O sentido da vida no tempo é viver, simplesmente viver, mesmo na
mais humílima condição. Viver é uma espécie de celebração do existir e
de termos escapado do nada
Em cada virada de ano, falamos do tempo que passou e do novo que se
inicia. Mas que é o tempo? Ninguém sabe. Nem Santo Agostinho soube dar
uma resposta em suas Confissões nas quais fez uma das mais
profundas reflexões. Nem Martin Heidegger, o mais eminente filósofo do
século XX. Escreveu seu famoso livro Ser e Tempo. Dedicou
volumoso livro ao Ser. Até ao fim de sua vida ficamos esperando um
tratado sobre o tempo. E não veio, porque também ele não sabia o que era
o tempo. Ademais, é curioso: o tempo é o pressuposto para falarmos do
tempo. Precisamos do tempo para refletir sobre o tempo. É um círculo
vicioso.
Creio que a abordagem mais adequada é conectar o tempo à vida humana.
Consideramos a vida como o valor supremo acima do qual há só o Ser que
faz ser todos os seres.
O sentido da vida no tempo é viver, simplesmente viver, mesmo na mais
humílima condição. Viver é uma espécie de celebração do existir e de
termos escapado do nada. Poderíamos não existir. E, no entanto, aqui
estamos. Viver é um dom. Ninguém pediu para existir.
A vida é sempre um com e um para. Vida com outras vidas da natureza,
com vidas humanas e vidas com outras vidas que por acaso existirem no
universo. E vida é para expandir-se e para dar-se a outras vidas sem o
que a vida não se perpetua.
A vida, no entanto, é habitada por uma pulsão interior que não pode
ser freada. A vida quer se encontrar com outras vidas pois para isso
existe o com e o para. Sem isso a vida deixaria de existir.
A pulsão irrefreável da vida faz com que ela não queira só isso e
aquilo. Quer tudo. Quer se perpetuar o mais que pode, no fundo, nunca
quer acabar, quer se eternizar.
Ela carrega dentro de si um projeto infinito. Este projeto infinito a
torna feliz e infeliz. Feliz porque encontra, ama e celebra o encontro
com outras vidas e com tudo o que tem a ver com a vida ao seu redor. Mas
é infeliz porque tudo o que encontra e ama é finito, lentamente se
desgasta e cai sob o poder da entropia, no termo, sob o império da
morte.
Apesar dessa finitude, em nada enfraquece a pulsão pelo Infinito.
Quando encontrar esse Infinito repousa. Experimenta uma plenitude que
ninguém lhe pode dar nem tirar. Só ele a pode construir, desfrutar e
celebrar.
A vida é inteira, mas incompleta. É inteira porque dentro dela estão
juntos o real e o potencial. Mas é incompleta porque o potencial ainda
não se fez real. Como o potencial não conhece limites a vida sente um
vazio que nunca consegue preenchê-lo totalmente. Por isso nunca se faz
completa para sempre. Permanece na antessala de sua própria realização.
É neste contexto que surge o tempo. O tempo é a tardança do potencial
que quer irromper a partir de dentro e deixar de ser potencial para ser
real. Essa tardança poderíamos chamar de tempo. Seria a nossa abertura
esperançosa, capaz de acolher o que poderá vir. O potencial realizado
nos permite passar de incompletos para inteiros sem, contudo, fazer-nos
plenamente inteiros. O vazio continua. É a nossa condição de finitos
habitados por um Infinito. Quem o preencherá?
Não pode ser o passado porque já não existe e passou. Não pode ser o
futuro porque ainda não existe, pois ainda não veio. Só resta o
presente. Mas o presente não pode ser apreendido, aprisionado e
apropriado. No que tentamos prendê-lo ele já virou passado.
Mas ele pode ser vivido. Quando é intenso nem percebemos que passou.
Parece que o tempo não existiu. É o tempo denso e intenso de dois
ardentemente apaixonados. É o tempo chamado kairós, diferente do kronos, sempre igual como o tempo do relógio.
É possível fazer uma representação do presente? Sim, é com a
eternidade, porque somente ela é um é. Cada presente tem algo do eterno,
porque só ele é. Um dia foi e um dia será. Mas somente ele é um é. Por
isso o “é” do tempo representa a presença possível da eternidade. A nós
cabe vivê-lo na maior intensidade possível, pois logo se esvai para o
passado.
De todos os modos constatamos que estamos imersos na eternidade do é.
Não se trata de uma quantidade congelada do tempo. É uma qualidade
nova, que nunca para, sempre vem e passa: provem do futuro e logo passa
por nós em direção do passado. É a pura presença inagarrável do é.
Para nós que estamos no tempo, cabe viver esse “é” como se fosse o
primeiro e o último. Desta forma nós participamos, fugazmente da
eternidade do é. E nos eternizando, participamos Daquele que sempre é
sem passado nem futuro.
Esse é vem sob mil nomes: Tao, Shiva, Alá, Olorum, Javé. Este, Javé,
se revelou como “sou Aquele que sou”, melhor dito: “Sou o é que sempre
é”.
Quem sabe se um dos sentidos, entre outros, de nosso existir no tempo
não seja participar desse é? E no dizer do místico São João da Cruz,
por um momento, “ser Deus, por participação”. E aqui vale o nobre
silêncio porque já não cabem mais palavras.
