domingo, 21 de fevereiro de 2021

 

Arte

O que é arte? A definição e os diferentes tipos.

Seu significado sofreu constantes modificações ao longo da história

Por Equipe Editorial - junho 24, 2019
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Resumo

Arte é uma gama diversificada de atividades humanas na criação de artefatos visuais, auditivos ou de execução (obras de arte), expressando as ideias imaginativas, conceituais ou técnicas do autor, destinadas a serem apreciadas por sua beleza ou poder emocional.

Em geral, essas atividades estão ligadas à produção de obras, crítica artística, estudo de suas histórias e a própria disseminação estética.

Os três ramos clássicos da arte são:

  • Pintura,
  • escultura e
  • arquitetura.

Música, teatro, cinema, dança e outras artes cênicas, assim como literatura e outras mídias, como a mídia interativa, estão incluídas em uma definição mais ampla. Até o século XVII, a arte referia-se a qualquer habilidade ou domínio, e não se diferenciava do artesanato ou das ciências.

Quais são os tipos de Arte?

arte; projecao

Após o século XVII, onde as considerações estéticas são primordiais, as artes plásticas são separadas e diferenciadas das habilidades adquiridas, em geral, como as artes decorativas ou aplicadas.

Embora a definição do que constitui a arte seja contestada e tenha mudado ao longo do tempo, as descrições gerais mencionam uma ideia de habilidade imaginativa ou técnica, que provém da agência humana e da criação. 

Sua natureza e conceitos relacionados, como criatividade e interpretação, são explorados em um ramo da filosofia, conhecido como estética. (quer saber mais? Continue lendo)

arte

A origem do termo “Arte”

Arte (do termo latino ars, significando técnica e/ou habilidade) pode ser entendida como a atividade humana ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada através de uma grande variedade de linguagens, tais como: arquitetura, desenho, escultura, pintura, escrita, música, dança, teatro e cinema, em suas variadas combinações. 

O processo criativo se dá a partir da percepção com o intuito de expressar emoções e ideias, objetivando um significado único e diferente para cada obra.


Mais sobre a definição

O principal problema na definição do que é arte é que este conceito varia com o tempo e de acordo com as várias culturas humanas. Devemos ter em mente que a própria definição de arte é uma construção cultural variável e sem significado constante.

O que determinado grupo classifica como arte não necessariamente servirá para outro (por ser externo ao meio de onde ela foi produzida.) Inclusive, até no mesmo período e numa mesma cultura pode haver múltiplas acepções do que ela seja.

As sociedades pré-industriais, em geral, não possuem ou possuíam sequer um termo para designar arte. Numa visão muito simplificada, ela está ligada principalmente a um ou mais dos seguintes aspectos:

  • A manifestação de alguma habilidade especial;
  • a criação artificial de algo pelo ser humano;
  • o desencadeamento de alguma resposta no ser humano, como o senso de prazer ou beleza;
  • a apresentação de uma certa ordem, padrão ou harmonia;
  • a transmissão de um senso de novidade e ineditismo;
  • a expressão da realidade interior do criador;
  • a comunicação de algo sob a forma de uma linguagem especial;
  • a noção de valor e importância;
  • a excitação da imaginação e a fantasia;
  • a indução ou comunicação de uma experiência-pico;
  • coisas que possuam reconhecidamente um sentido;
  • coisas que deem uma resposta a um dado problema.

Ao mesmo tempo, ainda que uma dada atividade seja considerada arte de modo geral, há muita inconsistência e subjetividade na aplicação do termo. Por exemplo, é hábito, entre os ocidentais, chamar de arte o canto operístico; mas cantar despreocupadamente enquanto trabalhamos, muitas vezes, não é tido como atividade artística.

arte

Pode haver, assim, uma série de outros parâmetros que as culturas empregam para separar o que consideram ou não como arte.

Mesmo que se possa, em tese, estabelecer tais parâmetros gerais válidos consensualmente, a análise de cada caso pode ser extraordinariamente complexa e inconsistente.

Num contexto geográfico, se a cultura ocidental chama de arte a ópera, possivelmente uma oriental poderia considerar aquela forma de canto muito estranha.

Na perspectiva histórica, muitas vezes, um objeto considerado artístico em uma determinada época pode não o ser em outra.


História do conceito

No ocidente, um conceito geral de arte, ou seja, aquilo que teriam em comum coisas tão distintas como, por exemplo, um madrigal renascentista, uma catedral gótica, a poesia de Homero, os autos de mistério medievais, um retábulo barroco, só começou a se formar em meados do século XVIII, embora a palavra já estivesse em uso há séculos para designar qualquer habilidade especial.

