domingo, 6 de março de 2016



FÁBULAS – O Senhor COMENDADOR

Naquela manhã levantara-se da cama com a teimosia dos seus oitenta e cinco anos senis. Via bem mas estava absolutamente surdo. A mulher ajudou-o a vestir-se, com o hábito de amor que sobrevivia nas cinzas. Porém, desta vez, naquela manhã, esta vez teimou em ser ele a calçar as botas que conservava como um troféu há vinte anos. Sentiu uma pontada no peito, mas tossiu para disfarçar o susto. Teimou, após o pequeno - almoço frugal, em descer pelo seu próprio pé as escadarias exteriores do sumptuoso solar. Para se banhar com aquela luz límpida que se derramava sobre as túlipas e os gerânios cuidados com desvelo e arte pela sua mulher. O possante plátano tão velho quanto ele parecia agradecer ao céu aquela dádiva matinal. Falhou o último degrau, ergueu o braço direito como se fosse saudar um chefe imaginário e mergulhou no lajedo sem um ai. A mulher, que o vigiava lá do alto, acorreu alvoroçada aos gritos. Soergueu-lhe a cabeça e chamou-o pelo mesmo diminutivo com que o tratara durante cinquenta anos. Viu-lhe nos olhos uma cortina de terror que foi baixando lentamente ao mesmo tempo que ele murmurava estas palavras definitivas: Só tu me conheceste!
O comendador Silvestre Brás da Cunha nascera oitenta e cinco anos antes num povoado remoto encostado à fronteira com a Extremadura espanhola. A família não era pobre, embora rústica. O pai assenhoreara-se com finas manhas e cumplicidades políticas com o regedor de uma vasta porção de baldios, naquele célebre episódio em que o Salazar os expropriara aos povos para cobrir Portugal de eucaliptos; fora contrabandista, denunciara à polícia refugiados da guerra civil, exceto aqueles que lhe untavam as mãos. Silvestre apanhou desde bem cedo o engenho e a arte de seu pai dito “O Cabreiro”. Enviado para o seminário para ser bispo (o pai não o fez por menos) desistiu da carreira quando, certo dia que se passeava na rua principal, viu no jardim de um palacete uma menina a cortar rosas de uma floreira. Ela olhou para ele com uns olhos celestes, sorriu-lhe com uns lábios de romã entreabertos e, logo ali, Silvestre soube que o seu futuro era outro. Esperou por ela quatro infindáveis anos para se desposarem para toda a vida.
O pai morreu pouco depois fulminado por uma pneumonia quando uma tempestade súbita o acossou desprevenido andava ele a reunir no monte umas cabras gordas que não lhe pertenciam. Depressa esqueceu o pai e o povoléu. Dividida a grossa herança ente ele e a mãe, Silvestre pegou na mulher e partiu para Lisboa. Estudou na universidade por correspondência, estoirou na moina as ofertas generosas do sogro rico, empregou-se num escritório de advogados com uma carta de recomendação do regedor que fora íntimo amigo do pai e destacado agente da PIDE. O escritório era, ou foi-se tornando reputadíssimo junto de banqueiros e outros ilustres lisboetas. Silvestre era pau- para -toda -a –obra, dedicado aos chefes, fiel como um cão- rafeiro para os superiores, mastim para os de baixo-. Com a ajuda de um professor do regime tirou o curso de Direito coma nota imerecida porque, na realidade, os livros desagradavam-lhe profundamente. Na moradia que mais tarde adquiriu possuía uma razoável biblioteca, porém os livros comprava-os a mulher e era ela naturalmente que os lia. Nunca ninguém se deu conta da aversão dele pelos livros, nas festas e serões com as elites com que teve que se envolver dezenas de anos, sempre se saía bem citando de cor o que a mulher contava sobre os livros que ela lia. Nunca ninguém se deu conta que não sabia escrever uma carta sem erros da palmatória, porque sempre as ditava às secretárias que discretamente as corrigiam.
