de novembro de 2023
terça-feira, 31 de outubro de 2023
quinta-feira, 19 de outubro de 2023
LUKÁCS
Lukács e o papel da arte na dinâmica de autoconstrução humana
Longe de constituir um corpo normativo, cujo objetivo seria o de identificar a “verdadeira obra de arte”, o que o leitor tem diante de si é um conjunto de reflexões de extraordinária riqueza que Lukács articula a partir de filósofos e historiadores da arte, assim como – é claro – de obras específicas pertencentes à literatura, às artes plásticas, à música, à dança, à arquitetura e até mesmo à jardinagem.
Publicado em 02/10/2023 // 1 comentário
Por Ester Vaisman
O lançamento do primeiro volume de A peculiaridade do estético vem agregar à já afamada Biblioteca Lukács a obra que representa o ponto culminante dos escritos de György Lukács publicados em vida. Traduzido diretamente do alemão para o português por Nélio Schneider e com revisão técnica de Ronaldo Vielmi Fortes, o volume traz ainda a apresentação elaborada por José Paulo Netto, que se debruça sobre o itinerário do filósofo húngaro até a publicação de sua “grande estética”, como a obra é também conhecida.
Publicado inicialmente em 1963, o livro se destaca por sua originalidade e pela riqueza na análise do fenômeno artístico, diferenciando-se não somente dos tratamentos clássicos do tema, mas também daquelas abordagens do campo marxista que tentaram desvelar apenas o seu significado histórico-social.
A abordagem lukacsiana, ao tomar a vida cotidiana como âmbito em que se dá a gênese da produção artística, indaga sobre o papel da arte na dinâmica de autoconstrução humana, identificando, no processo de antropomorfização que lhe é característico, o meio pelo qual a peculiaridade da obra de arte vem à tona: sempre como uma refiguração da realidade objetiva, seu resultado é uma figura particular capaz de evocar os mais variados sentimentos no momento em que é recebida e experienciada.
O leitor interessado encontrará nos quatro capítulos que compõem o volume, assim como nos demais a serem publicados, uma argumentação profunda, lúcida e criteriosa que evidencia o papel da criação artística: a elevação da subjetividade, concebida sempre em contato múltiplo e aprofundado com o mundo objetivo e suas determinações. Tal modo de tematizar a relação subjetividade-objetividade na criação artística revela os traços mais significativos do enraizamento de Lukács no pensamento de Marx.
Longe de constituir um corpo normativo, cujo objetivo seria o de identificar a “verdadeira obra de arte”, o que o leitor tem diante de si é um conjunto de reflexões de extraordinária riqueza que Lukács articula a partir de filósofos e historiadores da arte, assim como – é claro – de obras específicas pertencentes à literatura, às artes plásticas, à música, à dança, à arquitetura e até mesmo à jardinagem.
O primeiro volume da Estética, monumental obra de György Lukács publicada
em 1963, é leitura imprescindível para a compreensão do pensamento
lukacsiano sobre o fenômeno artístico. A edição brasileira será dividida
em quatro volumes (a original foi publicada em dois) e será entregue
anualmente ao leitor. Estética: a peculiaridade do estético – Volume 1 traz
reflexões de Lukács sobre a experiência estética, o papel da arte, da
ciência, da cultura e da política na sociedade: “Há características que
singularizam o empreendimento lukacsiano realizado na Estética – e uma
delas, de evidência inquestionável, consiste em que esse empreendimento
constitui a formulação mais desenvolvida de uma estética sistemática
produzida no interior da tradição marxista”, escreve José Paulo Netto na
apresentação da obra.
Direcionadas para o conhecimento da
peculiaridade do estético, este texto aborda âmbitos da vida humana como
a religião, a ciência, a ética, a psicologia e outras formas de
inter-relacionamento no âmbito de ser e estar no mundo. Sessenta anos
depois da sua publicação em alemão, o leitor brasileiro terá contato com
a primeira edição da obra em português, com tradução direta do idioma
original feita por Nélio Schneider, revisão técnica de Ronaldo Vielmi Fortes, apresentação de José Paulo Netto e orelha de Ester Vaisman.
“A Estética permanece o monumento mais expressivo dos textos publicados por Lukács durante sua vida.”
NICOLAS TERTULIAN
“Este é um
empreendimento gigantesco para a clarificação dos dois principais
âmbitos relacionados com a arte: o do processo que a gera – e nela
determina a sua própria natureza, o seu específico ser-para-si estético –
e o das funções que ela cumpre na vida social humana.”
GUIDO OLDRINI
“Em Lukács, a
teorização relativa à arte esteve sempre ligada à prática da crítica
concreta de obras de arte. Essa sistematização estética não foi obra de
um filósofo que se debruçou aleatoriamente sobre obras de arte e se
dedicou, com diligência e zelo, a teorizar sobre elas ou a partir delas.
A Estética resultou de análises críticas de obras de arte
significativas do acervo cultural da humanidade, que se articularam numa
incessante pesquisa que conjugou o trato crítico dessas obras com
elaborações estético-filosóficas.”
JOSÉ PAULO NETTO
domingo, 20 de agosto de 2023
Para um cinema verdadeiramente radical, olhemos para 1960
Sofia Schurig
Durante o final da década de 1960, dois cineastas argentinos de esquerda escreveram um manifesto que pedia um novo tipo de cinema conhecido como "Terceiro Cinema". Esse movimento levou à criação de alguns dos filmes mais radicais e anticoloniais da história do cinema.
Barbie é uma derrubada radical não só do patriarcado, mas das convenções do próprio cinema. Ou é um comercial de longa-metragem adoçado com platitudes pseudofeministas. Oppenheimer é uma acusação contundente de um gênio torturado cuja ambição amoral não deixou nada além de destruição em seu rastro. Ou é uma canonização brilhante do homem por trás de uma das maiores atrocidades da história.