Na Antiguidade clássica, onde se formou uma das principais bases da civilização ocidental, tivemos as primeiras reflexões sobre o tema, considerando arte como qualquer atividade que envolvesse uma habilidade especial: seja para construir um barco; comandar um exército; convencer o público em um discurso. Em suma, qualquer atividade que se baseasse em regras definidas e que fosse sujeita a um aprendizado e desenvolvimento técnico.

      Banksy em Paris

Em contrapartida, a poesia, por exemplo, não era tida como arte, pois, era considerada fruto de uma inspiração.

De acordo com Platão, a arte representa uma capacidade de fazer algo de modo inteligente através de um aprendizado, sendo um reflexo da potencial criador do ser humano.

Aristóteles a definiu como uma disposição de produzir coisas de forma racional.

Quintiliano a entendia como aquilo que era baseado em um método e em uma ordem.

Já Cassiodoro destacou seu aspecto produtivo e ordenado, assinalando três funções para ela: ensinar, comover e agradar ou dar prazer.

arte
Last Judgement (O Juízo Final), de Michelangelo — a arte veiculando todo um universo simbólico, tendo um propósito educativo

Essa visão atravessou a Idade Média, mas, no Renascimento, iniciou-se uma mudança: separaram-se os ofícios produtivos e as ciências das artes propriamente ditas (incluiu-se, pela primeira vez, a poesia no domínio artístico).

A mudança foi influenciada pela tradução para o italiano da Poética de Aristóteles e pela progressiva ascensão social do artista, que buscava um afastamento dos artesãos e artífices, e uma aproximação dos intelectuais, cientistas e filósofos.

O objeto artístico passou a ser considerado tanto fonte de prazer como meio de assinalar distinções sociais de poder, riqueza e prestígio, incrementando-se o mecenato e o colecionismo.

Começaram a aparecer também diversos tratados sobre as artes, como o De picturaDe statua e De re aedificatoria, de Leon Battista Alberti, e os Comentários de Lorenzo Ghiberti. Ghiberti foi o primeiro a periodizar a história da arte, distinguindo-a em clássica, medieval e renascentista.

Diferentemente de Ghiberti, hoje, através da arqueologia, história e geografia, podemos acrescentar na periodização a arte rupestre: considerada a mais antiga forma de expressão artística humana. Originada no contexto da pré-história, os primeiros registros foram produzidos cerca de 40 mil a.C., podendo aparecer no interior de cavernas, grutas e em outras superfícies rochosas.

Veja mais sobre a extensa e curiosa arte rupestre


O renascimento e o maneirismo

O Renascimento e o Maneirismo assinalam o início da história moderna (final do século XV até o XVIII). Nesse contexto, a definição de beleza se relativizou, privilegiando-se a visão pessoal e imaginação do artista, em detrimento do conceito unificado e de índole científica. Também se deu valor ao fantástico e ao grotesco.

Giordano Bruno, introduziu o conceito de originalidade, pois, para ele, a arte não tem normas, não se aprende e procede da inspiração.


Arte no século XVIII

No século XVIII, começou a se consolidar a estética como um elemento-chave para a definição de arte como hoje a entendemos — a despeito da vagueza e inconsistências do conceito.

Até então, toda a arte do ocidente estava indissociavelmente ligada a uma ou mais funções definidas, ou seja, era uma atividade essencialmente utilitária, servindo para:

  • A transmissão de conhecimento;
  • estruturação e decoração de rituais e festividades; 
  • invocação / mediação de poderes espirituais ou mágicos;
  • embelezamento de edifícios, locais e cidades;
  • distinção social;
  • recordação da história e preservação de tradições;
  • educação moral, cívica, religiosa e cultural; e
  • perpetuação de valores / ideologias socialmente relevantes

O cientificismo e o iluminismo

Esta mudança de paradigma estava ligada às transformações culturais desencadeadas pelo cientificismo e pelo iluminismo. Estas correntes de pensamento passaram a defender a tese de que a arte não era uma ciência, não podia descrever com exatidão a realidade, portanto, não poderia ser um veículo adequado para o conhecimento verdadeiro.

Não sendo uma ciência, a arte passou para a esfera da emoção, da sensorialidade e do sentimento. A própria origem da palavra “estética” deriva de um termo grego que significa “sensação”.