Com Marcelo Caetano fez-se marcelista. Com o 25 de Abril fez-se democrata-cristão. Com o governo da AD fez-se social-democrata. Com o andar dos anos, podre de rico e cada vez mais conservador, abandonou o “social” porque já se achava acima da obrigação de pagar impostos. Exclamava com aquela sua voz de barítono: Sou um self-made-man, não tenho agora de sustentar quem não se made a si próprio!”. Este “made” suscitava frequentemente sorrisos de admiração, pela graça fina, pela ironia altiva de aristocrata. Realmente Silvestre Brás da Cunha (o “da” acrescentou-o ele ao apelido) tinha o porte aristocrático de um banqueiro. A esta convicção conciliava ele a sua crença católica sem mácula. De facto, não falhou uma única vez a missa dominical, ajoelhado na primeira fila, comungando sem arrependimento.
Derrotado o abalo revolucionário recuperou as terras, mandou plantar olivais de cultura intensiva, abocanhou a cooperativa agrícola “A Bandeira Vermelha”, lançou-se em Lisboa no casino da Bolsa, comprou cem mil acções no BPN para a seguir as vender pelo dobro do preço, foi nomeado administrador consultivo de um Banco que de português só mantinha o nome, o escritório de advogados que passou a chefiar elaborava pareceres e projectos-de-lei pagos a peso de oiro pelo erário público, rendeu-se às novas tecnologias como accionista de topo, viu no Brasil e em Angola mercados promissores. Rodeara-se de assessores, amestrados bem cedo nos bancos das universidades, que lhe redigiam os pareceres, adivinhavam as “janelas de oportunidades”, “os nichos de negócio”, aparavam-no dos golpes dos concorrentes nas arenas de vampiros; de um deles fez ministro e dele recebeu a respectiva retribuição. O chefe do governo telefonava-lhe a pedir conselhos.
Insigne cidadão ofertava aos pobres nos frequentes peditórios com que o assediavam; obedecendo à mulher, como sempre na vida íntima conjugal, mandou construir às suas custas um pavilhão polidesportivo da colectividade da sua terra natal, onde o homenagearam com uma lápide alusiva com o seu nome escrito a letras doiradas. Fora convidado por sucessivos governos para altos cargos, inclusivamente certa vez para ministro da Justiça, porém sempre recusou. “Não preciso da política, os políticos é que precisam de mim!”, dizia para os seus parceiros mais chegados nos pacatos serões de sueca e brandy. Foi agraciado com a Comenda pelo Presidente da República nos seus oitenta anos de vida impoluta.
Aos oitenta e cinco anos morreu ao fundo da escada, mais habituado a subir do que a descer. “Só tu me conheceste!”. A mulher, contendo-se para não romper num choro de solidão abrupta, um braço a soerguer-lhe a cabeça, sussurrou-lhe ao ouvido morto: Sim, só eu te conheci verdadeiramente!

NOZES PIRES

FÁBULAS



quinta-feira, 4 de Junho de 2009


Chamava-se Rolando, porque o pai acabara de ler La Chanson de Roland, chegara mesmo à página derradeira no instante sublime em que uma cabeça surpreendida assomara do útero ensanguentado da mulher. Contrariou, assim, a vontade desta, que preferia Romão, pois que o vira, entre gemidos e suores, como uma romã rubra a rasgar-lhe as entranhas. E não foi nem a primeira, nem a última vez, que o homem a contrariou.
Rolando fez-se garoto aprendiz de adulto; jogava aos botões e aos berlindes, mas perdia sempre, sem rancores, ora porque se distraía pelo pipilar súbito de um pardal do telhado, ora porque o azul esverdeado de um berlinde evocava, num repente fresco, o marulhar das ondas pelas noites de verão, e o odor imperioso das sereias de algas.
O pai ensinou-o a ler, ainda antes de poder frequentar a escola. Lia para ele romances do Walter Scott e o rebento franzino que o escutava com os olhos muito abertos para dominar o sono não entendia uma palavra mas imaginava as cenas.
Começou a ler de repente, um dia depois do pai morrer. Foi levado para a terra áspera da sepultura da família, numa vila longínqua, nas arribas do monte, entre amendoeiras e olivais ; imobilizara-se-lhe o coração quando dormitava, sobressaltado, morrera literalmente do medo que a mulher lhe morresse primeiro num hospital de Coimbra para onde uma ambulância a levara na tarde desse dia. O pai partiu, a mãe por cá se arrastou algum tempo mais, emudecida e pálida e leve como os lírios que murchavam, eternamente esquecidos, sobre uma mesinha de pau de limoeiro na sala de jantar. Sempre se suspeitara que o seu amor mais substantivo era todo dirigido não para Rolando, mas para o filho mais velho, o primeiro de uma longa série da qual desapareceram dois prematuramente. Rolando pressentira desde sempre essa realidade definitiva e dolorosa, como uma agulha que dentro dele houvesse sido abandonada no instante em que nasceu.
