PAUL GAUGUIN


Sylvia Plath
Mad Girl’s Love Song*
“Fecho os olhos e o mundo inteiro cai morto
Abro as pálpebras e tudo renasce de novo
(Eu acho que te imaginei dentro da minha cabeça.)As estrelas dançam em azul e vermelho,
Um vazio arbitrário galopa cá dentro:
Fecho os olhos e o mundo inteiro cai mortoSonhei que me enfeitiçavas até à tua cama
Cantando de forma lunática, beijavas-me insanamente
(Eu acho que te imaginei dentro da minha cabeça.)Deus cai do céu, o fogo do inferno desaparece
Serafins e homens de Satã fogem:
Fecho os olhos e o mundo inteiro cai mortoGostei de ti da mesma forma que tu disseste gostar
Mas, entretanto, cresci e esqueci o teu nome
(Eu acho que te imaginei dentro da minha cabeça)Em vez de ti, deveria ter amado uma ave mitológica
Pelo menos, quando a primavera chega, elas voltam sempre.
Fecho os olhos e o mundo inteiro cai morto
(Eu acho que te imaginei dentro da minha cabeça)”Mad Girl’s Love Song*
“Fecho os olhos e o mundo inteiro cai morto
Abro as pálpebras e tudo renasce de novo
(Eu acho que te imaginei dentro da minha cabeça.)As estrelas dançam em azul e vermelho,
Um vazio arbitrário galopa cá dentro:
Fecho os olhos e o mundo inteiro cai mortoSonhei que me enfeitiçavas até à tua cama
Cantando de forma lunática, beijavas-me insanamente
(Eu acho que te imaginei dentro da minha cabeça.)Deus cai do céu, o fogo do inferno desaparece
Serafins e homens de Satã fogem:
Fecho os olhos e o mundo inteiro cai mortoGostei de ti da mesma forma que tu disseste gostar
Mas, entretanto, cresci e esqueci o teu nome
(Eu acho que te imaginei dentro da minha cabeça)Em vez de ti, deveria ter amado uma ave mitológica
Pelo menos, quando a primavera chega, elas voltam sempre.
Fecho os olhos e o mundo inteiro cai morto
(Eu acho que te imaginei dentro da minha cabeça)”
Poeta das maiores foi uma voz corajosa na década de cinquenta, década reacionária e consumista nos EUA. A Poeta abriu o caminho à Contra Cultura dos anos sessenta. A relação tumultuosa com um Poeta infiel contribuiu, julgam alguns, para o seu suicídio, ou, pelo menos, agravou a sua depressão crónica. Uma voz singular, de uma melancolia infinita.
Tradução e seleção: André Caramuru Aubert
Pastoral symphony Nº 1
Two finger Arrangement
Far thunder of the coming sun; ablaze
At horizon that wild green rush bursts with the dawn;
Spring winds run in the valleys with the days,
The choking claw-down grip from their hearts torn
In a tossing flame of flowers their quick feet run;
While the white blizzards shriek in the North heaven,
In terror from the exulting season driven,
Ride their gray clanging seas out of the sun;
Polar eagle and owl scream, and retire
In their wrecked storms nurtured, dreading the warm light;
Dizzy with ecstasy for the warm light
Birds dance from the soaring sun, nurtured in fire,
Dazing the vales of the flowered time with songs:
And shall the song and dance of the singers go?
When from the sun’s frenzy and cruel snow
That nurtured them, hung murderous in the wind,
The bearded ravens gather; sudden their throngs
Flock, blotting day, and swirling darkly and roaring, fall
Bringing night.
Sinfonia pastoral Nº 1
Arranjo para dois dedos
Trovão distante do sol que chega; em chamas
No horizonte aquele verde junco irrompe com a aurora;
Ventos primaveris viajam pelos vales ao longo dos dias,
As garras apertadas de seus corações dilacerados, e
Sobre flores em chamas seus pés ligeiros correm;
Enquanto as brancas nevascas berram nos céus do norte,
Aterrorizadas pela exultante estação que avança,
Conduzindo seus ressoantes e cinzentos céus para longe do sol;
Gritam o urso polar e a coruja, recolhendo-se
Para suas ruinosas e bem nutridas tempestades, com medo da luz cálida;
Extasiados e apalermados pela luz cálida,
Pássaros dançam ao sol que se eleva, nutridos pelo fogo,
Atordoando com suas canções os vales floridos:
E irão também as canções e as danças dos cantores?