Em trabalhos de Jean-Baptiste Dubos, Friedrich von Schlegel, Arthur Schopenhauer, Théophile Gautier e outros, nasceu o conceito de “arte pela arte”, onde ela teria um fim próprio, despojando-a de toda a sua antiga funcionalidade, utilidade prática e associações com a moral.

Na medida em que isso abriu um novo e rico campo filosófico, gerou dificuldades importantes: perdeu-se a capacidade de se entender a arte antiga em seu próprio contexto e criaram-se conceitos inteiramente baseados na subjetividade, tornando cada vez mais difícil encontrar-se pontos objetivos em comum que pudessem ser aplicados a qualquer tipo de arte, tanto para defini-la quanto para valorá-la ou interpretar seu significado.

O surgimento dos museus de arte

Um testemunho desta tendência é a proliferação de museus no século XIX, instituições onde todas as categorias de arte são apresentadas fora de seus contextos originais.

O esteticismo foi um dos elementos teóricos básicos para a emergência do Romantismo, o qual rejeitou o utilitarismo da arte e deu um valor principal à criatividade, à intuição, à liberdade e à visão individual do artista, erigindo-o ao status de demiurgo e profeta, fomentando, com isso, o culto do gênio.

Por outro lado, o esteticismo ofereceu uma alternativa para a descrição de aspectos do mundo e da vida que não estão ao alcance da ciência e da razão.

Charles Baudelaire foi um dos primeiros a analisar a relação da arte com o progresso e a era industrial, prefigurando a noção de que não existe beleza absoluta, mas que ela é relativa e mutável de acordo com os tempos e com as predisposições de cada indivíduo. Baudelaire acreditava que a arte tinha um componente eterno e imutável — sua alma —, um circunstancial e transitório — seu corpo.

Este dualismo expressava nada mais do que a dualidade inerente ao homem em seu anelo pelo ideal e seu enfrentamento da realidade concreta.

Kazimir Malevich, black-square – Quadrado negro sobre fundo branco, uma das obras paradigmáticas da escola abstrata.

Em que pese a grande influência do esteticismo, cujo corolário apareceria no início do século XX na forma do abstracionismo, uma apoteose do individualismo artístico, houve correntes que o combateram, principalmente por ser uma forma de arte (especialmente nas artes visuais) que não representa objetos próprios da nossa realidade concreta exterior. Ao invés disso, usa as relações formais entre cores, linhas e superfícies para compor a realidade da obra, de uma maneira “não representacional”.

Hippolyte Taine elaborou uma teoria de que a arte tem um fundamento sociológico, aplicando-lhe um determinismo baseado na raça, no contexto social e na época. Reivindicou, para a estética, um caráter científico, com pressupostos racionais e empíricos.

 Jean-Marie Guyau apresentou uma perspectiva evolucionista, afirmando que a arte está na vida e evolui com ela, e assim como a vida se organiza em sociedades, a arte deve ser um reflexo da sociedade que a produz. 

A estética sociológica teve associações com os movimentos políticos de esquerda, especialmente o socialismo utópico, defendendo, para a arte, o retorno a uma função social, contribuindo para o desenvolvimento das sociedades e da fraternidade humana, como se percebe nos trabalhos de Henri de Saint-Simon, Lev Tolstoi e Pierre Joseph Proudhon, entre outros. 

John Ruskin e William Morris denunciaram a banalização da arte causada pelo esteticismo e pela sociedade industrial, e defenderam a volta ao sistema corporativo e artesanal medieval.


A psicologia para explicar a arte

Na mesma época, a arte começou a ser estudada do ponto de vista psicológico e semiótico através da contribuição de Sigmund Freud. Ele declarou que a arte poderia ser uma forma de representação de desejos e de sublimação de pulsões irracionais reprimidas; que o artista era um narcisista, e que as obras podiam ser analisadas da mesma maneira que os sonhos, os símbolos e as doenças mentais. Continuou nessa linha seu discípulo Carl Jung, que introduziu o conceito de arquétipo na análise artística.

Outra novidade foi introduzida por Wilhelm Dilthey, considerando arte e vida serem uma unidade; percebeu a importância da reação do público na definição do que é um objeto artístico, o que instaurava uma espécie de anarquia do gosto, inaugurando a estética cultural. Reconheceu, também, que a época assinalava uma mudança social e uma nova interpretação da realidade.

Ao artista, caberia intensificar sua visão de mundo em uma obra coerente e significativa.


As escolas de arte

O Esteticismo, Romantismo e todas as transformações sociais, econômicas e culturais nas sociedades nos séculos anteriores lançaram bases para novas significações e representações artísticas no início do século XX, abrindo espaço para a formação as vanguardas europeias no período modernista.