Assim cresceu. Sempre encostado às palavras, como se estas viessem suprir a ausência do abraço oportuno que lhe faltou quando dava os primeiros passos, quando, em seguida, aprendeu a correr sem se estatelar no chão bravio da horta, na areia miúda e cortante como vidro do caminho tosco que unia a casa rústica ao largo adro da igrejinha do lugar. Apaixonou-se pelas palavras no mesmo dia em que proferiu as primeiras. Prestava absorta atenção infantil ao linguajar dos vizinhos, arrebitava a orelha aos impropérios do pastor que atravessava todas as tardes com o rebanho a rua principal, repetia baixinho os vocábulos desconhecidos que o pai escolhia a propósito quando o médico da vila que também era o boticário era convidado para jantar. O pai nunca falava do pároco, na presença dos filhos, nem o cumprimentava quando com este se cruzava, por razões ocultas de quezílias antigas, ou simplesmente para demonstrar o seu ponto de vista inabalável de que os padres são parasitas e a religião era coisa perfeitamente dispensável. Apesar disso, o padre, velho e avermelhado pela pinga, quando via o rapazito, chamava-o com voz avinagrada e fazia-lhe festas na cabeça. Oficiou gratuitamente uma missa em memória do mestre-escola que o desprezara toda a vida.
Rolando foi subindo em altura, surripiando metáforas dos curtos discursos de um pai cada vez mais ausente, caçando no ar fumarento da cozinha de granito qualquer metonímia que esvoaçasse entre o estalejar do braseiro e o perfume das giestas, á hora de escutar a rádio.
À pancadaria que distraía os fedelhos que, entrementes, se tornaram rapagões de pêlo hirsuto, preferia uma linguagem limpa e clara, oferecida como uma donzela impoluta de brancas carnagens, com que sonhava com os olhos postos na vidraça fosca da janela do quarto onde dormiam três irmãos, uma donzela de olhos tão escuros e profundos como as noites solitárias que ele temia e desejava, febril, cobrindo a cabeça com o lençol de linho, escutando o tape-tape das grandes ratazanas no velho sótão, o alvoroço das galinhas despertadas do sono pelos gatos matreiros, o latejar do universo inteiro, silencioso como um morto-vivo, que o espiava sob a cama de ferro, ou dentro do armário.
Logo que o pai foi a enterrar, fez-se homem e era ainda uma criança. A mãe, auxiliada por um irmão que há muito se instalara em África, pegou nos filhos e para lá partiu, antes que as dívidas lhe levassem a casa. Nesta ficaram os livros, aqueles mundos, ora bravios, ora ternos, mas sempre genuínos, que fizeram o mundo de Rolando.
A prolongada viagem, em um dos paquetes que outrora faziam regularmente carreira entre a metrópole e o ultramar, carregados de colonos campónios e trouxas modestas, foi, para o pequeno Rolando, uma iluminação: a grandiosidade do oceano que lhe permitiu compreender precocemente a relatividade de todas as coisas, a formidável esperança, embora ingénua, daquelas gentes empurradas pela miséria para a terra prometida, o choque agradável com as novas cores e as sonoridades estranhas do novo mundo em que desembarcaram. A felicidade seria completa, não fosse o silêncio austero e sombrio da mãe.
No liceu, quando a professora ensinava os binómios, apurava ele o ouvido para o rumorejar das acácias em flor, o resfolegar dos búfalos esmagando parasitas na casca dos embondeiros; com as equações de 2º grau, deixava-se levitar sobre a asa finíssima de uma nuvem que passava, viajando em oitenta horas sobre o estuário do Rio Amarelo, empoleirado no mastro de um junco de piratas. Com a batalha de Ourique, dava rédea solta ao alazão branco, rompendo a muralha de armaduras e músculos de moiros tisnados e esbeltos, com alaúdes a tiracolo.
