No
século XIX, o Romantismo e as várias vagas revolucionárias na Europa
transformaram os teatros de ópera em palcos de agitação política. A censura era feroz, mas os compositores usavam alegorias históricas para transmitir mensagens de liberdade individual, resistência contra a tirania e soberania dos povos. [1, 2]
As
principais óperas do século XIX conhecidas pelas suas fortes mensagens
libertárias e revolucionárias dividem-se em três grandes focos: [1]
O Despertar da Liberdade (Início do Século)
- Fidelio (1805) – Ludwig van Beethoven
Embora estreada no limiar do século, a única ópera de Beethoven é o hino libertário por excelência. A história foca-se em Leonore, que se disfarça de homem (Fidelio) para salvar o seu marido, um prisioneiro político fechado ilegalmente numa masmorra por denunciar os abusos de um governador tirano. O coro dos prisioneiros ("O welche Lust"), ao sair por momentos para a luz do sol, é uma das metáforas mais puras de liberdade da história da música. [1, 2, 3] - Guillaume Tell (1829) – Gioachino Rossini
A última ópera de Rossini retrata a revolta do povo suíço contra a opressão cruel do Império Austríaco. O famoso herói Guilherme Tell personifica a rebeldia do homem comum que recusa curvar-se perante a autoridade injusta, culminando num grito coletivo de independência e liberdade. [1, 2]
O Risorgimento e a Luta contra a Opressão (Itália)
- Nabucco (1842) – Giuseppe Verdi
A figura de Verdi confunde-se com a própria luta pela unificação e libertação italiana do domínio estrangeiro. Em Nabucco, o cativeiro dos hebreus na Babilónia serviu de espelho perfeito para o público italiano sob ocupação austríaca. O coro "Va, pensiero" tornou-se um hino revolucionário clandestino cantado nas ruas. [1, 2] - I Puritani (1835) – Vincenzo Bellini
Passada durante a Guerra Civil Inglesa, esta obra-prima do bel canto inclui o famoso dueto revolucionário "Suoni la tromba". A frase cantada a plenos pulmões — "Bello è affrontar la morte gridando: libertà!" (Belo é enfrentar a morte gritando: liberdade!) — provocava frequentes manifestações patrióticas e anti-monárquicas nas salas de espetáculo. [1, 2, 3]
A Liberdade Individual e Social (Finais do Século)
- Carmen (1875) – Georges Bizet
Aqui, a mensagem libertária foca-se na autonomia do indivíduo e na quebra de normas sociais sufocantes. Carmen recusa submeter-se às regras do Estado, da igreja ou dos homens. Na sua famosa ária de entrada, ela avisa: "L'amour est um oiseau rebelle" (O amor é um pássaro rebelde) e proclama que jamais se deixará aprisionar, preferindo a morte à perda da sua liberdade pessoal. [1, 2] - Tosca (1900) – Giacomo Puccini
Estreada no fecho do século, a ópera desenrola-se no ambiente de repressão policial em Roma. O vilão Scarpia representa o sadismo do Estado absolutista, enquanto o pintor Cavaradossi é um simpatizante dos ideais liberais republicanos. O seu grito de "Vittoria! Vittoria!" ao saber da derrota das forças absolutistas na Batalha de Marengo é um dos momentos politicamente mais viscerais da ópera de finais de século
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