Veja mais sobre seus principais movimentos artísticos neste contexto

Conceitos inovadores foram introduzidos pela Escola de Frankfurt, destacando-se Walter Benjamin e Theodor Adorno, estudando os efeitos da industrialização, da tecnologia e da cultura de massa sobre a arte.

Benjamin analisou a perda da aura do objeto artístico na sociedade, e Adorno refletiu que a arte não é um reflexo mecânico dos homens que a produzem, pois, ela expressa o que não existe e indica a possibilidade de transformação e transcendência.

A culminação da natureza

Representante do pragmatismo, John Dewey definiu a arte como “a culminação da natureza”, defendendo que a base da estética é a experiência sensorial.

A atividade artística seria uma consequência da atividade natural do ser humano, cuja forma organizativa depende dos condicionamentos ambientais em que se desenvolve. Assim, arte seria o mesmo que “expressão”, onde fins e meios se fundem em una experiência agradável.

Já Ortega y Gasset apontou o caráter elitista e a desumanização da arte de vanguarda, devido ao seu hermetismo, ao repúdio da imitação da natureza e à perda da perspectiva histórica. Na escola semiótica, Luigi Pareyson elaborou uma estética hermenêutica, onde arte é a interpretação da verdade.

Para ele, a arte é “formativa”, ou seja, expressa uma forma de fazer que, ao mesmo tempo, inventa sua própria linguagem e seus meios.

Assim, a arte não seria o resultado de um projeto predeterminado, mas simplesmente encontraria o resultado no processo de fazer. Pareyson influenciou a chamada Escola de Turim, que desenvolveu o conceito ontológico de arte. Umberto Eco, seu maior expoente, afirmou que a obra de arte só existe em sua interpretação, na abertura de múltiplos significados que pode ter para o espectador.

A fonte, de Marcel Duchamp, originalmente um urinol: um exemplo da transformação do conceito de arte.

A partir da segunda metade do século XX, o assunto se tornou tão complexo, volátil e subjetivo que muitos estudiosos abandonaram de todo a ideia de que a definição do que é arte é de alguma forma possível. Temos, portanto, o início da arte contemporânea.

Novamente, transformações históricas levaram à mudança nas representações artísticas. Depois da guerra os artistas mostraram-se voltados às verdades do inconsciente e interessados pela reconstrução da sociedade, mudar os costumes e as necessidades da produção em massa. Isto revelou-se por meio das variadas linguagens e através da constante experimentação de novas técnicas

Sabia mais detalhadamente a definição, características e principais nomes da arte contemporânea no Brasil e no Mundo

A título de exemplo, citam-se algumas opiniões sobre este novo contexto artístico: Morris Weitz declarou que

“o próprio caráter aventuroso e expansivo da arte, suas constantes mutações e novidades, tornam ilógico que estabeleçamos qualquer conjunto de propriedades definidas”.

Robert Rosenblum disse que “hoje em dia a ideia de definirmos arte é tão remota que não acredito que alguém teria coragem de fazê-lo”, e Wladyslaw Tatarkiewicz afirmou que “nosso século chegou à conclusão de que conseguirmos uma definição abrangente do que é arte é não apenas algo dificílimo, como impossível”.

Essas visões, porém, não impediram que outros críticos lançassem opiniões diferentes, crendo ser possível uma conceituação.

A definição de George Dickie

Algumas delas contornaram o problema central da definição propriamente dita, e estabeleceram parâmetros externos para definir o fato artístico, recorrendo à consagração institucional, à autoridade, à resposta do público ou de pessoas consideradas peritas.

Um exemplo é a definição de George Dickie: “um objeto artístico é em primeiro lugar um artefato, e em segundo, é um conjunto de aspectos que legitimou sua proposta de merecer atenção especial de alguma pessoa ou pessoas agindo em nome de alguma instituição social”.

Às vezes, se recorre à sua localização e ao contexto cultural, como na declaração de Thomas McEvilley, dizendo que “é arte o que está num museu… Parece bem claro que hoje em dia mais ou menos qualquer coisa pode ser chamada de arte. A questão é: ela foi chamada de arte pelo ‘sistema de arte’? Em nosso século, isso é tudo o que é preciso para definir arte”. Na mesma linha de ideias, Robert Hughes disse que algo é arte “se foi criado com o fim expresso de ser considerado como tal e foi colocado em um contexto em que é visto como tal”.