Às coisas preferia os nomes. Por essa razão mudou o nome à sua amada : chamou-lhe Jasmina. A seguir aos amores instantâneos de uma adolescência breve, conhecera-a em uma comunidade tresloucada e libérrima de hippies, de saias compridas com as cores de todos os frutos do mundo, grinaldas de flores nos cabelos e adornos de vidro balouçando sobre os peitos levantados. Olhou-a nos olhos disfarçados de outono e apaixonou-se imediatamente, como se um tremor de terra engolisse para sempre os amores passadiços.
Em todas as suas vidas comuns, tão unidas que fizeram uma única, nunca lhe prometeu carros e jóias, em momento algum; sempre metáforas de jade e marfim, pedaços da sala de audiências do imperador Kublai-Khan, aliterações como a prece de um abraço que apetece, anáforas sobre o “Marco que conhece a tua casa, mas a minha não”; anagramas misteriosos que Jasmina decifrava vagarosamente, sentada nos joelhos trémulos de Rolando, com uma cândida inocência que somente o suave ondear das ancas desmentia.
Jasmina acompanhou-o por todo o lado, dissimulando muito bem o facto de que eram ambos que se acompanhavam. Abandonaram o oriente africano e partiram para outros azimutes. Transportavam sempre quase nada, excepto afectos e palavras. Quando os seus olhos nocturnos exigiam que os corpos repousassem, no delta do Nilo, nas dunas de um deserto, nas margens lodosas do Amazonas, Rolando aterrissava obedientemente, recolhendo as asas de púrpura, macias como sumaúma, para que Jasmina adormecesse sem susto.
Com uma palavra armou um laço e surpreendeu uma corça azul. Jasmina achou muita graça. Com outra, teceu uma teia, e enrodilhou o tempo num casulo de seda. Com mais outra, fabricou uma piroga, e desceram abraçados um aluvião de lágrimas. Córregos, arroios, levadas, rios e marés-cheias faziam deles intrépidos marinheiros, Jasmina com um lenço vermelho à volta do pescoço, Rolando com boina preta e estrela e fuzil de comandante.
Nunca Rolando atirou à cara de Jasmina uma simples hipérbole. Jamais o corpo adjectivado de Jasmina fora albergue de outros substantivos sem que fossem submetidos ao teste da experiência. Ainda que ele e ela fossem dois, jamais se permitiram que os contrários cavassem a contradição.
Entretanto, o Tempo implacável foi girando a roda da vida. Aos cabelos negros sucederam-se os cabelos argênteos, às rimas de grafite seguiram-se os sonetos talhados em platina, das possibilidades da existência decorreram escolhas, certezas firmes ancoradas nos actos, mais do que em retóricas. Para Rolando a palavra não perdeu o seu fulgor de archote que incendeia a noite mais escura, mas aprendeu a esgrimi-la com golpes certeiros contra a palavra da mentira, ganhando em tolerância com as ilusões que as palavras semeiam na imaginação dos mais crédulos.
Em vez dos filhos vieram rumos e remos. As ilusões foram caindo da árvore da imaginação, como tombam as folhas das cerejeiras que ele tanto adorava, a primeira que cai assinala o princípio do fim, emite a ordem, o chamamento, numa pronúncia e numa sonoridade que somente elas entendem, vão-se desprendendo uma a uma, por uma certa ordem desconhecida, mas infalível, fatal, irremediável. Assim tombam, uma a uma, todas as crenças que viram a prática inutilizar-lhes o sentido.
Corriam rumores de que ambos haviam desaparecido nas selvas de Sião, alheados do mundo sobre as coxas possantes de um Buda sorridente, ou, dizia-se, andavam lançando pedras às fauces blindadas dos tanques de Israel. Talvez na Colômbia, sob o comando de um médico asmático cujo cadáver havia de ser exibido aureolado de pequeninos cubos de gelo, como se ali fosse servido, em bandeja amortalhada de moscas, um segundo Cristo para a eternidade.
Nunca ninguém soube. Algures, que um dia aturadas pesquisas hão-de descortinar, um lugar sem lugar na geografia dos factos, numa ilha cercada de sonhos e quimeras, onde naufragam todos os idealistas sem remédio, Rolando vergou-se devagarinho, sem temor, sob a espessura de um infinito cansaço. Pressentindo que chegado era o dia, deitou-se sobre um lençol de papoilas, que ardiam como lamparinas num velório, e abandonou-se à brisa de um mar absorto do sul, tentando fixar para sempre, numa simples proposição, a paródia da vida.