A batalha sobre a política dos últimos blockbusters explodiu semanas antes do lançamento. Como as partículas quânticas não observadas de Oppenheimer, os filmes na era do Twitter existem simultaneamente em estados antitéticos; revolucionário e reacionário, acordado e problemático. Em cada filme, uma imagem exagerada da própria posição — ou dos inimigos — pode ser projetada.
Criticar a política dos meios de comunicação de massa é, sem dúvida, um projeto que vale a pena. Mas no mar de discurso de guerra cultural exagerado, é fácil perder de vista a terra. O que o cinéfilo anticapitalista deve procurar no horizonte? Qual é a Estrela Norte do cinema de esquerda?
Na época das franquias de super-heróis e dos remakes da Disney, dos vencedores do Oscar e dos filmes de Adam McKay, a esquerda faria bem em considerar como avaliamos a política do cinema e como seria uma forma alternativa e verdadeiramente radical de cinema. Não há lugar melhor para começar do que o Terceiro Cinema.
Terceiro Cinema na teoria
Em outubro de 1969, a revista Tricontinental publicou um artigo escrito por dois jovens cineastas argentinos, Octavio Getino e Fernando Solanas, intitulado Rumo a um Terceiro Cinema. Este artigo de vinte páginas viria a se transformar em uma espécie de manifesto, articulando a teoria subjacente a um movimento cinematográfico emergente e influenciando uma abordagem do cinema político que perdura até os dias de hoje, mais de cinquenta anos depois.
“Rumo a um Terceiro Cinema” postula que, até então, a maioria dos filmes poderia ser classificada em duas categorias distintas. O Primeiro Cinema corresponderia ao cinema de Hollywood, ou seja, filmes produzidos por grandes empresas com o propósito principal de entreter e, assim, gerar lucros. Pense em musicais da Era de Ouro de Hollywood ou filmes da Marvel.
“Embora o Primeiro Cinema tenha demonstrado o potencial do cinema como meio para alcançar o público em massa, ele carecia de intenções radicalmente políticas.”
Por outro lado, o Segundo Cinema é frequentemente mais autoral e experimental, concentrando-se sobretudo na expressão artística. De várias maneiras, o Segundo Cinema representa um avanço político em relação ao Primeiro, estendendo os limites da mídia na busca por objetivos mais elevados do que apenas o entretenimento espetacular. No entanto, de acordo com Getino e Solanas, seu potencial político continuava sendo limitado pelas pressões comerciais.
Na pior das hipóteses, o Segundo Cinema poderia restringir-se a uma perspectiva autointeressada e individualista. Na melhor das hipóteses, testemunharia as injustiças e os sofrimentos da classe trabalhadora, mas permaneceria dissociado de uma crítica sofisticada às relações materiais que engendram tal sofrimento e suas possíveis alternativas.
Reconhecendo as forças e os limites dessas duas formas, Getino e Solanas propuseram um Terceiro Cinema, explicitamente preocupado em usar o poder do cinema para educar e agitar as massas em direção à luta de classes e à libertação nacional.
Aparentemente influenciados pela obra do cinema soviético primitivo, o pensamento do filósofo-educador Paulo Freire e, talvez acima de tudo, do teórico-dramaturgo Bertolt Brecht, Getino e Solanas denunciavam como a indústria cinematográfica argentina estava “preparada para aceitar e justificar a dependência, a origem de todo o subdesenvolvimento”. Em vez disso, eles pediram o desenvolvimento de um cinema projetado para promover a consciência de classe anti-imperialista de seu público.
Como eles colocam:
A luta anti-imperialista dos povos do Terceiro Mundo e dos seus equivalentes no interior dos países imperialistas constitui hoje o eixo da revolução mundial. O terceiro cinema é, a nosso ver, o cinema que reconhece nessa luta a mais gigantesca manifestação cultural, científica e artística do nosso tempo, a grande possibilidade de construir uma personalidade liberta tendo cada povo como ponto de partida — numa palavra, a descolonização da cultura.
Getino e Solanas rejeitaram uma crença simplista no poder da arte ou da linguagem para mudar unilateralmente o mundo. Em vez disso, eles entendiam a cultura como apenas um local de contestação. A produção cultural foi uma ferramenta poderosa com potencial para interagir, dialeticamente, com as condições materiais para promover a verdadeira luta pela libertação do Terceiro Mundo.
Em Political Film, o estudioso Mike Wayne identifica quatro elementos-chave pelos quais o Terceiro Cinema tem em vista atingir esses objetivos: historicidade — o filme se situa na história, entendida como “processo, mudança, contradição e conflito”; politização — o filme explora “o processo pelo qual as pessoas oprimidas e exploradas se conscientizam dessa condição e decidem fazer algo a respeito”; compromisso crítico — enquanto nenhuma obra artística está descolada da ideologia, o Terceiro Cinema abraça sua perspectiva crítica; e especificidade cultural — e a obra se fundamenta no contexto cultural particular de seu público.
Talvez a expressão mais clara dessa abordagem seja La Hora de los Hornos, de Getino e Solanas, feita em 1968. O filme combina imagens documentais originais e de arquivo para criar um tratado de quatro horas sobre a Argentina — seu passado colonial, seu presente neocolonial, sua composição de classe e, não menos importante, a necessidade de luta por sua libertação.
Embora ocasionalmente derivando para um formato de documentário mais padrão, La Hora de los Hornos está em seu melhor momento quando Getino e Solanas estão brincando com a forma, quase tangivelmente experimentando o poder do cinema para educar e engajar.
O filme começa com tambores, bombardeando o espectador com imagens de conflitos sociais — protestos, brutalidade policial, guerrilha — intercaladas com cartazes que proclamam slogans como “LIBERTAÇÃO” e “Um passado comum. Um inimigo comum. Uma possibilidade comum.” Em uma sequência posterior, imagens chocantes de um matadouro são montadas juntamente com anúncios e intertítulos que descrevem, por exemplo, a porcentagem da riqueza mineral da Argentina que pertence a empresas estrangeiras.
