quinta-feira, 20 de agosto de 2026

hip-hop e música eletrónica

 FUMAÇA

Podcast  de jornalismo de investigação

O fiasco que moldou o hip-hop

Texto
  1. Bernardo Afonso

Quando Ikutaro Kakehashi saiu à rua, não sabia ainda que a história daquela noite seria maior do que a história daquela noite. Na verdade, não tin… Desculpem, este início já foi usado. Meses a editar uma série tem destas coisas. Vejo inícios como o de Fronteira do Medo em todo o lado. Histórias de noites maiores do que histórias dessas noites.

Mas a história da noite de Ikutaro Kakehashi seria, de facto, muito maior do que aquilo que uma breve descrição poderia fazer parecer. Estamos em 1969 e este inventor japonês visita a NAMM, uma das mais importantes feiras de material de som. Na banca da Hammond, o teclista e engenheiro eletrotécnico Don Lewis faz uma demonstração de órgãos. E está acompanhado por uma pequena caixa de ritmos pensada para músicos em sessões descontraídas em casa. Ikutaro Kakehashi conhece bem este equipamento. É uma Ace Tone, da empresa que criara em 1960 para distribuir as suas invenções. Mas este exemplar não soa como de costume. Tem características radicalmente diferentes. Don Lewis tinha aberto a máquina e modificado-a extensivamente. “Como é que fizeste isso?”, pergunta Ikutaro. Três anos depois, os dois criaram a Roland.

Em 1980, lançaram um grande projeto direcionado a profissionais: a Roland TR-808 (eight-oh-eight), uma inovadora máquina de ritmos. Era o tipo de equipamento que ganhava popularidade por estes dias, mas a um preço exorbitante. Como a Linn LM-1, usada por Michael Jackson, Prince, Peter Gabriel, Stevie Wonder: ajustado à inflação (como todos os preços neste texto), custava qualquer coisa como 15 mil euros. A Roland TR-808 apresentava-se como uma alternativa de “poupança”, a quatro mil euros. E ainda introduzia uma abordagem radicalmente diferente a estas máquinas: em vez de utilizar sons reais para simular uma bateria, criava sons sintetizados, manipuláveis, e com configurações quase infinitas. Era composta por transístores propositadamente avariados para que tivessem um som característico e disruptivo. Tinha possibilidades aparentemente inúteis, como um botão de decay no canal de kick. Parece um pormenor incompreensível para a maioria dos leitores, mas prometo que já ouviste o resultado deste efeito e que não acabas este texto sem perceber que, argumentavelmente, o acrescento deste botão gerou a maior revolução na produção musical das últimas cinco décadas.

Mas o lançamento foi um fiasco. Os críticos consideraram-na um brinquedo inutilizável. Por esta altura, a música electrónica não tinha ainda furado o mainstream e a maioria dos músicos via as máquinas de ritmos apenas como um substituto de baterias reais. Veja-se o caso de Sexual Healing, canção lançada por Marvin Gaye em 1982, que utilizou uma TR-808 pela conveniência de produção. O músico vivia sozinho na Bélgica e o equipamento permitia-lhe compôr e gravar em isolamento. Mas a TR-808 não tinha nenhuma parecença ao som de uma percurssão acústica. Não conseguiu destronar a rival Linn LM-1. Poucos perceberam as suas potencialidades, como osYellow Magic Orchestra, banda pioneira da electrónica, com Ryuichi Sakamoto nos teclados e vozes. Em 1983, 12 mil unidades depois, a Roland descontinuava a sua produção, depois de uma ruptura no fabrico de um tipo de semicondutores.

É aqui que se dá um volte-face difícil de prever. Com o fracasso comercial, lojas de penhores e de artigos em segunda mão encheram-se de exemplares. O preço caiu drasticamente. Era agora possível comprar uma unidade deste equipamento disruptivo e inovador por cerca de 300 euros, já dentro do poder de compra de músicos alternativos, iniciantes, suburbanos, não comerciais.

Começou a desenvolver-se um som underground que apaixonou o produtor Arthur Baker. Quando planeava a produção de uma música com Afrika Bambaataa e Soul Sonic Force em homenagem aos Kraftwerk, leu um anúncio no jornal: “Homem com máquina de ritmos, 20 dólares a sessão”. Pediu ajuda ao dono para programar os ritmos na TR-808 e gravou uma das mais influentes canções da história da música. Planet Rock, uma faixa que reimaginou o que uma máquina de ritmos podia fazer, é considerada a canção criadora da electrónica contemporânea e uma das canções que mais marcou a estética do hip-hop que se desenvolveria nos anos seguintes.

