sábado, 14 de maio de 2011

EUGÉNIO DE ANDRADE

As palavras





São como um cristal,


as palavras.


Algumas, um punhal,


um incêndio.


Outras,


orvalho apenas.






Secretas vêm, cheias de memória.


Inseguras navegam:


barcos ou beijos,


as águas estremecem.






Desamparadas, inocentes,


leves.


Tecidas são de luz


e são a noite.


E mesmo pálidas


verdes paraísos lembram ainda.






Quem as escuta? Quem


as recolhe, assim,


cruéis, desfeitas,


nas suas conchas puras?



Eugénio de Andrade

quinta-feira, 5 de maio de 2011

FRANCISCO TROPA (n.1968), representará Portugal na 54ª Bienal de Veneza, 4 de Junho a 27 de novembro.

CARLOS DE OLIVEIRA (1921-1981)

Carlos de Oliveira, in 'Mãe Pobre'  

Cantiga do Ódio







O amor de guardar ódios


agrada ao meu coração,


se o ódio guardar o amor


de servir a servidão.


Há-de sentir o meu ódio


quem o meu ódio mereça:


ó vida, cega-me os olhos


se não cumprir a promessa.


E venha a morte depois


fria como a luz dos astros:


que nos importa morrer


se não morrermos de rastros?





terça-feira, 3 de maio de 2011

João Cabral de Melo neto

Morte e vida severina


(Auto de Natal Pernambucano)



João Cabral de Melo Neto






O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI



— O meu nome é Severino,

como não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem fala

ora a Vossas Senhorias?

Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,

limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:

se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino

filhos de tantas Marias

mulheres de outros tantos,

já finados, Zacarias,

vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande

que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas,

e iguais também porque o sangue

que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos

iguais em tudo e na sina:

a de abrandar estas pedras

suando-se muito em cima,

a de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

algum roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias

e melhor possam seguir

a história de minha vida,

passo a ser o Severino

que em vossa presença emigra.