Para Getino e Solanas, o Terceiro Cinema não era definido apenas pelo seu conteúdo e forma, mas também pelo seu método de produção e distribuição. Os dois fundaram o Grupo Cine Liberación, que incorporava o controle democrático e a propriedade dos trabalhadores no processo de produção cinematográfica. Operando sob a sombra da ditadura e buscando minimizar quaisquer obrigações financeiras que pudessem enfraquecer sua política, o coletivo contava com o “cinema de guerrilha” — pequenas equipes operando com orçamentos apertados e, frequentemente, à margem da lei.
A distribuição se ajustou a um padrão semelhante. Proibida em vários países, La Hora de los Hornos era tipicamente mostrada por organizações políticas radicais em exibições clandestinas acompanhadas de intensas sessões de diálogo e debate. Nem todo cineasta do Terceiro Cinema atenderia aos rígidos padrões de produção e distribuição delineados por Getino e Solanas, mas a crítica à produção cultural capitalista e o espírito de rigoroso engajamento do público que eles incorporaram foram, no entanto, formadores para o desenvolvimento do Terceiro Cinema.
Terceiro Cinema na prática
Enquanto Getino e Solanas cunharam o termo, Terceiro Cinema não é só deles. A Estética da Fome, do brasileiro Glauber Rocha, publicado quatro anos antes, e Por um Cinema Imperfeito, do teórico-diretor cubano Julio García Espinosa, foram ensaios igualmente influentes sobre o potencial político do cinema. Mas mais importante do que qualquer teoria escrita são os próprios filmes.
O Terceiro Cinema assume muitas formas. La batalla de Chile: La lucha de un pueblo sin armas (A batalha do Chile: a luta de um povo desarmado), de Patricio Guzmán, usa imagens documentais para acompanhar a reação reacionária à presidência de Salvador Allende. Yawar Mallku (Sangue do Condor), de Jorge Sanjinés, é um drama baseado em uma suposta história real de uma comunidade quíchua descobrindo que suas mulheres foram esterilizadas à força pelo Corpo de Paz dos EUA.
O caprichoso Mababangong Bangungot (Pesadelo Perfumado) de Kidlat Tahimik acompanha um motorista de jipe filipino obcecado pelos EUA (e megafã de Wernher von Braun) em sua jornada de desilusão do Ocidente.
Muitos filmes do Terceiro Cinema retratam explicitamente a luta pela independência política nacional; Ambientado em Angola de 1961, Sambizanga, de Sarah Maldoror, é sobre a jornada de uma mulher para libertar seu marido preso e militante, que fazia parte do Movimento Popular de Libertação de Angola.
Outros, como o “pai” do cinema africano Ousmane Sembène — que declarou famosamente que “a Europa não é o meu centro” — também frequentemente miram na burguesia pós-colonial. Sua obra Xala, por exemplo, conta a história de um empresário senegalês corrupto amaldiçoado com impotência — tanto política quanto sexual.
Embora sem remorsos em sua postura política, Terceiro Cinema não foge de nuances ou complexidades. Memorias del Subdesarrollo, de Tomás Gutiérrez Alea, retrata a burguesia cubana como desamarrada e descontente em um país que seguiu em frente sem eles, apresentando, como disse um crítico, um “retrato empático de um homem antipático”.
Embora o Terceiro Cinema seja geralmente feito por artistas do Terceiro Mundo, não é necessariamente assim. A obra-prima neorrealista do italiano Gillo Pontecorvo, La battaglia di Algeri (A Batalha de Argel), é frequentemente incluída no cânone, juntamente com sua menos conhecida Queimada (Burn!). O rótulo também não se limita a longas-metragens.
O filme de sete minutos Vampiros da Pobreza, dos colombianos Carlos Mayolo e Luis Ospina, por exemplo, começa como uma sátira eficaz da glaumorização da pobreza, mas se transforma em algo completamente mais poderoso quando a narrativa é abandonada para permitir que um ator — um morador real da favela retratada, ao que parece — quebre a quarta parede e articule suas opiniões sobre o processo de filmagem diretamente para a câmera.
O Terceiro Cinema como uma onda cresceu e, finalmente, refluiu ao lado do movimento do Terceiro Mundo. Mas não foi totalmente remetido ao passado. Vinte anos depois do seu Touki Bouki, um clássico do Terceiro Cinema, Djibril Diop Mambéty fez de Hyènes (Hienas), uma alegoria para a chegada do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) ao continente africano, e a disponibilidade de alguns para sacrificar tudo por uma parte das riquezas prometidas.
Em Bamako, de 2006, do cineasta mauritano-maliano Abderrahmane Sissako, o povo africano levou o FMI e o Banco Mundial a julgamento por seus crimes contra o continente no pátio da casa de uma família maliana. Enquanto a audiência se desenrola, outros membros da família assistem a um filme em que um grupo de cowboys americanos vai a um tiroteio em Tombuctu; “Dois professores, são muitos”, diz um, antes de demitir.
Abrangendo décadas, continentes e gêneros, desde os filmes que inspiraram Getino e Solanas até seus descendentes hoje, o Terceiro Cinema é menos um movimento singular do que uma abordagem compartilhada — um compromisso comum — para usar o poder do cinema para avançar o projeto de libertação do Terceiro Mundo.
Terceiro Cinema, antes e agora
O Terceiro Cinema não é isento de críticas. Apesar das suas reivindicações impactantes, manteve-se em uma posição culturalmente marginalizada. Embora tenha buscado um público amplo, as exigências que impunha aos seus espectadores muitas vezes resultaram no desengajamento ou até alienação de muitos.
Além disso, é importante ressaltar que o Terceiro Cinema não detém um monopólio exclusivo sobre o cinema político. Desde os mestres soviéticos até Bong Joon-ho, passando por vastos movimentos de cinema negro radical, feminista e queer, o cinema tem sido utilizado como veículo de mudança social desde o início do meio.