SEGUNDO A DEFINIÇÃO DA ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, ARTE É AQUILO QUE É CRIADO DELIBERADAMENTE PELO HOMEM COMO UMA EXPRESSÃO DE HABILIDADE OU DA IMAGINAÇÃO.


O que é arte abstrata?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

 

Ludwig van Beethoven foi um gênio revolucionário

17/12/2020

Por
Simon Behrman

Tradução
Caue Seignemartin Ameni

250 anos após seu nascimento, a música de Beethoven ainda tem um poder subversivo estimulante. Sua revolução artística estava intimamente ligada à sua simpatia pelas revoluções políticas de seu tempo.

Retrato de Ludwig van Beethoven ao compor a Missa Solemnis. (Joseph Karl Stieler / Casa de Beethoven)

Por que ainda estamos ouvindo e, de fato, escrevendo sobre Ludwig van Beethoven? Dois séculos se passaram desde que sua música foi escrita e tocada pela primeira vez. Mesmo seus contemporâneos mais próximos, como Joseph Haydn, Wolfgang Amadeus Mozart e Franz Schubert, não foram tão consistentemente populares, nem tiveram sua música tão analisada e reinterpretada.

Ao contrário da música de Gustav Mahler ou Anton Bruckner, a música de Beethoven nunca precisou ser resgatada da obscuridade: ela tem sido uma constante nos concertos desde seu nascimento. Sua música foi radical para a época, e ainda hoje existem peças suas, como a Grosse Fuge e alguns dos últimos quartetos de cordas, que permanecem desafiadores para o intérprete e o ouvinte. No entanto, essas peças têm um lugar seguro no repertório do concerto, ultrapassando em muito as de modernistas como Arnold Schoenberg e Igor Stravinsky.

A música de nenhum outro compositor clássico ocidental é tão característica em eventos públicos ou propaganda política quanto a de Beethoven. Veja uma de suas obras mais importantes e famosas, a Nona Sinfonia. As apresentações foram organizadas por sindicatos na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e, em seguida, durante o Terceiro Reich no aniversário de Hitler. O governo de supremacia branca da Rodésia o adotou como um hino, assim como fez mais recentemente a União Europeia. Leonard Bernstein conduziu uma orquestra composta por músicos da Alemanha Oriental e Ocidental durante a apresentação para marcar a queda do Muro de Berlim.

Compositor da modernidade

Não se trata apenas de suas composições serem interessantes como belas obras de arte. Adoro a música de Haydn e Mozart, mas seu mundo sonoro nunca me faz sentir que estou em outro lugar que não seja o final do século XVIII. Ouvindo muitas das obras de Beethoven, há momentos ou períodos inteiros que parecem modernos, evocando experiências que permanecem imediatas.

Isso se deve em grande parte ao fato de que Beethoven testemunhou as dores do parto no mundo moderno. Em um grau inigualável por qualquer de seus contemporâneos, ele conseguiu expressar a alegria e o dinamismo daquele período revolucionário, juntamente com suas contradições, seus momentos de desespero e derrota.

Quase toda a vida de Beethoven foi moldada pela Revolução Francesa e suas consequências. Nascido em 1770, ele estava no final da adolescência quando a Bastilha foi invadida. A revolução atingiu seu apogeu com os jacobinos e entrou em sua fase reacionária quando ele passava dos 20 anos. Suas cartas neste período contêm muitas declarações de apoio à revolução, afirmando sua própria identificação como democrata.

Beethoven tornou-se famoso em toda a Europa ao mesmo tempo que os exércitos de Napoleão destruíam a velha ordem em todo o continente. Mas ele também viveu o declínio da revolução e a dura reação contra ela.

Ele passou por duas grandes crises artísticas e pessoais em sua vida. A primeira coincidiu com a coroação de Napoleão como imperador, sinal de que os ideais republicanos da Revolução haviam sido traídos. A segunda foi após a derrota final de Napoleão em 1815 e o triunfo da reação.

A dinâmica dessas duas crises na revolução foi muito diferente, assim como a resposta de Beethoven a elas. Beethoven sintetizou a relação entre o artista e a dinâmica da revolução e ele traçou um caminho que outros como Richard Wagner e Dmitri Shostakovich seguiram.

O período “heróico”

Em 1802, Beethoven passou por uma crise pessoal por causa de sua crescente surdez e profunda solidão. As profundezas de seu desespero ficam claras em uma carta aos irmãos, conhecida como Testamento de Heiligenstadt. De alguma forma, ele conseguiu sair dessa depressão, e a primeira obra que escreveu em seguida foi a Terceira Sinfonia.

