quinta-feira, 19 de maio de 2011

GUIMARÃES ROSA

"Há uma hora certa, no meio da noite, uma hora morta, em que a água dorme. Todas as águas dormem: no rio, na lagoa, no açude, no brejão, nos olhos d'água, nos grotões fundos. E quem ficar acordado, na barranca, a noite inteira, há de ouvir a cachoeira parar a queda e o choro, que a água foi dormir... Águas claras, barrentas, sonolentas, todas vão cochilar. Dormem gotas, caudais, seivas das plantas, fios brancos, torrentes. O orvalho sonha nas placas da folhagem e adormece. Até a água fervida, nos copos de cabeceira dos agonizantes... Mas nem todas dormem, nessa hora de torpor líquido e inocente. Muitos hão de estar vigiando, e chorando, a noite toda, porque a água dos olhos nunca tem sono..."




( Sono das Águas - Guimarães Rosa)

ARTUR BARRÍO - Prémio Velásquez de Artes Plásticas

sábado, 14 de maio de 2011

EUGÉNIO DE ANDRADE

As palavras





São como um cristal,


as palavras.


Algumas, um punhal,


um incêndio.


Outras,


orvalho apenas.






Secretas vêm, cheias de memória.


Inseguras navegam:


barcos ou beijos,


as águas estremecem.






Desamparadas, inocentes,


leves.


Tecidas são de luz


e são a noite.


E mesmo pálidas


verdes paraísos lembram ainda.






Quem as escuta? Quem


as recolhe, assim,


cruéis, desfeitas,


nas suas conchas puras?



Eugénio de Andrade