No entanto, as contribuições do Terceiro Cinema para a história do cinema político são consideráveis. Como uma tentativa concertada de expressar políticas radicais desde a produção até o consumo e a distribuição, suas realizações são notáveis. Enquanto alguns filmes exploram a justa indignação apenas para aplacá-la, o Terceiro Cinema a canaliza. Mais do que apenas lamentar superficialmente o estado do mundo, o Terceiro Cinema oferece uma crítica substancial ao sistema capitalista e imperialista.
“Sua razão de existir não é meramente lucrativa; é dedicada ao desenvolvimento da consciência de classe e à contribuição cultural para a luta material anti-imperialista.”
Getino e Solanas encerram seu manifesto declarando que “o surgimento de um Terceiro Cinema significa, pelo menos para nós, o evento artístico revolucionário mais significativo de nosso tempo”. Embora essa afirmação possa parecer dramática em retrospecto, ela foi feita em um período em que as políticas do Terceiro Mundo pareciam prestes a reformular as relações globais. O mundo de 2023 é certamente diferente do de 1969, mas o objetivo fundamental do Terceiro Cinema – a descolonização – não perdeu sua urgência.
Não é necessário que todos os filmes sigam os padrões do Terceiro Cinema para ter um impacto político, e muito menos um valor artístico. Filmes como Barbie e Oppenheimer podem ser assistidos, apreciados, criticados, condenados ou valorizados, sem restrições. No entanto, no meio do discurso confuso e hiperbólico que muitas vezes acompanha os principais lançamentos, o legado duradouro de um dos movimentos políticos mais influentes na história do cinema oferece um ponto de ancoragem.
O Terceiro Cinema é um lembrete do potencial radical desta forma de expressão.
Sobre os autores
Miguel Galant
ajuda a liderar o Subcomitê de Economia e Comércio do Comitê Internacional do Socialistas Democráticos da América e é membro do secretariado da Internacional Progressista.
sexta-feira, 4 de agosto de 2023
Maiakóvski
Vladimir Maiakovski
| Vladimir Maiakovski | |
|---|---|
| Mayakovski em 1924 | |
| Pseudônimo(s) | Vladimir Mayakovsky |
| Nascimento | Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky (em russo: Владимир Владимирович Маяковский) 19 de julho de 1893 Baghdati, Império Russo |
| Morte | 14 de abril de 1930 (36 anos) Moscou, URSS |
| Sepultamento | Cemitério Novodevichy |
| Nacionalidade | russo |
| Cidadania | Império Russo, União Soviética |
| Cônjuge | Lilya Brik |
| Filho(s) | Patricia Thompson |
| Alma mater | Universidade Estatal Stroganov de Artes e Indústria de Moscovo, Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscovo |
| Ocupação | poeta, dramaturgo e teórico |
| Prêmios |
|
| Género literário | Futurismo russo Cubofuturismo |
| Obras destacadas | 33 Poesias |
| Movimento estético | Futurismo russo, futurismo |
| Causa da morte | Perfuração por arma de fogo |
| Página oficial | |
| http://v-v-mayakovsky.ru/ | |
| Assinatura | |
Vladimir Vladimirovitch Maiakovski (em russo: Владимир Владимирович Маяковский; Baghdati, Império Russo, 19 de julho de 1893 — Moscou, Rússia, 14 de abril de 1930), também chamado de "o poeta da Revolução", foi um poeta, dramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot, bem como "o maior poeta do futurismo".[1][2]
Biografia
Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky nasceu e passou a infância na aldeia de Baghdati, nos arredores de Kutaíssi, na Geórgia, Império Russo.[3][4] Lá cursou o ginásio e, após a morte súbita do pai, a família ficou na miséria e transferiu-se para Moscou, onde Vladimir continuou seus estudos.[3]
Fortemente impressionado pelo movimento revolucionário russo e impregnado desde cedo de obras socialistas, ingressou aos quinze anos na organização bolchevique do Partido Social-Democrático Operário Russo. Detido em duas ocasiões, foi solto por falta de provas, mas em 1909-1910 passou onze meses na prisão. Entrou na Escola de Belas Artes, onde se encontrou com David Burliuk, que foi o grande incentivador de sua iniciação poética. Os dois amigos fizeram parte do grupo fundador do assim chamado cubo-futurismo russo, ao lado de Khlebnikov, Kamiênski e outros.[5] Foram expulsos da Escola de Belas Artes. Procurando difundir suas concepções artísticas, realizaram viagens pela Rússia.
Após a Revolução de Outubro, todo o grupo manifestou sua adesão ao novo regime. Durante a Guerra Civil, Mayakovsky se dedicou a desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início da consolidação do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc. Fundou em 1923 a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), que reuniu a “esquerda das artes”, isto é, os escritores e artistas que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social.[3]
Fez numerosas viagens pelo país, aparecendo diante de vastos auditórios para os quais lia os seus versos. Viajou também pela Europa Ocidental, México e Estados Unidos. Entrou frequentemente em choque com os "burocratas" e com os que pretendiam reduzir a poesia a fórmulas simplistas. Foi homem de grandes paixões, arrebatado e lírico, épico e satírico ao mesmo tempo. Era fanático pela equipe de futebol Spartak Moscou.[carece de fontes]
Oficialmente, suicidou-se com um tiro em 1930, sem que isto tivesse relação alguma com sua atividade literária e social.[6][7][8] Tal fato tem sido questionado, pois na época o poeta estaria sendo pressionado pelos programas oficiais que desejavam instaurar uma literatura simplista e dita realista, dirigidos por Viatcheslav Molotov, que teria perseguido antigos poetas revolucionários como Maiakovski.[3][9] Em vista disso, aponta-se a possibilidade real de um suicídio forjado por motivos políticos. [10][6]
Obra
Sua obra, profundamente revolucionária na forma e nas idéias que defendeu, apresenta-se coerente, original, veemente, una. A linguagem que emprega é a do dia a dia, sem nenhuma consideração pela divisão em temas e vocábulos “poéticos” e “não-poéticos”, a par de uma constante elaboração, que vai desde a invenção vocabular até o inusitado arrojo das rimas.[3][4]
Fazendo parte do grupo "Hylaea", que daria origem ao chamado cubo-futurismo, seu primeiro livro de poemas, no entanto, seria de estética influenciada pelo simbolismo, e nunca chegaria a público, tendo sido escrito quando o poeta estava na prisão e apreendido pela polícia no momento da sua libertação.[11][12]
Aproximando-se de David Burliuk na década de 1910, passa a escrever em um estilo aproximado do cubismo e do futurismo, influenciado pelo primitivismo eslavista e pela linguagem transracional de Velimir Khlebnikov e outros, repleto de imagística urbana e surpreendente, com um certo ar impressionista e, ainda, simbolista. Esta fase de sua poesia é a mais apreciada por poetas como Boris Pasternak, em função de ainda manter alguns recursos simbolistas e métrica rigorosa em alguns poemas.[3][4] A Nuvem de Calças é um de seus poemas mais conhecidos desse período.