Leonardo Boff é filósofo, teólogo e escritor. Autor, entre outros livros, de Experimentar Deus hoje: a transparência de todas as coisas (Vozes).
Muitas
coisas foram ditas sobre o surrealismo, porém quase nada acerca do quão
fundamental foi para a dignidade da loucura. Ele foi a pedra no caminho
da história da psicanálise – uma pedra que não a fez tropeçar: uma
vanguarda artística que mudou a história da arte, mudou a relação com a
estética e que, sem dúvida, abriu espaço para aquilo tolhido no espectro
de uma normatividade correspondente à manutenção do capital.
Em
1924, quando o Manifesto é lançado, o movimento surrealista está imerso
em um contexto histórico de dúvidas e incertezas. A razão revelava uma
face sinistra: a aplicação da ciência para dizimar milhares de pessoas. A
guerra estremeceu não apenas o solo das fronteiras europeias, mas o
idílio da libertação via racionalidade. A repressão, a hipocrisia e a
violência da sociedade burguesa tornaram injustificáveis a fé no
progresso.
Então,
se apossando da arte, dos arsenais erguidos pela prática psicanalítica
de Freud e se orientando para além das fronteiras da formalidade
cientificista, o surrealismo se centrava na ideia de que a vida não
poderia ser reduzida ao horizonte de merda que a sociedade burguesa
impunha (e impõe). Ao fazer isso, o interesse se direcionou para aquilo
negado: era preciso resgatar um outro horizonte de possibilidades pela
articulação feita entre sonho e delírio. Enfim, era preciso usar a arma
da imaginação.
Essa
oposição nasce do adoecimento gerado pela crise espiritual de um mundo
dominado pela mercadoria cuja rota é a do abismo. Um mundo sem
experiência, encontros, presença ou memória; um mundo em que a vida é
falseada pela repressão, pela ordem e pela captura de nossos afetos. O
que estava em jogo para o surrealista passava pela construção poética e
culminava na reflexão sobre o destino da humanidade. Cumpria ao
surrealista transpor o protesto para abraçar uma postura revolucionária.
Se
o formalismo era algo inscrito na própria reprodução da violência que
conduzia o mundo à guerra. Se os discursos normativos, sobretudo na
medicina, excluíam a diferença, criminalizavam no “louco” a loucura e
buscavam recuperar a utilidade dos vagabundos, o surrealismo era o grito
de guerra contra essa adequação forçada. É com esse sentido que a
psicanálise é fagocitada por ele.
Na
medida que se punha à reflexão sobre aquilo que escapava à lógica
formal, ao positivo, ao visualizado no mundo classista, e se tornava um
instrumento fundamental para romper com o horizonte excludente e
violento de uma repressão sob império do capital, a psicanálise marcava
também a possibilidade de pensar na negatividade, naquilo que escapava
ao que estava estabilizado numa realidade sustentada pela violência e
pela destruição. Ao lado da psicanálise, porém, estava a mais
contundente crítica ao modo de vida imperante: o marxismo.
As armas surrealistas e seu contexto
A
arma surrealista utiliza como pólvora Marx e Freud. O primeiro como
teórico da liberdade social e o segundo como teórico da liberdade
individual, uma experiência simbiótica que questionava de maneira
radical o status quo por meio de uma poética vertiginosa. É
assim que Breton, o líder dos surrealistas, define seu programa: “A
atitude realista é fruto da mediocridade, do ódio, e da presunção
rasteira. É dela que nascem os livros que insultam a inteligência.”
Vejamos
bem que se aposta numa experiência que desafia a realidade para abrir
caminhos à liberdade pulsional do indivíduo, que traz a quebra dos
valores da cultura capitalista. Quando hoje olhamos pelo retrovisor da
história, os anos 1920 do século passado é um momento em que se vive de
maneira radical a crise do iluminismo. A ciência, conivente com a
destruição das guerras, utilizava o campo de combate como teste; o saber
instituído não prestava serviços à humanidade, mas ao modo de
exploração, e, de certa forma, os surrealistas percebiam que a
intelectualidade legitimava a ação do conservadorismo.
Por
isso, em meio a um contexto marcado por guerras, pela recolonização da
África, pelo crescimento do fascismo e dos nacionalismos, o surrealismo
surge como uma alternativa vigorosa diante de um horizonte tenebroso.
Num campo aberto à experimentação estética, trazer a liberdade em
relação aos desejos traça sua afinidade com a arte.
Buscando
no inconsciente uma forma de fazer a acusação a esse mundo sombrio, os
surrealistas nos ofertaram uma denúncia sem passividade: uma revelação
que fazia do mundo dos sonhos e da “loucura” o lugar distinto para uma
reviravolta que levasse a uma transformação das pessoas e da sociedade.
A dialética do surrealismo
Por
tudo isso que disse acima, percebe-se que a dialética surrealista se
detém entre liberdade individual com Freud e a liberdade social com
Marx. A partir dessa proposição, o conteúdo de suas obras revela aquilo
que escapa à vigília, vinculando-se ao negativo. O que resiste à vida
concreta é central. A obra de arte torna-se um ponto de ruptura.
