domingo, 13 de outubro de 2019


A Ditadura Fascista e os caminhos da Arte em Portugal

Quando a extrema-direita e os saudosistas do salazarismo (incluindo, assuma-o ou não, o presidente PS da CM de Santa Comba Dão) ressurgem com crescente agressividade, recordar o que foi o regime fascista em Portugal é de novo obrigatório. Entre as mais corajosas e combativas frentes da resistência conta-se a dos intelectuais antifascistas, que nunca permitiu espaço de manobra e de credibilidade às tentativas de captação do regime. Esse combate dos intelectuais permanece inteiramente actual.
Falar dos caminhos da Arte em Portugal durante o longo e negro período dos 48 anos da ditadura fascista, derrubada pelos capitães de Abril em 1974, exige que, em primeiro lugar, se entendam as características desse regime opressor.
Muito sinteticamente: um golpe militar, em 28 de Maio de 1926, apoiado pelas forças mais reaccionárias, instaurou um Governo de Ditadura Militar, que rapidamente evoluiu para uma Ditadura Fascista, com a dissolução do Parlamento, a proibição de todos os partidos políticos, a criação de uma Censura sobre os jornais, livros e todos os meios de comunicação, a instauração de uma polícia política feroz contra todos os adversários do regime e a depuração do aparelho militar, com expulsão e prisões de militares fieis ao regime republicano. São estes os pilares do novo regime.
Oliveira Salazar tornou-se chefe do Governo em 1932, só depois de lhe estarem garantidas as condições para liquidar todos os que se lhe poderiam opor. Salazar estava ligado e tinha o apoio dos regimes fascistas de Mussolini, instaurado em Itália desde 1922, e de Hitler, que acabara de ser nomeado Chanceler em 1932. Eles foram os modelos seguidos por Salazar, no plano político e também de propaganda.
Foi seguindo esses exemplos que Salazar criou, em 1933, o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), para o qual nomeou António Ferro, um intelectual que tinha passado em 1927 pela direcção da Revista Orpheu dos modernistas portugueses e que depois publicou grandes elogios àcerca dos regimes de Mussolini e de Hitler, no livro ”Viagens à volta de duas ditaduras”, e escreveu uma biografia glorificando Salazar, editada em Itália, o que lhe garantiu a nomeação e a confiança deste, para dirigir a chamada “política do espírito”: designação do ditador à sua política de captação dos intelectuais, subordinada aos objectivos do regime.
O momento culminante deste trabalho de propaganda política surgiu em 1940, com a inauguração da Exposição do Mundo Português, ligada a um conjunto de Obras Públicas sob orientação do engenheiro Duarte Pacheco, e, no plano artístico e propagandístico, sob a direcção de António Ferro.
Salazar proclamou a grandiosidade do regime, afirmando que ”esse ano de 1940 seria perpetuado no dobrar dos tempos e na imaginação dos vindouros”.
A imponência simbólica da Exposição de Belém contou com a captação de numerosos arquitectos e artistas plásticos, particularmente os adeptos do regime, como Pardal Monteiro, autor das gares marítimas de Lisboa, Veloso Reis, do Museu de Arte Popular, que permanece ainda, o arquitecto Cottinelli Telmo e o escultor Leopoldo de Almeida, responsáveis, entre outras obras, pelo Padrão dos Descobrimentos, que se mantém junto ao rio.
Na Exposição, foi glorificado o Império Colonial português, com aldeias africanas reconstruídas e habitadas pelos povos das colónias, exibidos ali como animais num Jardim Zoológico.
Durante a Exposição, foram encenados grandiosos e sumptuosos desfiles históricos, da autoria de Leitão de Barros.
Muitos escultores executaram obras para a Exposição, como Francisco Franco, Barata Feio e também Canto da Maia, António Duarte e outros.