Em seguida, já na década de 1920, sua poesia, apesar de haver uma continuidade no que diz respeito à inovação rítmica, a rimas inusitadas, ao uso da fala cotidiana e mesmo de imagens inusitadas, assume um tom direto.[13]
Ao mesmo tempo, o gosto pelo desmesurado, o hiperbólico, alia-se em sua poesia desta época à dimensão crítico-satírica. Criou longos poemas e quadras e dísticos que se gravam na memória. Traduções sem preocupação com a forma dos poemas produzidos nesta época têm dado ao público uma imagem errônea do poeta, fazendo-o parecer um "gritador".[13]
Na realidade, era um poeta rigoroso, que chegava a reescrever sessenta vezes o mesmo verso e recolhia muito material informativo e linguístico para posterior uso nos seus poemas. Criou também ensaios sobre a arte poética e artigos curtos de jornal; peças de forte sentido social e rápidas cenas sobre assuntos do dia; roteiros de cinema arrojados e fantasiosos e breves filmes de propaganda.[13]
Tem exercido influência profunda em todo o desenvolvimento da poesia russa moderna, bem como sobre outros poetas e movimentos no mundo inteiro, como Hamid Olimjon, Nazım Hikmet, Hedwig Gorski, Vasko Popa. O cantor e compositor João Bosco gravou sua poesia E Então, Que Quereis...? nos álbuns Bosco, de 1989, e Acústico MTV (João Bosco), de 1992, no qual passou a incluir a poesia como prelúdio da canção Corsário.
Vladímir Maiakóvski (traduções e notas por André Nogueira)

Foto: Maiakóvski declama para os
auditórios da União Soviética em 1930. Ao fundo uma faixa: “Proletários
de todo o mundo, uni-vos!” Obs.: os desenhos nesta publicação são
cartazes de Maiakóvski projetados para a ROSTA, Agência Telegráfica
Russa. Eles não constituem originalmente ilustrações dos poemas que se
seguem.
…
15 POEMAS DE VLADÍMIR MAIAKÓVSKI
Traduções e notas: André Nogueira (2017)
O IMPERADOR
Lembro —
………. …isso foi talvez na páscoa,
ou quem sabe —
…………………..no natal.
Estava limpa
………………e preparada
……………………………..toda a praça
para a marcha
……………….triunfal.
Os soldados,
……………. .desde os rasos
………………………………..aos tenentes-coronéis:
na Tviérskaia se vê
………………………do pelotão
……………………………………fileira tensa.
Oficial torce o bigode,
…………………………grita e bate com os pés:
— Às suas ordens! —
……………… ………eles batem continência.
De repente —
………………. a carruagem a deslizar,
…………………………………………….sob a capota
com bem asseada barba
…………………………….está sentado um militar,
quatro filhotas
………………..como tábuas
………………………………..atrás dele
……………. ……………………………..a acenar.
Sobre o asfalto
…………………à via larga,
como sobre
……………as nossas costas,
………………………………….o cortejo
e hasteados para o alto
…………………………..os brasões e as águias —
eu da turba
…………….tudo vejo.
As senhoras se empurram,
……………………………….toca o sino na campana
e encobre
……………— Urra, urra! —
……………………………….os gritinhos com os quais
elas recebem sua nobre
……………………………majestade Nikolai,
“nosso tsar-imperador,
.. ……………………….de toda a Rússia o soberano!”
A neve cai
…………..sobre os telhados,
………………………………….a nós todos soterrando.
A se arrastar pelos Urais,
…………………………….pela extensão siberiana,
pelo Iset
…………de margens íngremes e minas,
pelo Iset
…………das ventanias glaciais —
essa intempérie insana
. ………… …………..em Sverdlóvsk termina. 1
O trenó do comitê
…………….. …..já a cidade
………………. ……………..ultrapassa.
Por azar,
………..a neve cobre
.. ……………………….o mundo todo —
não se vê a coisa alguma,
… ………………………….só dos lobos
o seu rastro
…………….atrás da caça.
Estacionamos,
………………..finalmente,
………………………………há vinte verstas.
O exército dos cedros
.. … …………………..se perfila
… … ……………………………..até ao longe.
Paramánov à frente,
……. ………………..penetramos na floresta,
caminhamos pela trilha,
…. …. …………………..para onde?
Mais pesado
……… …….que da mina
….. …… ………………..a bruta pedra,
um tesouro
………… . .nunca achado.
Toda a glória e majestade
……………………………..do tsar-imperador
em que buraco
…….. …… …..se esconde…
Dentre os cedros
……………………uma marca
……. ……… ………………..de machado…
— Aqui!? —
……………..Não.