Jasmina entendeu perfeitamente que o diálogo que fora a sua vida, terminara naquele preciso instante. Ajoelhou-se, colocou a cabeça de Rolando sobre o seu colo, cerrou-lhe aquele olhar vazio de alegorias e de paradoxos, recolheu com a mão direita um punhado de pétalas delicadíssimas de bem-me-queres, e depositou-lhe uma paráfrase no peito, no lugar do coração.
O céu abriu-se num caudal de água, e o verão terminou ali.

FÁBULAS



FÁBULAS – SARA
Vasco de Espinosa fora meu condiscípulo no Liceu de António Enes, na então Lourenço Marques. Adolescente, embora, era já alto, quase gordo (este “quase” perdê-lo-ia com a idade), eu mal lhe dava pelos ombros. Vasco tinha uns olhos escuros e mansos, inteligentes e constantemente observadores. Nada neles havia de astúcia ou “esperteza”. Leal na amizade mas teimoso como uma mula. Verbo fácil mas seco, frases enxutas até ao osso, de sintaxe perfeita. Encarava-me fixamente quando falava, enquanto eu, ao invés, fixava um ponto inalcançável no horizonte e ali me quedava. Enquanto eu jogava o jogo das metáforas e metonímias, ele encadeava os raciocínios à maneira dos geómetras. Dizia que o método dos geómetras era o único que permitia escapar aos preconceitos: “ E só esta razão teria por certo bastado para que a verdade permanecesse para sempre oculta para o género humano, se a matemática, que se ocupa não dos fins, mas das essências e das propriedades das figuras, não tivesse mostrado aos homens uma outra verdade.”
Quando pelo meu emérito professor de filosofia, de nome Cansado Gonçalves, banido para a colónia pelo Salazar, ouvi falar de Baruch Espinosa, o filósofo judeu holandês filho de portugueses, questionei o Vasco sobre as suas origens. Que sim, muito provavelmente descendia de um primo de Baruch, marrano que se instalara cautelosamente no Alto Douro, conforme seu pai investigara em arquivos. Havia até em casa uma reprodução emoldurada de um célebre retrato do “Príncipe dos filósofos”. Percebi então que ele citava de memória trechos das obras do judeu “embriagado de Deus” como alguém o descreveu. E que os seus olhos evocavam os grandes olhos de Baruch, no retrato, o prenúncio de um sorriso indecifrável.
Adolescentes, namorámos à vez a mesma moça. Primeiramente eu, depois ele. Sara era uma morenita de belíssimos olhos verdes (por causa deles chamavam-lhe no Liceu a “Soraya”, fulgurante esposa do Xá da Pérsia), uma doçura em pessoa, que os pais, de origem modesta, vigiavam à maneira antiga sem motivo algum que não fosse a inferioridade protegida das mulheres. Troquei-a (terrível expressão!) sem apelo e muito agravo por um mocetona de olhos celestes e cabelos de trigo maduro, nem mais inteligente, nem melhor pessoa, apenas atrevida e irremediavelmente sedutora. Mergulhei uns parcos meses nas ondas oceânicas da perdição. Largou-me com a indiferença esfíngica de Afrodite e passou-se com armas e bagagens para os braços atléticos de um campeão de basquetebol. Quando quis regressar à espuma de açúcar da Sara, com a corda ao pescoço como o Egas Moniz, fez-se tarde: já o Vasco se enamorara dela (suspeitei que sempre estivera enamorado) e reciprocamente julgo eu.