Expondo
a nudez da existência do homem, para despojá-lo de toda a parafernália
da cultura de massa, a arte revela outro sentido à vida. Se a vida, tal
como inscrita no capitalismo, é uma negação das potencialidades humanas,
pressupondo uma realidade inerte ligada somente à valorização do valor
no mundo dominado pela mercadoria, a poética artística deve ser aberta
para outro mundo possível a partir do desrecalque.
Privilegiando,
portanto, o sujeito, e sua possibilidade de negar a negação que a vida
capitalista impõe, o surrealismo abre campo à imaginação e dá dignidade
aquilo que foge ao estabelecido. A obra de arte mais revolucionaria
será, portanto, a mais esotérica, ou seja, precisa colocar o sujeito
como um negativo à vida mercantilizada. E, assim, o surrealismo,
apostando em reconduzir-nos à liberdade individual, apreende uma
possível resposta contra a vida de massas do capitalismo.
O
curioso da empreitada é que é no inconsciente – naquilo que Freud
apreendeu como um sistema próprio à vida subjetiva (porém, negado) –
que os surrealistas observam a possibilidade de uma forma de negação da
vida burguesa. Esse é, para eles, o caminho para uma liberdade que
supere as repressões consolidadas por uma tradição que reforça a
dominação e a exploração. Claro, a liberdade individual sem a social é
uma armadilha.
É
impressionante que, com esse ímpeto avassalador, os surrealistas se
tornam os principais divulgadores da psicanálise na medida em que abriam
caminhos ao sonho e repensavam os itinerários dos significados da
loucura. Essa apropriação tratou de pensar em pôr em prática uma outra
realidade possível. Esse caráter, que implicava de saída uma revolução
no sentido da vida, se torna fundamental. Para romper com a passividade
da denúncia, já se adotava a ideia de recriar um inconsciente recusando a
sociedade do capital.
Questão de método
A
recusa surrealista, expressa nas obras artísticas, organizava uma ação
poética a partir de uma aposta no irreal: a práxis surrealista
ressaltava os conteúdos do inconsciente para liberá-los da repressão. E
para isso, vejam que curioso, estabeleceram o método do automatismo psíquico como condição metodológica. Ou seja, para aqueles habituados com o jargão da psicanálise, a ideia de associação livre – proposta por Freud no dispositivo clínico – é transfigurada em automatismo psíquico como técnica artística.
No Primeiro manifesto
(1924) temos uma descrição do que ela significa: “façam com que lhes
tragam o necessário para escrever depois de se terem acomodado no lugar
mais favorável, façam abstração do seu gênio, das suas capacidades e das
dos outros. Escrevam rapidamente, sem um tema predisposto, tão
rapidamente a ponto de não pararem e não serem tentados a reler. A
primeira frase sairá sem maiores esforços: é verdade que a todo instante
há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente que só pede para
ser exteriorizada. É um tanto difícil pronunciar-se a respeito do
sucesso da segunda frase”.
Fica
evidente que esse método é uma tentativa de reproduzir a associação
livre só que se dedicando à organização de uma poética. A liberdade
desse exercício, organizado a partir de uma imersão no discurso
psicanalítico, tem como finalidade abrir caminhos à ação política. Os
surrealistas intuíam que o conteúdo inconsciente, liberado na prática
estética, não era por si revolucionário, mas a aposta estava noutro
lado: a liberdade individual, ao romper com a repressão burguesa, abria
caminhos à transformação do sujeito e, por isso, à possibilidade de
transformação social.
Vejamos,
portanto, que há um profundo sentido de formação na ação surrealista.
Formação estética no sentido clássico do termo, ou seja, schilleriano.
Tendo alcançado a liberdade individual – rompido com as repressões do
princípio de realidade burguês –, por meio de um ávido exercício de
abertura ao inconsciente, a liberdade social poderia acender o
horizonte. A obra artística é, portanto, um instrumento não de
construção, nos termos da cultura monopolista, mas de destruição dos
valores vigentes e de iluminação da meta revolucionária pelo
desrecalque.
Louis Aragon, que esteve desde o início ligado ao surrealismo, em sua obra, chamada tratado do style
(1928), fala sobre essa iluminação da meta revolucionária ao explicar a
importância do “fundo” de um texto surrealista. O método serve como
instrumento de libertação dos conteúdos reprimidos pela cultura
capitalista: a forma – organizada pela autonomia estética – será
utilizada como ponte para fazer emergir, pelo automatismo psíquico, o
inconsciente.
Para
capturar essa questão, da forma surrealista, se faz necessário entender
que ela está dissociada de qualquer lógica formal. Na experiência
estética surrealista se busca algo livre do aparato da monopolização,
balizada pela ideia de uma realidade translúcida, que deve eternamente
se reproduzir. O surrealismo rompe com a realidade por ver nela algo
morto cujas cadeias aprisionam nossa imaginação. É exatamente por isso
que os conteúdos mobilizados pelo automatismo, apesar de estarem na
atmosfera de repressão, podem ser subvertidos.