……………………Pelo menos por enquanto.
Nossas botas
……………….que escavem
………………………………..noutro canto.
Nalgum lugar
………………..sob os cascalhos
……………………………………..da estrada,
sob as raízes
…… ……….. dessas árvores,
a última estada
……………… …de seus míseros
……………………………………..cadáveres.
No alto,
………..sobre as nuvens hasteado,
o dia rápido amanheça,
e uma ave
…………..malfazeja —
negro corvo
…….. ……..de uma única cabeça —
lamentando-se pragueja.
Vos seduz
……………o esplendor
…………………………..de uma coroa?
Descobris
…………..como essa luz
…………………………….vos ilumina,
pela última das vezes,
…………………………quando enfim
. … …………………………………..se amontoa
a sepulta realeza
……… …………..no escuro destas minas.
Sverdlovsk, 1928

1 Em janeiro de 1928 Vladímir Maiakóvski visitou Sverdlóvsk, nome pelo qual foi rebatizada, em 1924, a cidade de Ekaterinburg. Nessa cidade foram fuzilados o último imperador da Rússia, Nikolai Romanov (o tsar Nicolau II) e sua família: a tsarina Aleksandra, o tsariévitch Aleksei, as quatro filhas, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga; também os empregados e amigos que os acompanhavam no exílio. Sabe-se que isso aconteceu em 17 de julho de 1918, na Casa Ipátiev, residência onde estavam feitos prisioneiros. Mas ao longo de muitas décadas não se soube ao certo a localidade de seus corpos. Suspeitava-se que os tivessem lançado no fosso de uma mina abandonada, às margens do rio Iset, ou enterrado na floresta de Koptiaki, à beira da estrada que dava acesso à cidade.
Maiakóvski atendeu ao convite de Anatoli Ivánovitch Paramánov, presidente do comitê executivo distrital de Sverdlóvsk, para conhecer a cidade, onde chegou no dia 27 de janeiro. Durante os três dias de sua estadia, participou de reuniões com os estudantes e leu seus poemas aos trabalhadores das indústrias e mineiros. Teve tempo, também, de conhecer a Casa Ipátiev. Paramánov disse saber o local onde haviam enterrado o corpo do “Imperador” e Maiakóvski o quis ver pessoalmente. O trenó do comitê executivo os levou pela trilha nevada ao meio da floresta entre os cedros com marcações que indicariam o local exato. No entanto, resta dúvidas se nesse dia realmente encontraram o que procuravam. A Pavel Lavut, seu amigo e secretário, Maiakóvski confessou:
“Claro que ver a sepultura do tsar não tem a mínima importância. E, para falar a verdade, nada há para se ver. É difícil de encontrar, encontram ela por sinais, sendo um segredo conhecido só por certo grupo de pessoas. Mas para mim o que importa é passar a sensação de que, nesse lugar, partiu daqui o último réptil rastejante da última dinastia, que tanto sangue bebeu ao longo dos séculos”. (Lavut, 1963, p. 182)
Depois do preâmbulo, em que recorda um desfile, pela rua Tviérskaia em Moscou, da família Románov antes de sua queda, na seqüência do poema Maiakóvski registra sua visita à sepultura do imperador em Sverdlóvsk. A imagem do “corvo de uma única cabeça”, ironia com o símbolo da águia bicéfala, que estampava os brasões do Império russo, sela a sinistra moral da história (Maiakóvski aqui sutilmente parafraseia um poema de Liérmontov, O navio fantasma, que fala da sepultura de Napoleão na ilha de Santa Helena); no entanto, nas anotações do poeta existe o rascunho de uma versão diferente para o final, que soa muito ao contrário da versão escolhida para a publicação:
Com certeza que levanto as duas mãos
e voto contra.
Ousa as tuas levantar
para pôr fim à vida humana.
Eu não quero errar na curva.
Eles vivos poderiam ser mantidos num zoológico
entre a jaula da hiena e a do lobo.
Se o mínimo sentido não faziam como vivos,
tanto menos eles fazem sendo mortos desse jeito.
O jogo da história nós viramos,
para sempre se despeçam do que é velho:
um comunista, sendo homem,
não terá as suas mãos sujas de sangue.
ИМПЕРАТОР
Помню —
…………..то ли пасха,
то ли —
……. …рождество:
вымыто
…………и насухо
расчищено торжество.
По Тверской
……………….шпалерами
………………………………стоят рядовые,
перед рядовыми —
………………………..пристава.
Приставов
…………….глазами
……………………….едят городовые:
— Вае благородие,
……………………….арестовать? —
Крутит
………..полицмейстер
…………………………….за уши ус.
Пристав козыряет:
……………………….— Слушаюсь! —
И вижу —
……………катится ландо,
и в этой вот ланде
сидит
………военный молодой
в холеной бороде.
Перед ним,
………………как чурки,
четыре дочурки.
И на спинах булыжных,
……………………………..как на наших горбах,
свита
…….. за ним
………………в орлах и в гербах.
И раззвонившие колокола
расплылись
………………в дамском писке:
Уррра!
………..царь-государь Николай,
император
…………….и самодержец всероссийский!
Снег заносит
………………..косые кровельки,
серебрит
…………..телеграфную сеть,
он схватился
………………..за холод проволоки
и остался
……………на ней
…………………….висеть.
На вбирь,
…………..на весь Урал
метельная мура.
За Исетью,
…………….где шахты и кручи,
за Исетью,
…………….где ветер свистел,
приумолк
……………исполкомовский кучер
и встал
…………на девятой версте.
Вселенную
……………..снегом заволокло.
Ни зги не видать —
………………………..как на зло.
И только
………….следы
…………………от брюха волков
по следу
…………..диких козлов.
Шесть пудов
…………………(для веса ровного!),
будто правит
…………………кедров полком он,
снег хрустит
.. … …………..под Парамоновым,
председателем
………………….исполкома.