Rick Rubin, talvez o mais mediático produtor de música e autor de livros pseudo-motivacionais para criadores, cedo adoptou a TR-808 nas produções de Beastie Boys, Run DMC e LL Cool J. Foi ele que popularizou um novo som dentro deste universo de sons. Lembras-te do botão de decay no canal de kick de que te falei? Ao rodar este botão, o som de um bombo fica com mais presença e corpo, deixa de ser apenas um “click”. Ao exagerar o efeito, torna-se em algo entre um bombo e um baixo. E se se fizer uso de outro botão logo acima, o de afinação, consegue-se variar a nota desse bombo/baixo, criando um poderoso som melódico grave. Sente-se como um baque no peito – a que chamamos, à falta de melhor expressãotécnica, oomph – e que estimulou um desejo colectivo por frequências graves cada vez mais presentes e definidas. Na gíria, a este novo som, chamou-se 808, o mesmo do modelo da máquina de ritmos. E um 808 sozinho tem tanta importância na cultura musical dos últimos anos como a caixa de ritmos de onde veio.

Depois de um falhanço inicial, a Roland TR-808 tornou-se na máquina de ritmos mais utilizada na história da música gravada. Virtualmente presente em tudo o que é hip-hop e electro, é impossível ouvir os últimos 30 anos de produções de qualquer género musical e não a ouvir recorrentemente(ou os clones que dela se fizeram). Só de artistas comercialmente grandes, a lista de nomes é infindável: dos Talking Heads a Phil Collins, de Whitney Houston a Madonna, de Beck a Damon Albarn, de Outkast a Kendrick Lamar, de Britney Spears a Beyoncé. Mas foi no hip-hop que esta máquina de ritmos encontrou um lugar mais permanente e relevante, onde moldou intrinsecamente a maneira como se faz e ouve este género, criando um movimento cultural tão relevante como a invenção da guitarra eléctrica na música rock. A New Yorker chama-lhe “parte do ADN cultural da América”. O produtor Hank Shocklee, dos Public Enemy, diz que “não é hip-hop se não tiver esse som”. Kanye West dedica-lhe uma carta de amor em forma de álbum, em 808s & Heartbreak, onde usa o equipamento em todas as músicas. Produtores e músicos celebram anualmente o dia do 808, a 8 de agosto (naturalmente). Aos meus ouvidos, é a marca sonora decisiva da canção de intervenção moderna.

Na noite sobre a qual nos debruçamos em Fronteira do Medo, ouvia-se na praça Dr. Fernando Amado African Woman, de DJ Shimza e Mishka, música que começa com um loop de sons da TR-808 que se extende pela canção. Sam the Kid, um dos entrevistados, natural do bairro de Chelas, faz uso de 808 em várias das suas músicas (bem como do Akai MPC, que completa o par de equipamentos essenciais para o hip-hop). A longa lista de rappers que vais ouvir durante esta série, vindos de bairros guetizados, incorpora de alguma forma esta estética no seu som: Allen Halloween, Vado Más Ki Ás, Plutónio, Dealema, Chullage. A banda sonora original que acompanha as narrativas de Pedro Lopes, da sua família e de pessoas de bairros guetizados foi construída à volta dos sons desta caixa de ritmos. Já quando ouves o agente Paulo Gonçalves, os seus colegas da PSP e as perspectivas de outros polícias há um outro género: o rock. A segunda metade desta banda sonora dupla, em espelho – composta com outras máquinas, factos e contextos. Tema para uma outra newsletter.

Este texto não é sobre máquinas de ritmos. É sobre como tudo é político, mesmo que não o saibamos. Sobre como se criam novos jogos escolhendo inverter as regas de um jogo. Sobre como se pode imaginar novos mundos com aquilo que temos à mão. É através deste equipamento falhado comercialmente, usado por quem à partida não teria acesso a ele, abusado para lá das suas limitações, reimaginado por um movimento cultural global vindo dos subúrbios oprimidos estadunidenses, que bairros guetizados se expressam a sua identidade, tornando em norma o que foi um dia tido como marginal. Este texto é sobre como histórias de noites são sempre maiores do que histórias dessas noites.

Fotografia: Steve Harvey/Unsplash

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