Até ao termo dos estudos liceais convivemos pouco, talvez por essa razão. Via-os sempre juntos e isso não me dava jeito nenhum. Contudo, conversávamos durante e após algumas palestras a que assistíamos sobre cinema ou teatro (artes muito frequentadas na cidade, ao tempo do crítico Eugénio Lisboa e do saudoso Mário Barradas). A propósito de assuntos que viramos tratados em filmes ou livros, lembro-me de alguns ditos dele: “Todos os preconceitos (…) dependem de um só, os homens supõem comummente que todas as coisas naturais agem como eles próprios, tendo em vista um fim e, mais ainda, consideram coisa certa que o próprio Deus tudo dispõe em vista de um determinado fim, pois dizem que Deus fez todas as coisas para o homem (…) todos os homens nascem ignorantes das causas das coisas e todos têm vontade de buscar o que lhes é útil, disso tendo consciência. Daqui decorre, em primeiro lugar, que os homens se julgam livres, porque têm consciência da sua volição e do seu apetite, e que não cuidam, nem mesmo em sonhos, das causas que os predispõem a desejar e a querer, posto que as ignoram. Decorre, em segundo lugar, que os homens agem tendo em vista um fim, ou seja, tendo em vista o que de útil desejam (…) Além disso, encontram em si próprios e fora de si próprios um grande número de meios que lhes servem excelentemente para obter o que lhes é útil (…) Acabam assim por considerar todas as coisas naturais como meios ao serviço da sua própria utilização.” Crêem-se meios para Deus e tomam Este como um meio.
O tempo passou. Vim estudar Letras para a Metrópole, o Vasco ingressou em Engenharia, aluno que fora excepcional nas matemáticas. Envolvi-me na urgência de um combate contra a ditadura, combate que se afigurava mais legítimo que o imperativo categórico de Kant. Renunciei a prazeres da juventude para não perder tempo nem vacilar, esticando a corda da “ potência de ação” até ao limite da minha natureza, diria Espinosa. Quando após um fatídico desastre de automóvel estive internado seis meses num hospital, recebi a visita do Vasco. Estava mais alto, mais gordo, mais inteligente. Como eu me encontrava detido sob a vigilância da PIDE, evitou-se falar de política. Apenas proferiu estra sentença que bem lembro: “ Ao homem nada é mais útil do que o homem; os homens (…) nada podem desejar de melhor para conservarem o seu ser do que estarem todos de acordo sobre todas as coisas, de tal maneira que os espíritos e os corpos de todos componham por assim dizer um único espírito e um único corpo, e todos se esforcem ao mesmo tempo, tanto quanto possam, por conservarem o seu ser, e todos procurem ao mesmo tempo o que é útil a todos”. Tens escutas aqui no quarto do hospital? - Não, as enfermeiras já vistoriaram tudo. Então, disse subtilmente, bem a seu modo: a causa essencial da degradação dos Estados reside na corrupção das leis que preservam a igualdade e a liberdade, e de que quanto maior é a liberdade melhor se defende a segurança do Estado e a sua estabilidade. Na Democracia autêntica, os cidadãos ao delegarem no Estado direitos e deveres não perdem, por isso, os seus direitos naturais, são tanto mais activos e criadores quanto mais o Estado preservar a liberdade e a segurança de todos. E os deveres? - Pois, está por redigir-se uma Declaração Universal dos Deveres do Homem e do Cidadão, retorquiu.
Meses depois de ter alta do hospital, apoiado em muletas, a PIDE veio prender-me em casa pelas sete horas da manhã. Nessa primeira prisão não festejei o Natal e o Ano Novo, enjaulado nos calabouços da Rua do Heroísmo, na cidade do Porto. Algum tempo após esse “baptismo de fogo” encontrava-me eu no Café Ceuta que os antifascistas frequentavam e nele se distribuíam panfletos escondidos em livros de estudo quando me apareceu o Vasco. Vinha saber do meu estado de saúde e de ânimo. Dessa conversa recordo o seguinte dito: “Todo o homem sofre afecções e, sobre elas, afectos. Chama-se desejo quando tem consciência dos apetites, esse é o seu estado comum e natural. Todos nós temos tendência para ser, ou seja, para agir, e devemos distinguir entre os afectos aqueles que aumentam a nossa potência de agir, ou, pelo contrário, a diminuem. Daí resulta que a nossa luta é sempre entre a submissão e a liberdade. Encontramos-nos sempre submetidos a paixões como parte da natureza que somos. Quando o corpo encontra outros corpos que se adequam à nossa natureza, sentimos alegria; em caso contrário, é tristeza que sentimos, ou ódio, ou inveja; o amor é a alegria acompanhada pela ideia de uma causa exterior que realiza um encontro positivo; a esperança, alegria inconstante, nascida da imagem de uma coisa futura ou passada cujo desfecho nos parece duvidoso; e é o medo o sentimento mais comum e com o qual aqueles que nos submetem nos manipulam.”