Распахнулся весь,
роют
……..снег
…………..пимы.
— Будто было здесь?!
Нет, не здесь.
…………………Мимо! —
Здесь кедр
……………..топором перетроган,
зарубки
………….под корень коры,
у корня,
………….под кедром,
………………………….дорога,
а в ней —
…….. …..император зарыт.
Лишь тучи
…………….флагами плавают,
да в тучах
……………птичье вранье,
крикливое и одноглавое,
ругается воронье.
Прельщают
……………..многих
……………………….короны лучи.
Пожалте,
… ……….дворяне и шляхта,
корону
………..можно
…………………у нас получить,
но только
……………вместе с шахтой.
Свердловск, 1928
[O rascunho não publicado da última estrofe]:
Я вскину две моих пятерни
Я сразу вскину две пятерни
Что я голосую против
Я голосую против
Спросите руку твою протяни
казнить или нет человечьи дни
не встать мне на повороте
Живые так можно в зверинец их
Промежду гиеной и волком
И как не крошечен толк от живых
от мертвого меньше толку
Мы повернули истории бег
Старье навсегда провожайте
Коммунист и человек
Не может быть кровожаден
segunda-feira, 3 de julho de 2023
A destruição de um grande império
Por MICHAEL HUDSON*
As tentativas dos EUA em prender o mundo em um sistema imperial antitético, faz com eles enfrentem seu acerto de contas
Heródoto (História, Livro 1.53) conta a história de Creso, rei da Lídia (c. 585-546 a. C.), Estado antigo situado no que é hoje a parte mais ocidental da Turquia, na costa do Mar Egeu. Creso conquistou Éfeso, Mileto e os reinos vizinhos de língua grega, obtendo botins e tributos que o tornaram um dos governantes mais ricos de seu tempo. Mas essas vitórias e riqueza o conduziram à arrogância e à desmesura. Creso voltou então seus olhos para o leste, com a ambição de conquistar a Pérsia, governada por Ciro, o Grande.
Tendo dotado o cosmopolita templo grego de Delfos com substancial quantidade de ouro e prata, Creso resolveu consultar seu oráculo quanto a se ele teria sucesso na conquista que planejava. A sacerdotisa Pítia lhe respondeu: “Se você for à guerra contra a Pérsia, destruirá um grande império”.
Assim, Creso partiu para atacar a Pérsia em 547 a. C. Marchando para o leste, atacou a Frígia, estado vassalo da Pérsia. Ciro montou uma operação militar especial para repelir Creso, derrotando o exército de Creso e capturando-o. Aproveitou a oportunidade para apreender o ouro de Lídia e introduzir sua própria cunhagem de moeda de ouro persa. Assim, como previra o oráculo, Creso, de fato, destruiu um grande império: o seu próprio.
Olhando para a campanha atual do governo Joe Biden de avançar o poderio militar norte-americano contra a Rússia e, depois dela, a China, parece que esse presidente também pediu conselhos aos seus análogos contemporâneos do oráculo de Delfos: a CIA e os think tanks da sua órbita. Mas ao invés de alertar contra a arrogância, eles encorajaram o sonho neoconservador de atacar a Rússia e a China, na esperança desmesurada de consolidar de uma vez por todas o controle norte-americano da economia mundial e alcançar o “Fim da história”.
Tendo organizado um golpe de estado na Ucrânia em 2014, os Estados Unidos enviaram seu exército de procuração da OTAN para o leste, dando armas à Ucrânia para travar uma guerra étnica contra sua população de língua russa, na esperança também de transformar a base naval russa da Crimeia em uma fortaleza da OTAN. Na mesma perspectiva de Creso, essa ambição visava atrair a Rússia para o combate e esgotar sua capacidade de se defender, destruindo sua economia nesse caminho e, de quebra, sua capacidade de fornecer apoio militar à China e a outros países visados pelos Estados Unidos por buscar a autossustentação como alternativa à hegemonia norte-americana.
Depois de oito anos de provocações, um novo ataque militar contra os ucranianos russo-falantes foi preparado de forma muito evidente, para ser lançado em direção às fronteiras russas em fevereiro de 2022. A Rússia protegeu seus compatriotas russos étnicos de mais violência, montando sua própria Operação Militar Especial. Os Estados Unidos e seus aliados da OTAN imediatamente apreenderam as reservas cambiais da Rússia mantidas na Europa e na América do Norte, e exigiram que todos os países impusessem sanções contra a importação de energia e grãos russos, esperando que isso derrubasse a taxa de câmbio do rublo.
O também délfico Departamento de Estado esperava que isso causasse a revolta dos consumidores russos e derrubasse o governo de Vladimir Putin, abrindo caminho para as manobras norte-americanas de instalar uma oligarquia clientelar, como a que havia sustentado na década de 1990, sob a presidência de Boris Yeltsin.
Um dos subprodutos desse confronto com a Rússia seria o de garantir o controle dos Estados Unidos sobre seus satélites da Europa Ocidental. O objetivo dessa manobra intra-OTAN era impedir o sonho da Europa de lucrar com relações comerciais e de investimento mais estreitas com a Rússia, trocando suas manufaturas industriais por matérias-primas russas. Os Estados Unidos descarrilaram tal expectativa, ao explodir os gasodutos Nord Stream, impedindo o acesso da Alemanha e de outros países ao gás russo de baixo preço. Isso deixou a principal economia da Europa dependente do gás natural liquefeito (GNL) norte-americano, de custo mais alto.
Além de ter que subsidiar o gás doméstico europeu para evitar a insolvência generalizada, uma grande proporção de tanques Leopard alemães, mísseis Patriot dos Estados Unidos e outras “armas milagrosas” da OTAN estão sendo destruídas em combate contra o exército russo. Tornou-se claro que a estratégia norte-americana não é apenas “lutar até o último ucraniano”, mas lutar até o último tanque, míssil ou outras armas que estiverem disponíveis nos estoques da OTAN.