Isso marca o surgimento total do que se tornou conhecido como a essência do estilo “heróico” de Beethoven. É difícil exagerar o quanto essa peça transformou a música ocidental como um todo. É concebido em uma escala maior do que qualquer obra anterior: a primeira parte sozinha é mais longa do que a maioria das sinfonias inteiras do século XVIII.

A forma sinfônica há muito tempo lidava com tensão e luta. No entanto, nesta sinfonia, esses aspectos são dramaticamente acentuados. Em vez de uma introdução suave, obtemos dois acordes muito altos e abruptos que, nas palavras de Leonard Bernstein, destruíram a elegância do século XVIII. O resto do movimento tem uma sensação de propulsão constante, mas muitas vezes é harmonicamente instável – uma combinação que se encontra ao longo de suas obras mais maduras.

Notoriamente, Beethoven dedicou essa sinfonia a Napoleão e, em seguida, riscou a dedicatória ao ouvir que Napoleão havia se coroado imperador. O título final dado à peça foi a Eroica (“The Heroic”).

É impressionante que Beethoven tenha expressado sua saída da depressão profunda não de uma forma introspectiva ou puramente pessoal, como se tornou comum entre os compositores românticos do século XIX, mas por meio da esperança oferecida pela promessa de mudança revolucionária na Europa. Os estudiosos costumam presumir que a crença de Beethoven nos ideais revolucionários morreu com a extinção da dedicatória a Napoleão, mas essa narrativa está longe de ser o caso. Há muitas referências esparsas em suas cartas ao longo de sua vida que sugerem que ele ainda acreditava no fim do poder aristocrático e da igreja.

Na verdade, ainda em 1822, quando Beethoven soube da morte de Napoleão, ele teria dito: “Já compus a música adequada para essa catástrofe.” É provável que se referisse à grande marcha fúnebre que é o segunda parte da Eroica, embora também seja possível que tivesse em mente o imenso cenário da Missa Solemnis. A evidência da contínua simpatia radical de Beethoven também está presente em muitas obras que ele produziu ao longo dos anos.

Revolução da forma

Na década seguinte à Eroica, ele produziu uma série de outras obras-primas, incluindo sua quinta, sexta e sétima sinfonias; sua única ópera, Fidelio; várias grandes aberturas; os últimos três concertos para piano; e seu Concerto para violino, os quartetos Razumovsky, a sonata para piano Appassionata; e muitos outros. Todas essas peças de uma forma ou de outra revolucionaram as formas musicais. As peças para grandes orquestras e Fidelio frequentemente expressam temas como liberdade da opressão.

Fidelio é um exemplo importante de uma “ópera de resgate”, um gênero intimamente associado à Revolução Francesa, que normalmente envolve o resgate de um herói das mãos da tirania numa situação de confinamento ou de execução. A ópera é baseada em um libreto de Jean-Nicolas Bouilly, que havia sido um dos principais juristas do governo republicano francês. Baseado, supostamente, em uma história real, trata-se de uma mulher que se disfarça de homem para ajudar seu marido, um prisioneiro político, a escapar da prisão.

As primeiras apresentações da ópera foram realizadas em Viena, durante a ocupação pelas forças de Napoleão. Na verdade, a história conturbada desta ópera, que falhou em suas primeiras apresentações e teve que ser drasticamente revista para apresentações futuras, talvez possa ser explicada, em parte, pelo seus aspectos políticos mais radicais.

Beethoven estava longe de ser o único compositor de seu tempo a acolher a Revolução Francesa e a expressar seus ideais na música. Na verdade, houve contemporâneos que expressaram isso de maneiras muito mais óbvias. Por exemplo, François-Joseph Gossec, Luigi Cherubini e Étienne Méhul escreveram canções e óperas patrióticas que celebravam explicitamente o republicanismo. No entanto, embora intelectualmente esses compositores celebrassem o novo, eles o faziam no estilo do antigo, e essa é uma das razões pelas quais suas obras não sobreviveram o passar do tempo.

Em contraste, Beethoven expressou o dinamismo de sua época não apenas na superfície, com declarações de virtudes republicanas, mas sim desenvolvendo um estilo musical radicalmente novo que refletia os novos tempos. São poucas as suas obras em que o elemento político é particularmente evidente – principalmente Fidelio, a Eroica e a Nona Sinfonia. Beethoven conjurou mundos sonoros que, na época, pareciam revolucionários. Na verdade, eles transformaram radicalmente a música europeia, da mesma forma que o republicanismo estava transformando a sociedade do velho continente.