Mas os artistas que António Ferro mais elogiava e pretendia que fossem um exemplo a seguir pelos escultores portugueses, como um receituário, eram Leopoldo de Almeida e Barata Feio, que marcavam os limites do academismo.
Pintores como Almada Negreiros e sua mulher Sara Afonso, Bernardo Marques e Eduardo Viana, embora tenham participado na Exposição de Belém e expusessem nos salões do SPN, mantinham maior independência.
É necessário esclarecer que a “Exposição do Mundo Português” ocorreu em 1940, quando Hitler e Mussolini, aliados entre si e amigos de Salazar, estavam no seu apogeu, tendo ajudado militarmente a vitória de Franco contra a República Espanhola e iniciado, em 1939, a II Guerra Mundial, em que, na altura, obtinham grandes vitórias.
A derrota do nazi-fascismo, particularmente graças aos êxitos militares do Exército Soviético, culminando com a vitória das forças aliadas em Maio de 1945, determinou a viragem na correlação de forças mundial e fez tremer Salazar, cujos aliados tinham sido vencidos.
As enormes manifestações com que, em Portugal, celebrámos esta vitória, deram um enorme impulso às forças da Oposição e permitiram a criação do MUNAF e o MUD Juvenil, sob o impulso do Partido Comunista Português.
Nessa onda de unidade das forças antifascistas, os intelectuais progressistas tiveram um importante papel. Um papel que vinham tendo há muito, embora discretamente. É necessário não esquecer que a génese do movimento antifascista a nível cultural, inspirado pela teoria marxista do materialismo histórico, vinha desde os meados dos anos trinta a ser divulgada por jornais como “O Diabo”, de que um dos directores foi o advogado Campos Lima (bem conhecido em Portimão), “O Sol Nascente” e a revista “Vértice”.
Foram as importantes polémicas literárias desenvolvidas por esses periódicos que originaram o nascimento do neo-realismo na literatura, em defesa de uma “arte útil”, virada para os problemas reais da sociedade.
Foi uma nova geração de escritores que então surgiu, exigindo uma maior intervenção cívica e cultural dos escritores e artistas, contrária aos ideais do regime fascista.
Destacaram-se, nesta frente, Alves Redol (Gaibéus-1939); Manuel da Fonseca (Rosa dos Ventos-1940); Soeiro Pereira Gomes (Esteiros-1941) e Carlos de Oliveira (Uma abelha na chuva-1953).
A estes escritores, juntaram-se outros, como José Cardoso Pires, Ilse Losa, Urbano Tavares Rodrigues, Augusto Abelaira e Sttau Monteiro, que se centraram também numa mais ampla preocupação, não só quanto ao conteúdo, mas também quanto à forma.
Aliás, foi a batalha pelo conteúdo (sem desprezar a forma), que caracterizou este período, em que surgiu com força o movimento neo-realista português.
Logo a seguir à vitória contra o nazi-fascismo, com o temporário recuo de Salazar e o crescendo das forças da Oposição, e na sequência do já desenvolvido movimento literário do neo-realismo, os artistas plásticos progressistas ganharam força para contestar as imposições políticas de António Ferro, que lhes fechava as portas das únicas grandes salas de exposições, que eram as do SPN (que depois da guerra mudou de nome para Secretariado Nacional de Informação, SNI) e os Salões da Sociedade Nacional de Belas Artes, em que era imposto um estreito academismo.
Tratou-se então de conquistar, por meio de um amplo trabalho unitário, uma direcção aberta à modernidade para a SNBA, que dispunha de amplos salões de exposição, até então fechados a artistas que não fossem adeptos do regime, e académicos quanto ao estilo.
Foi graças a um amplo movimento iniciado pelos alunos da ESBAL e por outros artistas não adeptos ao regime, que se conseguiu eleger uma direcção mais aberta e democrática para a SNBA, presidida pelo escultor Anjos Teixeira.