E,
assim, livre do domínio consciente, a figuração pictórica buscará uma
imagem surrealista. O interesse é por realidades afastadas do dado
sensível tentando libertar a imaginação de sua comodidade. Nesse
sentido, como salienta Mario De Micheli, o surrealismo: “parte de um
princípio básico, o da tomada de consciência da 'traição' das coisas
sensíveis: as coisas não dão mais emoção e consolo ao homem, são fixadas
na escravidão de uma sociedade corrompida”.
Como
dirá Lautréamont, o encontro casual de uma máquina de costura e um
guarda-chuva sobre uma mesa cirúrgica remete ao mundo onírico, lugar
preferencial que a arte surrealista encontra seus conteúdos, campo da
verdade efetiva liberta de uma realidade estilhaçada. Assim, a intenção
de desmontar o princípio de identidade formal, organizado por uma
objetividade tal como é, procura no inconsciente a figuração dos objetos
estéticos tal como podem ser. Com esse impulso renovado à imaginação,
abre-se o horizonte para o reprimido: aquilo tido como louco e o sonho
esquecido serão as pontas de lança da afirmação surrealista.
O
inconsciente é então esse impulso criador para além das conexões
formais. Arranjado à criação artística, por ele se há a expansão da
imaginação que nos desafia a ir além do posto. A apropriação da
psicanálise busca, portanto, o rompimento das faculdades normativas que
visam reduzir a imaginação aquilo que é visto como única realidade
possível. Eis como o questionamento acerca da loucura e do patológico se
coloca.
Esse
fato é inegável: o surrealismo se constrói na relação com a
psicanálise. Salvador Dalí, que inclusive conhece Freud – a despeito de
sua traição ao movimento – foi seu grande divulgador. Conhecedor da
obra freudiana, o pintor espanhol usa o método paranoico – crítico.
Com ele, não só reafirma a forma – entendida como um princípio vazio
reprimido que adormece no inconsciente como algo autônomo e, portanto,
capaz de romper o círculo fechado da realidade – como ainda estabelece
sua autonomia.
Esse
caráter duplo reforça a dialética surrealista: negando a lógica formal
da correlação entre a pintura e aquilo que é, Dali busca nos simples
objetos cotidianos a inspiração que representa o desejo: aquilo que há a mais nesses objetos
é fundamental. Ou seja, ele usa-os como pontes para atravessar a
repressão de seus conteúdos. Por isso, o relógio não é só um relógio,
uma borboleta não é só uma borboleta.
Que
ele tenha sido amigo de Lacan, e que provavelmente a ideia do
significante parta do surrealismo, não é mero acaso. Esses pequenos
objetos cotidianos se tornam significantes que dão à obra artística
sentidos à experiência estética advinda da vivência do pintor. Então,
livre da repressão do significado ligado ao modo de vida vigente, esses
objetos agora mostrados a partir do significante se ligam à imagem
inconsciente. Eles trazem a autonomia subjetiva do indivíduo quando
expressam algo que está para além do próprio objeto, ou seja, sua
vivência em relação aos desejos.
Cem anos depois
O
surrealismo foi uma tormenta para a boa consciência europeia,
desafiador da moral e dos bons costumes, o seu escândalo foi arrebatador
à imaginação. Por aqui, ele nunca foi bem visto, nossos modernistas –
bons burgueses ilustrados – sempre tiveram desconfiança e repulsa aos
modos escandalosos dos surrealistas. Um exemplo basta: Mario de Andrade
se escandalizou ao ver um surrealista cuspir em padres na praça da Sé. A
práxis surrealista, entretanto, a despeito de seus detratores, abriu
caminhos à imaginação: repensar o sonho, lembrar dos afetos que nos
atravessam e sair da posição passiva da denúncia trouxeram um resultado
além da arte. O seu excesso, portanto, foi dar dignidade ao sonho e
duvidar da normalidade. Cem anos depois, resta pouco dessa insurgência,
mas ela viceja em cada descontentamento que temos com essa realidade de
merda que é a vida contemporânea.
Na
última década, um termo tem se proliferado de maneira espantosa no
discurso político. Moralmente carregado e lançado a torto e a direito em
disputas de internet, mesas de bar, espaços acadêmicos e palanques
políticos. Mas, afinal, o que é identitarismo? Neste livro, o
psicanalista Douglas Barros propõe uma interpretação original do
fenômeno. Para ele, o termo nomeia sobretudo uma forma de gestão da vida
social contemporânea que engole esquerda e direita.
Emblema
maior do desaparecimento da Política (com p maiúsculo), o identitarismo
é lido como um sintoma do século XXI. Implodindo a troca de acusações
entre “identitários” e “anti-identitários”, Barros provoca: “o processo
de identitarização da diferença se inicia com o colonialismo. É o
colonizador europeu o primeiro identitário da história moderna.” Com um
olhar da periferia do capitalismo sobre a colonização, o autor revisita,
pelo prisma da identidade, o surgimento e desmonte do sujeito, do
Estado e do capitalismo modernos para jogar luz sobre os impasses da
política contemporânea, marcada pela proliferação de bolhas
identitárias, em que as pessoas se veem obrigadas a desenvolver
identidades fragmentadas como resposta, mesmo que inconsciente, à quebra
de laços sociais e o endurecimento do neoliberalismo nas relações
econômicas.