Quando, do frenesi do sol e da neve cruel
que os nutriram, dependurados no vento os mortíferos e
Barbados corvos se reunirem; e de repente seus ruidosos
Rebanhos, apagando o dia, rugindo e rodopiando, sinistros, caírem
trazendo a noite.
…
Snowdrop
Now is the globe shrunk tight
Round the mouse’s dulled wintering heart.
Weasel and crow, as if moulded in brass,
Move through an outer darkness
Not in their right minds,
With the other deaths. She, too, pursues her ends,
Brutal as the stars of this mouth,
Her pale head heavy as metal.
Floco de neve
Agora é o globo muito encolhido
Em volta do invernal coração do camundongo
Doninhas e corvos, como se moldados em bronze,
Movem-se na escuridão lá de fora
Não muito preocupadas
Com as outras mortes. Ela, também, persegue seus fins,
Brutais como as estrelas desta boca,
Sua cabeça, pálida, pesada como metal.
…
Still Life
Outcrop stone is miserly
With the wind. Hoarding its nothings,
Letting wind run through its fingers,
It pretends to be dead of lack.
Even its grimace is empty,
Warted with quartz pebbles from the sea’s womb.
It thinks it pays no rent,
Expansive in the sun’s summerly reckoning.
Under rain, it gleams exultation blackly
As if receiving interest.
Similarly, it bears the snow well.
Wakeful and missing little and landmarking
The fly-like dance of the planets,
The landscape moving in sleep,
It expects to be in at the finish.
Being ignorant of this other, this harebell,
That trembles, as under threats of death,
In the summer turf’s heat-rise,
And in which — filling veins
Any known name of blue would bruise
Out of existence — sleeps, recovering,
The maker of the sea.
Natureza morta
A pedra na superfície é avarenta
Com o vento. Acumulando seus nadas,
Deixando que o vento corra por entre seus dedos,
Ela finge estar morta de fome.
Até mesmo suas expressões são vazias,
Nauseada com os seixos de quartzo do ventre do mar.
Ela pensa que nem aluguel paga,
Expansiva na contabilidade do sol de verão.
Sob a chuva, ela cintila exultante, negra,
Como se recebesse juros.
E da mesma maneira lida bem com a neve.
Desperta, pouco deixando escapar e marcando
A dança ao estilo das moscas dos planetas,
A paisagem se movendo enquanto dorme,
Ela espera estar lá, no final.
Sem dar atenção à outra, à campainha,
Que treme, como se ameaçada pela morte
No calor crescente da relva de verão,
Na qual — preenchendo as veias
Qualquer nome que se desse à melancolia, feriria
Para fora da existência — dormindo, curando,
O criador do mar.
…
Public bar T.V.
On a flaked ridge of the desert
Outriders have found foul water. They say nothing;
With the cactus and the petrified tree
Crouch numbed by a wind howling all
Visible horizons equally empty.
The wind brings dust and nothing
Of the wives, the children, the grandmothers
With the ancestral bones, who months ago
Left the last river,
Coming at the pace of oxen.
TV de bar
Numa encosta escarpada do deserto
Exploradores encontraram água suja. Não falam nada;
Com o cacto e a árvore petrificada
Agachados e entorpecidos pelo vento uivando e todos
Os horizontes visíveis igualmente vazios.
O vento traz poeira e nada
Das esposas, dos filhos, das avós
Que com seus ossos ancestrais, dois meses atrás
Deixaram o último rio,
Vindo a passos de boi.