Foi a partir desta vitória, que, em 1946, tiveram inicio, na SNBA, as Exposições Gerais de Artes Plásticas (EGAP), que, durante dez anos, até 1956, constituíram não só um verdadeiro acto de confrontação cultural com o regime fascista, mas também um real incentivo para a criatividade livre e descomprometida, particularmente dos jovens artistas, que até ali não tinham tido hipóteses de expor as suas obras.
Os dez anos de existência das EGAP não se passaram sem ataques da repressão. Uma das exposições foi encerrada pela PIDE depois da abertura e vários quadros retirados.
Mas os artistas resistiram e as EGAP constituíram uma abertura e um campo adequado para a apresentação de manifestações artísticas que lutavam pela conquista da expressão livre, pelo que, a cada artista, interessava exprimir como fundo e forma e, em última análise, contribuindo para fomentar uma renovação do panorama artístico português.
Foi assim que, nas EGAP surgiram, com a força e pujança da juventude, novas camadas de artistas, que não tinham acolhimento nos Salões do SNI de António Ferro. Esses jovens artistas rebeldes iriam afirmar-se no futuro como artistas marcantes na Arte Portuguesa. Entre eles Júlio Pomar, cujo mural no cinema Batalha do Porto foi mandado tapar pela PIDE, por representar cenas populares das festas do S. João no Porto (restam fotos), Lima de Freitas, Querubim Lapa (natural de Portimão), os escultores Maria Barreira, Vasco da Conceição, e ainda José Dias Coelho, e Jorge Vieira, com o seu projecto de monumento ao prisioneiro político desconhecido (já executado em Beja).
Muitos outros artistas, de renome, iniciaram-se nessas exposições, como os pintores Rolando Sá Nogueira, João Hogan, Rogério Ribeiro, Maria Keil, e os arquitectos Sena da Silva, Castro Rodrigues, Hernani Gandra e P.Cid.
Ficou claro que, se o neo-realismo adquiriu maior visibilidade a partir da EGAP, e nelas predominou, a verdade é que estas apresentavam uma pluralidade de opções estéticas decorrente dos objectivos de abrangência e de unidade política dos seus organizadores. Nelas participaram, enquanto o quiseram, surrealistas e artistas abstractos.
A própria evolução daqueles que, tendo sido cultores da prática e da reflexão plástica do neo-realismo, passaram para outras opções estéticas, comprovam que ali tinham ganho o poderoso impulso do inconformismo e da luta pelo novo, que os catapultou para novas experiências, como Júlio Pomar, Lima de Freitas, Querubim Lapa e Rogério Ribeiro.
Um aspecto pouco conhecido é que as Exposições Gerais de Artes Plásticas acolheram nos seus salões, pela primeira vez, a fotografia como expressão artística, pois, até ali, só era exposta nos foto-clubes e exposições fotográficas de amadores. Nelas participaram, com fotografias, Victor Palla (depois publicadas no livro “Lisboa, cidade triste e alegre”), o arquitecto Keil do Amaral e Augusto Cabrita, o grande fotógrafo de temática neo-realista.
Também pela primeira vez, as EGAP apresentaram a gravura, nas suas várias modalidades, dentro do critério de que a gravura é uma das formas de arte que mais facilita a divulgação ampla entre as camadas populares.
Na Escola Superior de Belas Artes, não se ensinava então a gravura, e foi a partir do incremento dado pelas EGAP que artistas que nelas expunham criaram a Cooperativa de Gravura, em 1956, que deu enorme incremento a esta forma de arte.
Com a criação da Fundação Gulbenkian, em 1956, sem dúvida que maiores facilidades se abriram aos artistas portugueses.
Mas a verdade é que a frente dos intelectuais antifascistas nunca permitiu espaço de manobra e de credibilidade às tentativas de captação do regime fascista.
E na revolução do 25 de Abril, participaram com a sua arte nos momentos exaltantes da vitória do MFA. Como fizeram Cipriano Dourado, com as suas gravuras, e o grande artista João Abel Manta, com os seus cartazes.