Articulando
filosofia, teoria social e psicanálise, Douglas Barros apresenta uma
análise que reconhece a necessidade histórica das lutas rotuladas como
identitárias, sem perder de vista as disputas e capturas a que estão
sujeitas no atual estágio de acumulação capitalista. Nos termos de
Deivison Faustino, “uma valiosa contribuição a um debate novo, que pela
primeira vez, encontra uma análise à altura.”
O livro de Douglas Barros tem prefácio de Rita von Hunty, orelha de Deivison Faustino, quarta capa de Christian Dunker e Maíra Moreira Marcondes e capa de Matheus Rodrigues.
Assine o Armas da críticaaté o dia 15 de novembro e receba: Um exemplar de O que é identitarismo?, de Douglas Barros em versão impressa e e-book Pôster A3 com o Programa de 10 Pontos do Partido dos Panteras Negras Livreto com a entrevista “Tempos de exceção”, de Paulo Arantes Marcador + adesivo Guia de leitura multimídia no Blog da Boitempo Vídeo antecipado na TV Boitempo 30% de desconto em nossa loja virtual Benefícios com parceiros do clube
*** Douglas Rodrigues Barros
é psicanalista e doutor em ética e filosofia política pela Universidade
Federal de São Paulo (UNIFESP). Professor filiado ao Laboratório de
experiências coloniais comparadas, ligado ao Instituto de História da
Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor na pós-graduação em
filosofia da Unifai. Investiga principalmente a filosofia alemã
conjuntamente com o pensamento diaspórico de matriz africana e suas
principais contribuições teóricas no campo da arte e da política.
Escritor com três romances publicados, também é autor dos livros Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial (Hedra) e Hegel e o sentido do político (lavrapalavra).
Retrato de Ludwig van Beethoven ao compor a Missa Solemnis. (Joseph Karl Stieler / Casa de Beethoven)
Ludwig van Beethoven foi um génio revolucionário
POR Simon Behrman
Tradução Caue Seignemartin Ameni
250 anos após seu nascimento, a música de Beethoven ainda tem um
poder subversivo estimulante. Sua revolução artística estava intimamente
ligada à sua simpatia pelas revoluções políticas de seu tempo.
Por que ainda estamos ouvindo e, de fato,
escrevendo sobre Ludwig van Beethoven? Dois séculos se passaram desde
que sua música foi escrita e tocada pela primeira vez. Mesmo seus
contemporâneos mais próximos, como Joseph Haydn, Wolfgang Amadeus Mozart
e Franz Schubert, não foram tão consistentemente populares, nem tiveram
sua música tão analisada e reinterpretada.
Ao contrário da música de Gustav Mahler ou Anton Bruckner, a música
de Beethoven nunca precisou ser resgatada da obscuridade: ela tem sido
uma constante nos concertos desde seu nascimento. Sua música foi radical
para a época, e ainda hoje existem peças suas, como a Grosse Fuge e
alguns dos últimos quartetos de cordas, que permanecem desafiadores para
o intérprete e o ouvinte. No entanto, essas peças têm um lugar seguro
no repertório do concerto, ultrapassando em muito as de modernistas como
Arnold Schoenberg e Igor Stravinsky.
A música de nenhum outro compositor clássico ocidental é tão
característica em eventos públicos ou propaganda política quanto a de
Beethoven. Veja uma de suas obras mais importantes e famosas, a Nona Sinfonia.
As apresentações foram organizadas por sindicatos na Alemanha após a
Primeira Guerra Mundial e, em seguida, durante o Terceiro Reich no
aniversário de Hitler. O governo de supremacia branca da Rodésia o
adotou como um hino, assim como fez mais recentemente a União Europeia.
Leonard Bernstein conduziu uma orquestra composta por músicos da
Alemanha Oriental e Ocidental durante a apresentação para marcar a queda
do Muro de Berlim.
Compositor da modernidade
Não se trata apenas de suas composições serem
interessantes como belas obras de arte. Adoro a música de Haydn e
Mozart, mas seu mundo sonoro nunca me faz sentir que estou em outro
lugar que não seja o final do século XVIII. Ouvindo muitas das obras de
Beethoven, há momentos ou períodos inteiros que parecem modernos,
evocando experiências que permanecem imediatas.
Isso se deve em grande parte ao fato de que Beethoven testemunhou as
dores do parto no mundo moderno. Em um grau inigualável por qualquer de
seus contemporâneos, ele conseguiu expressar a alegria e o dinamismo
daquele período revolucionário, juntamente com suas contradições, seus
momentos de desespero e derrota.
Quase toda a vida de Beethoven foi moldada pela Revolução Francesa e
suas consequências. Nascido em 1770, ele estava no final da adolescência
quando a Bastilha foi invadida. A revolução atingiu seu apogeu com os
jacobinos e entrou em sua fase reacionária quando ele passava dos 20
anos. Suas cartas neste período contêm muitas declarações de apoio à
revolução, afirmando sua própria identificação como democrata.
Beethoven tornou-se famoso em toda a Europa ao mesmo tempo que os
exércitos de Napoleão destruíam a velha ordem em todo o continente. Mas
ele também viveu o declínio da revolução e a dura reação contra ela.