…
Fighting for Jerusalem
The man who seems to be dead
With Buddha in his smile
With Jesus in his stretched out arms
With Mahomet in his humbled forehead
With his feet in hell
With his hands in heaven
With his back to the earth
Is escorted
To his eternal reward
By singing legions
Of what seem to be flies
Guerreando por Jerusalém
O homem que parece estar morto
Com Buda em seu sorriso
Com Jesus em seus braços estendidos
Com Maomé em sua testa humilde
Com seus pés no inferno
Com suas mãos no céu
Com suas costas na terra
É escoltado
Para a eterna recompensa
Por legiões cantando
Que parecem ser moscas
…
The door
Out under the sun stands a body.
It is growth of the solid world.
It is part of the world’s earthen wall.
The earth’s plants — such as the genitals
And the flowerless navel
Live in its crevices.
Also, some of the earth’s creatures — such as the mouth.
All are rooted in earth, or eat earth, earthy,
Thickening the wall.
Only there is a doorway in the wall —
A black doorway:
The eye’s pupil.
Through that doorway came Crow.
Flying from sun to sun, he found this home.
A porta
Lá fora sob o sol há um corpo.
Do mundo sólido crescido.
Ele é parte da parede de terra do mundo.
As plantas da terra — como os genitais
E o umbigo sem flores
Vivem em suas fendas.
E também algumas das criaturas da terra — como a boca.
Todas são enraizadas na terra, ou comem terra, terrena,
Engrossando a parede.
Mas há uma soleira na parede —
Uma soleira negra:
A pupila do olho.
Através daquela soleira veio o Corvo.
Voando de sol a sol ele encontrou este lar.
…
Chlorophyl
She sent him a blade of grass, but no word.
Inside it
The witchy doll, soaked in Dior.
Inside it
The gravestone. Inside it
A sample of her own ashes. Inside it
Her only daughter’s
Otherwise non-existent smile.
Inside it, the keys
Of a sycamore.
Inside those, falling
The keys
Of a sycamore. Inside those,
Falling and turning in air the
Keys
Of a sycamore.
Clorofila
Ela lhe enviou uma lâmina de relva, sem nada dizer.
Dentro dela
A boneca bruxa, encharcada em Dior.
Dentro dela
A lápide. Dentro dela
Uma amostra de suas próprias cinzas. Dentro dela
O sorriso de sua única
Filha, fora isso, inexistente.
Dentro dele, as chaves
De um plátano.
Dentro delas, caindo
As chaves
De um plátano. Dentro delas,
Caindo e girando no ar, as
Chaves
De um plátano.
…
Visitation
All night the river’s twists
Bit each other’s tails, in happy play.
Suddenly a dark other
Twisted among them.
And a cry, half sky, half bird,
Slithered over roots.
A star
Fleetingly etched it.
Dawn
Puzzles a sunk branch under deep tremblings.
Nettles will not tell.
Who shall say
That the river
Crawled out of the river, and whistled,
And was answered by another river?
A strange tree
In the water of life —
Sheds these pad-clusters on mud-margins
One dawn in a year, her eeriest flower.
Visita
A noite toda os rios se contorcem
Mordendo as caudas um do outro, em alegre brincadeira.
De repente um outro, escuro
Se contorce entre eles.
E um grito, meio céu, meio pássaro,
Desliza sobre as raízes.
Uma estrela
Fugaz o causticou.
A aurora
Atrapalha um galho submerso em profundos tremores.
As urtigas nada falarão.
Quem dirá
Que o rio
Rastejou para fora do rio, e assobiou,
Recebendo una resposta de outro rio?
Uma estranha árvore
É a água da vida —
Que arremessa buquês nas margens barrentas
Uma aurora por ano, a sua mais sinistra flor.
O surrealismo ou sobrerrealismo[1] foi um movimento artístico e literário nascido em Paris na década de 1920, inserido no contexto das vanguardas que viriam a definir o modernismo no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais. Reúne artistas anteriormente ligados ao dadaísmo ganhando dimensão mundial. Fortemente influenciado pela Psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939), o surrealismo enfatiza o papel do inconsciente na atividade criativa. Um dos seus objetivos foi produzir uma arte que, segundo o movimento, estava sendo destruída pelo racionalismo. O poeta e crítico André Breton (1896-1966) era o principal líder e mentor deste movimento.