Esperava-se que esse esgotamento das armas da OTAN criasse um vasto mercado de reposição, para enriquecer o complexo militar-industrial norte-americano. Os clientes na OTAN estão sendo instruídos a aumentar seus gastos militares para 3 ou até 4% do PIB. Mas o fraco desempenho das armas americanas e alemãs no campo de batalha ucraniano pode ter destruído esse sonho, enquanto as economias da Europa mergulham na depressão. E com a economia industrial da Alemanha perturbada pelo corte de seu comércio com a Rússia, o ministro das Finanças alemão, Christian Lindner, disse ao jornal Die Welt em 16 de junho de 2023 que seu país não pode empenhar mais recursos no orçamento da União Europeia, para o qual, há muito tempo, vinha sendo o maior contribuinte.
Sem as exportações alemãs para apoiar a taxa de câmbio do euro, a moeda ficará sob pressão frente ao dólar à medida em que a Europa comprar GNL e a OTAN reabastecer seus estoques esgotados de armas com a compra de novo armamento norte-americano. Uma taxa de câmbio mais baixa reduzirá o poder de compra da mão-de-obra europeia, enquanto a redução dos gastos sociais para pagar o rearmamento e fornecer subsídios ao gás já está afundando o continente em uma depressão.
Uma reação nacionalista contra o domínio norte-americano está crescendo em toda a política europeia e, em vez de os Estados Unidos manterem seu controle sobre a política europeia, podem acabar perdendo-o –e não apenas na Europa, mas em especial em todo o Sul Global. Em vez de transformar o “rublo em escombros”, como prometeu o presidente Joe Biden, a balança comercial da Rússia disparou e seu suprimento de ouro aumentou. O mesmo aconteceu com as reservas de ouro de outros países cujos governos agora pretendem desdolarizar suas economias.
É a diplomacia norte-americana que está lançando a Eurásia e o Sul Global para fora da órbita dos Estados Unidos. O impulso arrogante do país para dominar um mundo unipolar só poderia ter sido desmantelado tão rapidamente por dentro. A administração Biden-Blinken-Nuland fez o que nem Vladimir Putin nem o presidente chinês Xi Jinping poderiam esperar alcançar em um período tão curto. Nenhum dos dois estava preparado para lançar o desafio e criar uma alternativa à ordem mundial centrada nos Estados Unidos. Mas as sanções norte-americanas contra a Rússia, Irã, Venezuela e China tiveram o efeito de barreiras tarifárias protetoras para forçar a autossuficiência, naquele espaço que o diplomata da União Europeia, Josep Borrell, chamou de “selva” mundial, fora do “jardim” dos Estados Unidos/OTAN.
Ainda que o Sul Global e outros países se queixem do domínio norte-americano desde a Conferência de Nações Não-Alinhadas de Bandung, em 1955, eles careciam de massa crítica para criar uma alternativa viável. No entanto, sua atenção se concentrou agora no confisco americano das reservas oficiais em dólares da Rússia nos países da OTAN. Isso dissipou qualquer imagem do dólar como recurso seguro para manter uma poupança internacional. A apreensão anterior, pelo Banco da Inglaterra, das reservas de ouro da Venezuela mantidas em Londres – prometendo doá-las a quaisquer oponentes não eleitos (ao seu regime socialista) que os diplomatas americanos designassem – mostra como a libra esterlina e o euro, assim como o dólar, foram transformados em armas. A propósito, o que aconteceu com as reservas de ouro da Líbia?
Os diplomatas americanos evitam pensar nesse cenário. Eles confiam na única vantagem que os Estados Unidos ainda têm a oferecer: abster-se de bombardear suas vítimas, de encenar revoluções coloridas para “pinochetá-los” pelo National Endowment for Democracy, ou instalar novos “Yeltsins” que entreguem as economias locais a oligarquias clientelares. E tal abstenção é tudo o que os Estados Unidos podem oferecer. Eles desindustrializaram sua própria economia, e sua ideia de investimento estrangeiro não é mais que criar oportunidades monopolistas de rendimento, concentrando monopólios tecnológicos e o controle do comércio de petróleo e grãos em mãos norte-americanas, como se isso fosse eficiência econômica, e não mera predação de riqueza.
O que aconteceu, então, foi uma mudança na consciência. Estamos assistindo à maioria global buscar a criação de uma opção independente e pacificamente negociada a propósito de que tipo de ordem internacional ela quer. Seu objetivo não é apenas criar alternativas ao uso do dólar, mas todo um novo conjunto de alternativas institucionais ao FMI e ao Banco Mundial, ao sistema de compensação bancária SWIFT, ao Tribunal Penal Internacional e a toda a gama de instituições que os diplomatas americanos sequestraram das Nações Unidas.
O resultado será civilizacional em escopo. Não estamos vendo o “Fim da história”, mas uma nova alternativa ao capitalismo financeiro neoliberal centrado nos Estados Unidos e à sua economia ruinosa de privatização e de guerra de classes contra o trabalho. A ideia de que o dinheiro e o crédito devem ser privatizados nas mãos de uma estreita classe financeira, em vez de ser uma utilidade pública para financiar as necessidades econômicas e aumentar os padrões de vida, está finalmente enfrentando seu acerto de contas.
A ironia é que o papel histórico dos Estados Unidos tem sido o de que, ainda que eles mesmos não tenham sido capazes de liderar o mundo nesse sentido, suas tentativas de prender o mundo em um sistema imperial antitético, pretendendo bater a Rússia nas planícies da Ucrânia e isolar a tecnologia chinesa (em seu esforço de quebrar o monopólio norte-americano de TI), foram os grandes catalisadores que acabaram afastando a maioria global dos Estados Unidos.
*Michael Hudson é professor na Universidade de Missouri, Kansas City. Autor, entre outros livros de Super Imperialism: the economic strategy of american empire (Islet).
Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.
Publicado originalmente no site do autor.
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