Ele passou por duas grandes crises artísticas e pessoais em sua vida.
A primeira coincidiu com a coroação de Napoleão como imperador, sinal
de que os ideais republicanos da Revolução haviam sido traídos. A
segunda foi após a derrota final de Napoleão em 1815 e o triunfo da
reação.
A dinâmica dessas duas crises na revolução foi muito diferente, assim
como a resposta de Beethoven a elas. Beethoven sintetizou a relação
entre o artista e a dinâmica da revolução e ele traçou um caminho que
outros como Richard Wagner e Dmitri Shostakovich seguiram.
O período “heróico”
Em 1802, Beethoven passou por uma crise pessoal
por causa de sua crescente surdez e profunda solidão. As profundezas de
seu desespero ficam claras em uma carta aos irmãos, conhecida como
Testamento de Heiligenstadt. De alguma forma, ele conseguiu sair dessa
depressão, e a primeira obra que escreveu em seguida foi a Terceira Sinfonia.
Isso marca o surgimento total do que se tornou conhecido como a
essência do estilo “heróico” de Beethoven. É difícil exagerar o quanto
essa peça transformou a música ocidental como um todo. É concebido em
uma escala maior do que qualquer obra anterior: a primeira parte sozinha
é mais longa do que a maioria das sinfonias inteiras do século XVIII.
A forma sinfônica há muito tempo lidava com tensão e luta. No
entanto, nesta sinfonia, esses aspectos são dramaticamente acentuados.
Em vez de uma introdução suave, obtemos dois acordes muito altos e
abruptos que, nas palavras de Leonard Bernstein, destruíram a elegância
do século XVIII. O resto do movimento tem uma sensação de propulsão
constante, mas muitas vezes é harmonicamente instável – uma combinação
que se encontra ao longo de suas obras mais maduras.
Notoriamente, Beethoven dedicou essa sinfonia a Napoleão e, em
seguida, riscou a dedicatória ao ouvir que Napoleão havia se coroado
imperador. O título final dado à peça foi a Eroica (“The Heroic”).
É impressionante que Beethoven tenha expressado sua saída da
depressão profunda não de uma forma introspectiva ou puramente pessoal,
como se tornou comum entre os compositores românticos do século XIX, mas
por meio da esperança oferecida pela promessa de mudança revolucionária
na Europa. Os estudiosos costumam presumir que a crença de Beethoven
nos ideais revolucionários morreu com a extinção da dedicatória a
Napoleão, mas essa narrativa está longe de ser o caso. Há muitas
referências esparsas em suas cartas ao longo de sua vida que sugerem que
ele ainda acreditava no fim do poder aristocrático e da igreja.
Na verdade, ainda em 1822, quando Beethoven soube da morte de
Napoleão, ele teria dito: “Já compus a música adequada para essa
catástrofe.” É provável que se referisse à grande marcha fúnebre que é o
segunda parte da Eroica, embora também seja possível que tivesse em
mente o imenso cenário da Missa Solemnis. A evidência da contínua
simpatia radical de Beethoven também está presente em muitas obras que
ele produziu ao longo dos anos.
Revolução da forma
Na década seguinte à Eroica, ele produziu uma
série de outras obras-primas, incluindo sua quinta, sexta e sétima
sinfonias; sua única ópera, Fidelio; várias grandes aberturas; os últimos três concertos para piano; e seu Concerto para violino,
os quartetos Razumovsky, a sonata para piano Appassionata; e muitos
outros. Todas essas peças de uma forma ou de outra revolucionaram as
formas musicais. As peças para grandes orquestras e Fidelio frequentemente expressam temas como liberdade da opressão.
Fidelio é um exemplo importante de uma “ópera de resgate”,
um gênero intimamente associado à Revolução Francesa, que normalmente
envolve o resgate de um herói das mãos da tirania numa situação de
confinamento ou de execução. A ópera é baseada em um libreto de
Jean-Nicolas Bouilly, que havia sido um dos principais juristas do
governo republicano francês. Baseado, supostamente, em uma história
real, trata-se de uma mulher que se disfarça de homem para ajudar seu
marido, um prisioneiro político, a escapar da prisão.
As primeiras apresentações da ópera foram realizadas em Viena,
durante a ocupação pelas forças de Napoleão. Na verdade, a história
conturbada desta ópera, que falhou em suas primeiras apresentações e
teve que ser drasticamente revista para apresentações futuras, talvez
possa ser explicada, em parte, pelo seus aspectos políticos mais
radicais.
Beethoven estava longe de ser o único compositor de seu tempo a
acolher a Revolução Francesa e a expressar seus ideais na música. Na
verdade, houve contemporâneos que expressaram isso de maneiras muito
mais óbvias. Por exemplo, François-Joseph Gossec, Luigi Cherubini e
Étienne Méhul escreveram canções e óperas patrióticas que celebravam
explicitamente o republicanismo. No entanto, embora intelectualmente
esses compositores celebrassem o novo, eles o faziam no estilo do
antigo, e essa é uma das razões pelas quais suas obras não sobreviveram o
passar do tempo.