Em suma: Sara, de olhos oceânicos, fora para o meu amigo o tal raro “encontro adequado”.
Vasco convidou-me para o seu casamento. Com Sara evidentemente. Realizou-se no restaurante panorâmico no Bom Jesus do Monte, Braga. Pude dizer que ambos se mostravam abençoados por uma “paixão alegre”.
Cada um seguiu o destino que escolheu “com a sua circunstância”. De quando em vez ia sabendo dos sucessos do amigo Vasco na sua qualidade de engenheiro. Dirigia obras espectaculares nos quatro cantos do planeta. Imaginava-o no seu vasto atelier, compenetrado, a tentar descobrir os materiais mais revolucionários, exactos, perfeitos, expressões criadoras da Razão, capazes de vencer todos e quaisquer “constrangimentos externos”, à maneira do seu ilustríssimo primo. A sua bela Sara a chamá-lo para o jantar e ele, distraído dos prazeres mundanos, a teimar penetrar nos segredos do infinitamente pequeno. A paixão da Razão.
Dez anos depois esperava-me em casa uma missiva do Vasco. Duas curtas frases, em letra firme e geométrica: “Sara morreu-me. Doença incurável. Vou residir para o Brasil onde o meu trabalho é reconhecido. Até sempre meu amigo.”
Nunca mais soube nada dele. Até que, certo dia, à beira da passagem do milénio, estava eu em casa rememorando a ÉTICA de Espinosa, minha mulher mostrou-me a página de um jornal onde se lia: “Faleceu o engenheiro Vasco de Espinosa. O funeral realiza-se amanhã pelas 10h. “ Em cima uma fotografia.
Vasco teria regressado a Portugal e eu ignorava! Talvez sabendo-se sofrer de doença incurável veio para a sua pátria para morrer. Fui. Algumas dezenas de pessoas acompanharam o féretro para o Cemitério dos Prazeres. Deixei-me ficar postado a um canto vendo os grupos escoarem-se aos poucos. Chuviscava. O sol, indiferente na sua natureza, não lhe prestou homenagem. Ao dirigir-me para o carro fui interpelado por um indivíduo envergando um fato austero de ocasião, óculos escuros, que me perguntou delicadamente se eu era…(disse o nome), aquiesci, e desfechou-me esta seta mortal: “ O falecido era muito seu amigo. Eu sou, quero dizer, fui, o seu advogado desde sempre. Um mês antes da sua morte, Vasco pediu-me que fosse o senhor a tratar do destino da sua biblioteca e escritos. Acha-se capaz dessa tarefa?”. Fiquei abismado. Estive demasiado tempo a olhar fixamente o indivíduo para acreditar no que ouvia, por fim consegui balbuciar: De que morreu o Vasco? Doença fulminante? Sofreu muito? O homem desenhou a custo um sorriso triste e respondeu com estas palavras misteriosas: “Morreu…ou deixou-se morrer simplesmente.” Talvez se tenha matado, pressenti. Trágico fim para um espinosista que tem o suicídio como um ato absurdo, na medida em que não existe em nós força maior do que conservar o nosso próprio ser, e o verdadeiro filósofo pensa mais na vida do que na morte …
Logo que pude dirigi-me à morada que me fora indicada, moradia de arquitectura sóbria mas elegante, ao redor um amplo jardim abandonado. O escritório: enorme atelier, milhares de livros e dossiers. Procurei horas a fio o que ansiosamente buscava: Cadernos onde se espelhariam os frutos revolucionários de uma mente excepcional, equações e cálculos matemáticos a que eu me vergaria impotente, construções utópicas, nanotecnologias de ponta, realidades virtuais com as quais deixaríamos de saber qual seja a verdadeira, pontes visionárias e réplicas exatas de órgãos humanos…
Encontrei. Eram dezenas de pastas contendo folhas soltas. Li na primeira: “Sara”. Li na segunda, terceira, centésima: “Sara”. Em todas elas uma data. Nada mais do que isto. O sentido da vida. Um nome.
Um nome para a eternidade.
NOZES PIRES