Nota: Esta é a palestra proferida por Margarida Tengarrinha, membro do Partido Comunista Português, Resistente Anti Fascista, ex deputada à Assembleia da República após o 25 de Abril e Artista Plástica, na segunda-feira, dia 22 de Abril, na tertúlia sobre “A Arte antes e depois do 25 de Abril de 74”, que teve lugar no Café-Concerto do Teatro Municipal de Portimão.
A autora escreve segundo o anterior Acordo Ortográfico.
Fonte: https://www.sulinformacao.pt/2019/04/a-ditadura-fascista-e-os-caminhos-da-arte-em-portugal/?fbclid=IwAR31sSVvWV5bs20opFldEhX8oAeHlJ-TPyKf_xxucguo4ua0_r-Q7zkVxW8

sábado, 14 de setembro de 2019

Santiago, Itália: Nanni Moretti não quis ser imparcial

Moretti mostra desde a alegria dos tempos de vitória de Allende, aos momentos de pavor, tortura e morte que se seguiram ao golpe militar.

Não sou imparcial“, diz Nanni Moretti a um militar encarcerado por homicídio e rapto nos tempos da ditadura de Augusto Pinochet neste Santiago, Itália, documentário que apesar de fugir ao cinema militante clássico invade os ecrãs com uma mensagem e montagem bastante claras quanto à posição do cineasta e a natureza do golpe de estado perpetrado no Chile a 11 de setembro de 1973.
Construído num misto de entrevistas com imagens de arquivo e muita documentação centrada no papel da embaixada de Itália em Santiago nessa Era (uma verdadeira “arca de noé” para os dissidentes políticos do regime de Salvador Allende), Santiago, Italia faz uma homenagem, não apenas às vítimas imediatas do golpe, os chilenos, mas igualmente aos dois jovens diplomatas italianos que abriram as portas da embaixada para refugiar todos os que tentavam escapar a esse novo regime ditatorial. Para Moretti, esses dois diplomatas – Piero de Masi e Roberto Toscano – foram um “exemplo de como os indivíduos podem fazer a diferença” na sociedade, especialmente tratando-se de duas pessoas da sua geração, da sua juventude.
Esta mesmo Itália, que agora expulsa e deixa os refugiados à deriva no Mediterrâneo (encontra-se subentendido no timing de lançamento deste documentário uma crítica ao regime atual), agiu na época com um grande sentido de humanismo, até porque se sentia no país, especialmente nos movimentos de esquerda, que aquele golpe era o fim de um sonho: pela primeira vez um governo de esquerda chegava ao governo através de eleições livres e não pelas armas, mas de nada valeu, pois Pinochet atropelou esse sonho.
São muitas as vozes que o italiano reúne em 80 minutos documentais que recorrem muitas vezes a imagens de arquivo. De jornalistas aos diplomatas, passando por muitas outras áreas, onde não faltam realizadores; Moretti recolhe depoimentos que vão desde a alegria dos tempos de vitória de Allende, aos momentos de pavor, tortura e morte que se seguiram ao golpe militar. Em comum em quase todas as vozes de quem conta as histórias percebe-se o sofrimento daqueles dias e o medo que se havia instalado. O cineasta Miguel Littín é um desses testemunhos, não tendo dúvidas que Allende foi assassinado, ao contrário de outros, que colocam a hipótese de ter cometido suicídio.

Littín é, aliás, um dos cineastas chilenos mais ativos a contar esse período negro da história do seu país, tendo viajado clandestinamente durante a ditadura e filmado centenas de horas de material documental (experiência relatada em livro por Gabriel Garcia Marquez), para além de, mais recentemente, ter assinado obras como Dawson – Isla 10, que aborda o encarceramento numa ilha remota dos mais próximos do regime de Salvador Allende, ou Allende en su Laberinto, sobre o golpe e a transformação do Palácio de La Moneda no último reduto da democracia chilena.
Mas como se entendeu no primeiro parágrafo, Moretti dá também tempo de antena aos golpistas, bem definidos por si como os vilões: dois militares do regime Pinochet com posições, visões e experiências diferentes sobre as razões do golpe militar. Não são testemunhos suficientes – nem o tempo dedicado – para poder entender com maior profundidade as suas intenções reais e um fio condutor do pensamento que explique as suas ações, mas como Moretti disse, ele não está aqui para imparcialidades. Mas quem está?
Crítica de Jorge Pereira
(Nota: este texto foi originalmente publicado no c7nema, um dos mais antigos sites de informação, opinião e crítica de cinema em Portugal, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)
Com a devida vénia

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Arte povera

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Arte Povera)
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Pino Pascali, Trappola (1968)
Arte povera (pronuncia-se arte póvera; em português "arte pobre") foi uma expressão criada pelo crítico e curador italiano Germano Celant,[1] para referir-se ao movimento artístico que se desenvolveu originalmente na segunda metade da década de 1960 na Itália. Os seus adeptos utilizavam materiais de pintura (ou outras expressões plásticas não convencionais, como por exemplo areia, madeira, sacos, jornais, cordas, feltro, terra e trapos) com o intuito de "empobrecer" a obra de arte, reduzindo os seus artifícios e eliminando barreiras entre a Arte e o quotidiano das sociedades.[2]
O movimento artístico desenvolveu-se ao longo da década de 1970, período em que os artistas voltaram a sua atenção para as temáticas da natureza e seus derivados, rompendo com os processos industriais e revelando a sua critica ao empobrecimento de uma sociedade guiada pelo acúmulo de riquezas materiais.[3]

Artistas ligados ao movimento

Referências


  • Dempsey, Amy. Estilos, escolas e movimentos: Guia enciclopédico da arte moderna. Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 166-168 p.