Em contraste, Beethoven expressou o dinamismo de sua época não apenas
na superfície, com declarações de virtudes republicanas, mas sim
desenvolvendo um estilo musical radicalmente novo que refletia os novos
tempos. São poucas as suas obras em que o elemento político é
particularmente evidente – principalmente Fidelio, a Eroica e a Nona Sinfonia.
Beethoven conjurou mundos sonoros que, na época, pareciam
revolucionários. Na verdade, eles transformaram radicalmente a música
europeia, da mesma forma que o republicanismo estava transformando a
sociedade do velho continente.
Ele conseguiu isso, em parte, por meio de um maior senso de escala,
não apenas em termos de duração das peças, que exigiam arquiteturas
musicais mais complexas, mas também em termos do tamanho da orquestra,
da gama de instrumentos usados e do esforço técnico e habilidades dos
músicos que estavam além do que se esperava. Quando um violinista
reclamou com ele sobre a dificuldade técnica de uma de suas composições,
Beethoven respondeu: “Não me importo sua relação com o violino!”
Estilisticamente, ele tinha uma tendência a se concentrar em temas
minúsculos, muitas vezes banais, que impulsionam implacavelmente grandes
extensões de música, mas que são transmitidos aos diferentes
instrumentos e constantemente transformados. Este estilo é sintetizado
no primeiro movimento da Quinta Sinfonia, que começa com um dos
motivos mais famosos de toda a música. Quase todas as barras dessa
parte, que dura cerca de sete minutos, repete esse motivo de alguma
forma. Na verdade, ele aparece no segunda parte, também domina a
terceira, e mais uma vez pode ser ouvido no final.
Isso cria uma sensação de unidade e de transformação constante em
toda a sinfonia, em vez de ser apenas uma sucessão de movimentos
frouxamente mantidos juntos, se é que o são, o que era típico das
sinfonias até então. É esse impulso – a escala heróica, a grande
narrativa, o sentido na música de uma unidade de propósito e
transformação radical – que dá vida a um período de fervor
revolucionário.
Reação e o período tardio
A segunda grande crise na vida de Beethoven
começou por volta de 1813. Seu irmão mais novo, Kaspar, morreu de
tuberculose e ele então se envolveu em uma longa e desagradável batalha
legal com a viúva de Kaspar pela guarda de seu filho. Após a sucessão de
obras-primas na década anterior, sua produção despencou.
A única obra em grande escala que ele completou durante este período
foi uma peça encomendada para celebrar a vitória de Wellington sobre
Napoleão na Batalha de Vitória. Esta Sinfonia de Batalha é, sem
exagero, um lixo musical: bombástico, com falta de desenvolvimento
musical e sustentado por truques baratos como o uso de um órgão mecânico
ultramoderno que pode reproduzir os sons da batalha. Não tem nenhuma
das ambigüidades ou invenção que se ouve em outras partes de sua obra.
Beethoven caminhando na natureza. (Michael Martin Sypniewski / Wikimedia Commons)
No entanto, isso rendeu a Beethoven mais dinheiro do que qualquer
outra coisa que ele produziu em sua vida. Uma das “obras” menos ilustres
de Beethoven é a descoberta de que o entretenimento barato geralmente
produz recompensas maiores do que a arte revolucionária sob o
capitalismo. Mas esse episódio talvez seja mais uma prova de sua
profunda desmoralização pessoal e política.
Se Beethoven não tivesse produzido nada mais significativo durante os
quatorze anos restantes de sua vida, ele ainda seria considerado um dos
grandes nomes da música ocidental. Em vez disso, já tendo sido uma
daquelas raras pessoas que transformam sua arte uma vez, ele se tornou
aquele artista ainda mais raro que o faz uma segunda vez. O seu “período
tardio” tornou-se um modelo para muitos artistas subsequentes em
diferentes áreas, como um período em que um gênio reconhecido tem a
confiança e a capacidade de estender o horizonte de possibilidades
artísticas para as gerações futuras.
Não há muitas peças significativas desse período. Além de várias
composições menores, há apenas uma sinfonia, cinco quartetos de cordas,
meia dúzia de sonatas para piano e um cenário da missa. Mas cada uma
dessas peças permanece, mais de duzentos anos depois, entre as mais
importantes na história da música ocidental.
Os chamados “Late Quartets” têm uma profundidade emocional
nunca ouvida antes desta forma e raramente igualada desde então. Esta
qualidade pode ser ouvida de forma mais notável no Quarteto de Cordas No. 13.
O editor de Beethoven se opôs a uma parte desta peça, argumentando que
ela ameaçava sua viabilidade comercial. Beethoven publicou-a
separadamente como uma peça autônoma, conhecida como Grosse Fuge.
O Grosse Fuge confundiu os críticos e o público quando foi
apresentado pela primeira vez e, ainda hoje, continua a ser um desafio
para os ouvintes. Uma fuga envolve pelo menos dois temas sendo jogados
um contra o outro e tem sido uma forma padrão para compositores durantes
séculos. Mas, nesta peça, essa dinâmica é feita com uma tensão
tremenda, algo que ela mantém, com apenas um breve lançamento, por todo o
seu período de uns quinze minutos. Stravinsky, o arquimodernista do
século XX, descreveu-a como uma peça que “sempre permaneceria
contemporânea”.