Ele conseguiu isso, em parte, por meio de um maior senso de escala, não apenas em termos de duração das peças, que exigiam arquiteturas musicais mais complexas, mas também em termos do tamanho da orquestra, da gama de instrumentos usados e do esforço técnico e habilidades dos músicos que estavam além do que se esperava. Quando um violinista reclamou com ele sobre a dificuldade técnica de uma de suas composições, Beethoven respondeu: “Não me importo sua relação com o violino!”

Estilisticamente, ele tinha uma tendência a se concentrar em temas minúsculos, muitas vezes banais, que impulsionam implacavelmente grandes extensões de música, mas que são transmitidos aos diferentes instrumentos e constantemente transformados. Este estilo é sintetizado no primeiro movimento da Quinta Sinfonia, que começa com um dos motivos mais famosos de toda a música. Quase todas as barras dessa parte, que dura cerca de sete minutos, repete esse motivo de alguma forma. Na verdade, ele aparece no segunda parte, também domina a terceira, e mais uma vez pode ser ouvido no final.

Isso cria uma sensação de unidade e de transformação constante em toda a sinfonia, em vez de ser apenas uma sucessão de movimentos frouxamente mantidos juntos, se é que o são, o que era típico das sinfonias até então. É esse impulso – a escala heróica, a grande narrativa, o sentido na música de uma unidade de propósito e transformação radical – que dá vida a um período de fervor revolucionário.

Reação e o período tardio

A segunda grande crise na vida de Beethoven começou por volta de 1813. Seu irmão mais novo, Kaspar, morreu de tuberculose e ele então se envolveu em uma longa e desagradável batalha legal com a viúva de Kaspar pela guarda de seu filho. Após a sucessão de obras-primas na década anterior, sua produção despencou.

A única obra em grande escala que ele completou durante este período foi uma peça encomendada para celebrar a vitória de Wellington sobre Napoleão na Batalha de Vitória. Esta Sinfonia de Batalha é, sem exagero, um lixo musical: bombástico, com falta de desenvolvimento musical e sustentado por truques baratos como o uso de um órgão mecânico ultramoderno que pode reproduzir os sons da batalha. Não tem nenhuma das ambigüidades ou invenção que se ouve em outras partes de sua obra.

Beethoven caminhando na natureza. (Michael Martin Sypniewski / Wikimedia Commons)

No entanto, isso rendeu a Beethoven mais dinheiro do que qualquer outra coisa que ele produziu em sua vida. Uma das “obras” menos ilustres de Beethoven é a descoberta de que o entretenimento barato geralmente produz recompensas maiores do que a arte revolucionária sob o capitalismo. Mas esse episódio talvez seja mais uma prova de sua profunda desmoralização pessoal e política.

Se Beethoven não tivesse produzido nada mais significativo durante os quatorze anos restantes de sua vida, ele ainda seria considerado um dos grandes nomes da música ocidental. Em vez disso, já tendo sido uma daquelas raras pessoas que transformam sua arte uma vez, ele se tornou aquele artista ainda mais raro que o faz uma segunda vez. O seu “período tardio” tornou-se um modelo para muitos artistas subsequentes em diferentes áreas, como um período em que um gênio reconhecido tem a confiança e a capacidade de estender o horizonte de possibilidades artísticas para as gerações futuras.

Não há muitas peças significativas desse período. Além de várias composições menores, há apenas uma sinfonia, cinco quartetos de cordas, meia dúzia de sonatas para piano e um cenário da missa. Mas cada uma dessas peças permanece, mais de duzentos anos depois, entre as mais importantes na história da música ocidental.

Os chamados “Late Quartets” têm uma profundidade emocional nunca ouvida antes desta forma e raramente igualada desde então. Esta qualidade pode ser ouvida de forma mais notável no Quarteto de Cordas No. 13. O editor de Beethoven se opôs a uma parte desta peça, argumentando que ela ameaçava sua viabilidade comercial. Beethoven publicou-a separadamente como uma peça autônoma, conhecida como Grosse Fuge.

O Grosse Fuge confundiu os críticos e o público quando foi apresentado pela primeira vez e, ainda hoje, continua a ser um desafio para os ouvintes. Uma fuga envolve pelo menos dois temas sendo jogados um contra o outro e tem sido uma forma padrão para compositores durantes séculos. Mas, nesta peça, essa dinâmica é feita com uma tensão tremenda, algo que ela mantém, com apenas um breve lançamento, por todo o seu período de uns quinze minutos. Stravinsky, o arquimodernista do século XX, descreveu-a como uma peça que “sempre permaneceria contemporânea”.