  • Renata da Silva Moura (2002). «Uma experiência da Arte Povera». PUC-Rio. Consultado em 7 de janeiro de 2015. Arquivado do original em 11 de janeiro de 2015

    1. Infopédia, Arte povera, acessado em 7 de janeiro de 2015.

    Ver também

    Bibliografia

    Ligações externas



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    Jannis Kounellis morreu em 2017

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    quarta-feira, 11 de setembro de 2019

    1924-2019

    Morreu o fotógrafo Robert Frank

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    O fotógrafo Robert Frank, autor do seminal livro "Os americanos" e um dos mais influentes fotógrafos do século XX, morreu esta segunda-feira, foi hoje anunciado.
    Frank tinha 94 anos. A notícia foi dada pelo jornal "The New York Times", citando o responsável pela Pace-MacGill Gallery, de Manhattan, que representava o artista de origem suíça que residia há décadas no Inverness, Nova Escócia, Canadá.
    Robert Frank nasceu em Zurique, na Suíça, em 1924, e chegou a Nova Iorque com 23 anos. Foi "Os americanos", um livro de fotografia que resultou de viagens na América dos anos 50, e publicado em 1959, que o catapultou para a História da fotografia moderna.
    As suas imagens rasgaram o cânone da fotografia documental e jornalística, nota o "The New York Times", na altura definida por fotos bem iluminadas, melhor definidas, resultantes de uma formulação clássica da composição. Frank desafiou essa compostura com os seus retratos desprovidos de planeamento visual, crus e emocionais, muitas vezes nem sequer bem focados, que lhe garantiram um lugar de destaque na fotografia do século passado, mas também lhe valeram, inicialmente, muitas críticas.
    As fotos de uma América real, em toda a sua plenitude geográfica e social, foram recebidas como sendo "displicentes" - descrição da revista "Popular Photography", que acusou Frank de odiar o país que o adotou. Frank teria destruído a imagem do país idílico que se tinha elevado sobre o Mundo do pós-guerra, os EUA da TV que nascia e influenciava o modo de vida da família de modelo perfeito: os Estados Unidos do capitalismo uniforme e sem falhas no tecido social.
    "Os americanos" era, por isso, um trabalho contra a conformidade que encontrou uma conexão com Jack Kerouac (que lhe prefaciou a obra), autor de "Pela estrada fora", testemunho máximo da geração "beatnik" que se lançou sobre a terra americana para lhe descobrir os homens rugosos, as tensões raciais ou as comunidades alienadas, numa desconstrução do sonho e descoberta da dissonância de classes. Uma decomposição que, para além de social, era também técnica e cultural.
    Mas a obra pioneira de Robert Frank acabou por ser consagrada. Primeiro, pela influência na abordagem à fotografia de documentário, uma estética do imediato imponderado que dura até hoje. E, depois, pela legitimação artística que lhe foi atribuída, com exposições e análises que o colocaram no panteão das obras que melhor refletem o país e o povo americanos.
    O livro foi seguramente o pináculo da sua obra artística, que depois se concentrou no cinema, ainda que sem encontrar o mesmo tipo de reconhecimento.
    Frank era um cético militante: "A minha mãe perguntou-me: 'Porque é que tiras sempre fotografias aos pobres?' Não era verdade, mas a minha simpatia eram dirigidas para as pessoas em dificuldades. Também havia a minha desconfiança em relação às pessoas que faziam as regras", declarou em 2015.
    Colaborador regular como fotógrafo de revistas como Harper's Bazaar, Fortune, Life, Look, McCall's, Vogue e Ladies Home Journal, Robert Frank passou depois a interessar-se por cinema, criando clássicos da subcultura norte-americana como "Pull My Daisy" (1959), o seu primeiro filme, um dos títulos pioneiros do cinema independente norte-americano, centrado na Beat Generation, com participações de autores como Allen Ginsberg e Kerouac, que escreveu o comentário irónico, dito em 'off'.
    A Cinemateca Portuguesa tem incluído na sua programação diversos filmes do fotógrafo-cineasta. Assim aconteceu em 2018, durante o ciclo "24 Imagens", dedicado a cinema e fotografia, com a exibição de algumas das suas obras iniciais.
    Em 2016, a Cinemateca apresentou "Don't Blink, Robert Frank", documentário dirigido por Laura Israel, que editou os filmes de Robert Frank desde os anos de 1980/1990, sobre todo o seu percurso.
    "Harry Smith at the Breslin Hotel" (2018), "Cool Man in a Golden Age" (2010), sobre o artista Alfred Leslie, e "True Story" (2004), com instantâneos de vida familiar em casas de Nova Iorque e da Nova Escócia, são alguns dos documentários mais recentes de Robert Frank.
    *com Lusa