segunda-feira, 26 de outubro de 2015
sábado, 17 de outubro de 2015
O Medo
A António Cândido
“Porque há para todos nós um problema sério…
Este problema é o do medo.”
António Cândido (“Plataforma de uma geração”).
Na verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
nadamos.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
nadamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
doenças galopantes, fomes.
doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Estou com medo de ti,
meu companheiro moreno.
De nós, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
meu companheiro moreno.
De nós, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo, e calma.
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Disto ninguém fala se fosse futebol
Maria João Pires venceu um dos mais importantes prémios da música clássica. observador.pt
A pianista portuguesa Maria João Pires venceu o reputado prémio Gramophone, na categoria “Concerto”. Os prémios são considerados equivalente aos Óscares dentro da música clássica.
O prémio foi atribuído pela interpretação feita pela pianista dos concertos para piano nº 3 e nº 4 de Beethoven. O trabalho, gravado em parceria com a orquestra sinfónica da Rádio Sueca e com o maestro inglês Daniel Harding, foi editado em disco em 2014.
Os prémios Gramophone têm 12 categorias e existem desde 1977. O ano passado, o vencedor do prémio na categoria “Concerto” foi o pianista francês Jean-Efflam Bavouzet.
A pianista portuguesa está também nomeada para a categoria especial “Gravação do ano”, cujo vencedor será anunciado numa cerimónia marcada para o dia 17 de setembro, que decorrerá em Londres.
O coro da Gulbenkian foi também vencedor de um prémio Gramophone, na categoria Ópera, pela sua participação na ópera “Elektra” de Richard Strauss. Este foi o último espetáculo encenado pelo francês Patrice Chéreau (1966 – 2013) e contou com direção musical de Esa-Pekka Salonen à frente da Orquestra de Paris. Esta ópera também está nomeada para “Gravação do ano”.
sábado, 12 de setembro de 2015
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