Para o mundo inteiro

Essas peças, junto com a sonata Hammerklavier e a Missa Solemnis, sugerem que as dificuldades pessoais e a desmoralização política levaram Beethoven a se retirar quase completamente para um mundo interior, muito distante das tentativas de um engajamento dinâmico com o mundo ao seu redor que marcou o período heróico dos anos 1800.

A narrativa padrão afirma que Beethoven fez as pazes com a reação política, ou pelo menos deixou para trás o fervor revolucionário de sua juventude. Mas sua Nona Sinfonia, concluída apenas três anos antes de sua morte, dá uma impressão totalmente oposta.

O que torna a Nona Sinfonia ainda tão atraente como uma obra de arte ou uma declaração política? Sua abertura é diferente de qualquer outra ouvida antes em uma grande obras. Sons emergem de algum lugar misterioso e difuso, aos poucos, convocando as forças da orquestra. Esta técnica de abertura com um “horizonte longo” não seria totalmente explorada novamente até as sinfonias de Bruckner e Mahler muitas décadas depois.

No meio dessa primeira parte, há uma passagem cataclísmica em que a violência e a ansiedade se expressam com uma força e dissonância que pressagia a música de um século depois, composta por volta da Primeira Guerra Mundial e do colapso dos impérios europeus. A sinfonia nunca se recupera totalmente desse trauma até o clímax “Ode à alegria”, mais de meia hora depois.

Mesmo assim, a conclusão triunfante é conquistada com dificuldade, com harmonias instáveis e um conjunto de variações que parecem estar continuamente em busca de uma vitória final. Os momentos finais da sinfonia, embora emocionantes e, em última análise, triunfantes, também transmitem uma sensação de desespero maníaco.

Em suma, toda a sinfonia é uma exploração musical de luta, mas desta vez muito mais extrema e precária do que na Eroica de 20 anos antes. Em contraste com muitos dos românticos que vieram depois de Beethoven, a escala em que a música é escrita deixa claro que não é apenas uma luta de uma pessoa solitária, mas uma luta que se desenvolve em uma escala totalmente maior.

As palavras de Friedrich Schiller que se encontram no final tornam isso ainda mais claro, com as declarações de que “Todos os homens serão irmãos” e “Sejam abraçados, milhões! Esse beijo é para o mundo inteiro! ” Esses sentimentos também estavam em conflito com um período que viu a restauração da monarquia na França e a repressão do movimento republicano em toda a Europa.

Um ícone de terra

Beethoven morreu em março de 1827. Estima-se que cerca de 30 mil pessoas compareceram ao seu cortejo fúnebre em Viena, uma cidade cuja população total era de apenas 200 mil na época. Logo depois disso, a divinação se instalou. Monumentos a Beethoven, como o erguido em sua cidade natal, Bonn, em 1845, ou a escultura de Max Klinger para a famosa exposição secessionista de 1902, retratam-no no estilo de um grande líder político ou um deus da antiguidade.

Escultura de Beethoven de Max Klinger para a famosa exposição secessionista de 1902. (Arquivo da secessão)

Ainda no início do século XX, os compositores lutavam para emergir de sua sombra. O nome e a imagem de Beethoven passaram a representar muito mais do que apenas sua própria vida e música: eles se tornaram um avatar para a própria tradição clássica ocidental. Quando Chuck Berry quis sinalizar a chegada iconoclasta do rock ‘n’ roll, ele deu a seu single de sucesso o título “Roll Over Bach“.

E, no entanto, em vida, Beethoven era mal-cuidado e, às vezes, um tanto desleixado quando se tratava de publicar suas obras e organizar concertos de sua música. Ele é o primeiro grande compositor a nunca ter aparecido em retratos de peruca e a ter ganhado a vida como músico independente ao longo de sua carreira, em vez de servir à igreja ou a uma família aristocrática.

O maior problema com a imagem “prometeica” de Beethoven é que ele realmente lutou muito para produzir suas obras-primas. Está claro em suas cartas e no testemunho de seus amigos que ele era um personagem muito terreno. Isso também transparece em sua música, que muitas vezes é definida por seu estilo heróico, mas que também nos fala em um nível muito humano. Muitas de suas músicas expressam um tempo de luta entre a esperança de uma mudança progressista radical e as forças da reação. Esse era o mundo de Beethoven e, de muitas maneiras, também é o nosso.

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