Para o mundo inteiro
Essas peças, junto com a sonata Hammerklavier e a Missa Solemnis,
sugerem que as dificuldades pessoais e a desmoralização política
levaram Beethoven a se retirar quase completamente para um mundo
interior, muito distante das tentativas de um engajamento dinâmico com o
mundo ao seu redor que marcou o período heróico dos anos 1800.
A narrativa padrão afirma que Beethoven fez as pazes com a reação
política, ou pelo menos deixou para trás o fervor revolucionário de sua
juventude. Mas sua Nona Sinfonia, concluída apenas três anos antes de sua morte, dá uma impressão totalmente oposta.
O que torna a Nona Sinfonia ainda tão atraente como uma obra
de arte ou uma declaração política? Sua abertura é diferente de
qualquer outra ouvida antes em uma grande obras. Sons emergem de algum
lugar misterioso e difuso, aos poucos, convocando as forças da
orquestra. Esta técnica de abertura com um “horizonte longo” não seria
totalmente explorada novamente até as sinfonias de Bruckner e Mahler
muitas décadas depois.
No meio dessa primeira parte, há uma passagem cataclísmica em que a
violência e a ansiedade se expressam com uma força e dissonância que
pressagia a música de um século depois, composta por volta da Primeira
Guerra Mundial e do colapso dos impérios europeus. A sinfonia nunca se
recupera totalmente desse trauma até o clímax “Ode à alegria”, mais de
meia hora depois.
Mesmo assim, a conclusão triunfante é conquistada com dificuldade,
com harmonias instáveis e um conjunto de variações que parecem estar
continuamente em busca de uma vitória final. Os momentos finais da
sinfonia, embora emocionantes e, em última análise, triunfantes, também
transmitem uma sensação de desespero maníaco.
Em suma, toda a sinfonia é uma exploração musical de luta, mas desta vez muito mais extrema e precária do que na Eroica
de 20 anos antes. Em contraste com muitos dos românticos que vieram
depois de Beethoven, a escala em que a música é escrita deixa claro que
não é apenas uma luta de uma pessoa solitária, mas uma luta que se
desenvolve em uma escala totalmente maior.
As palavras de Friedrich Schiller que se encontram no final tornam
isso ainda mais claro, com as declarações de que “Todos os homens serão
irmãos” e “Sejam abraçados, milhões! Esse beijo é para o mundo inteiro! ”
Esses sentimentos também estavam em conflito com um período que viu a
restauração da monarquia na França e a repressão do movimento
republicano em toda a Europa.
Um ícone de terra
Beethoven morreu em março de 1827. Estima-se que
cerca de 30 mil pessoas compareceram ao seu cortejo fúnebre em Viena,
uma cidade cuja população total era de apenas 200 mil na época. Logo
depois disso, a divinação se instalou. Monumentos a Beethoven, como o
erguido em sua cidade natal, Bonn, em 1845, ou a escultura de Max
Klinger para a famosa exposição secessionista de 1902, retratam-no no
estilo de um grande líder político ou um deus da antiguidade.
Escultura de Beethoven de Max Klinger para a famosa exposição secessionista de 1902. (Arquivo da secessão)
Ainda no início do século XX, os compositores lutavam para emergir de
sua sombra. O nome e a imagem de Beethoven passaram a representar muito
mais do que apenas sua própria vida e música: eles se tornaram um
avatar para a própria tradição clássica ocidental. Quando Chuck Berry
quis sinalizar a chegada iconoclasta do rock ‘n’ roll, ele deu a seu
single de sucesso o título “Roll Over Bach“.
E, no entanto, em vida, Beethoven era mal-cuidado e, às vezes, um
tanto desleixado quando se tratava de publicar suas obras e organizar
concertos de sua música. Ele é o primeiro grande compositor a nunca ter
aparecido em retratos de peruca e a ter ganhado a vida como músico
independente ao longo de sua carreira, em vez de servir à igreja ou a
uma família aristocrática.
O maior problema com a imagem “prometeica” de Beethoven é que ele
realmente lutou muito para produzir suas obras-primas. Está claro em
suas cartas e no testemunho de seus amigos que ele era um personagem
muito terreno. Isso também transparece em sua música, que muitas vezes é
definida por seu estilo heróico, mas que também nos fala em um nível
muito humano. Muitas de suas músicas expressam um tempo de luta entre a
esperança de uma mudança progressista radical e as forças da reação.
Esse era o mundo de Beethoven e, de muitas maneiras, também é o nosso.
O Grosse Fuge (em alemão:Groe Fuge, também conhecido em inglês como a Grande Fuga ou Grande Fuga), op. 133, é uma composição de movimento único para quarteto de cordas de Ludwig van Beethoven. Uma imensa dupla fuga, foi universalmente condenada pelos críticos da música contemporânea. Um revisor que escreveu para o Allgemeine musikalische Zeitung em 1826 descreveu a fuga como "incompreensível, como chinesa" e "uma confusão de Babel"
No entanto, a opinião crítica do trabalho aumentou de forma constante
desde o início do século XX e agora é considerada uma das maiores
conquistas de Beethoven. Igor Stravinsky descreveu-o como "uma peça de música absolutamente contemporânea que será contemporânea para sempre" (wikipédia)