A palavra surrealismo supõe-se ter sido criada em 1917 pelo poeta Guillaume Apollinaire (1886-1918), jovem artista ligado ao cubismo, e autor da peça teatral As Mamas de Tirésias (1917), considerada uma precursora do movimento.
Um dos principais manifestos do movimento é o Manifesto Surrealista, de 1924. Além de Breton, seus representantes mais conhecidos são Antonin Artaud, no teatro, Luis Buñuel, no cinema, e Max Ernst, René Magritte e Salvador Dalí, no campo das artes plásticas.
Segundo Michael Löwy, o surrealismo é um movimento subversivo de reencantamento da vida social ou um estudo antropológico da liberdade. Esse movimento se baseia em uma visão independente da dialética hegeliana e marxista. Assim, ele mantém um impulso libertário original e não deve ser entendido como uma escola literária modernista ou um conjunto de artistas com uma perspectiva em comum.[2]
Dentre as características deste estilo estão a combinação do representativo, do abstrato, do irreal e do inconsciente. Entre muitas das suas metodologias estão a colagem e a escrita automática. Segundo os surrealistas, a arte deve libertar-se das exigências da lógica e da razão e ir além da consciência cotidiana, procurando expressar o mundo do inconsciente e dos sonhos.
No manifesto e nos textos escritos posteriores, os surrealistas rejeitam a chamada ditadura da razão e valores burgueses como pátria, família, religião, trabalho e honra. Humor, sonho e a contra-lógica são recursos a serem utilizados para libertar o homem da existência utilitária. Segundo esta nova ordem, as ideias de "bom gosto" e "decoro" devem ser subvertidas.
Mais do que um movimento estético, o surrealismo é uma maneira de enxergar o mundo, uma vanguarda artística que transcende a arte. Busca restaurar os poderes da imaginação, castrados pelos limites do utilitarismo da sociedade burguesa, e superar a contradição entre objetividade e subjetividade, tentando consagrar uma poética da alucinação, de ampliação da consciência. Breton declara no Primeiro Manifesto sua crença na possibilidade de reduzir dois estados aparentemente tão contraditórios, sonho e realidade, “a uma espécie de realidade absoluta, de sobre-realidade [surrealité]”.
A escrita automática procura buscar o impulso criativo artístico através do acaso e do fluxo de consciência despejado sobre a obra. Procura-se escrever no momento, sem planejamento, de preferência como uma atividade coletiva que vai se completando. Uma pessoa escreve algo num papel e outro completa, mas não de maneira lógica, passando a outro que dá sequência. O filme Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, por exemplo, é formado por partes de um sonho de Salvador Dalí e outra parte do próprio diretor, sem necessariamente objetivar-se uma lógica consciente e de entendimento, mas um discurso inconsciente que procura dialogar com outras leituras da realidade.
Esse e outros métodos, no entanto, não eram exercícios gratuitos de caráter estético, mas, como disse Octavio Paz, seu propósito era subversivo: abolir esta realidade que uma sociedade vacilante nos impôs como a única verdadeira. Para além de criar uma arte nova, criar um homem novo.
Grande parte da estética surrealista apoia-se na concepção de imagem poética de Pierre Reverdy, segundo a qual a imagem nasce não da comparação, mas da aproximação entre duas realidades afastadas. E quanto mais distantes forem as realidades aproximadas, mais forte será a imagem poética. Reverente distancia mais ainda o mundo captado pelos sentidos e o mundo criado pela poesia. Além disso, a linguagem surrealista faz grande uso de descontextualizações, esvazia-se um significante de seu significado para atingir novos e inusitados significados. Herança de Arthur Rimbaud, procuram o desregramento também das relações de significação para a emersão de uma nova linguagem. Há uma busca da expressão por meio de uma linguagem não-instrumental e uma associação de liberdade à ruptura do discursiva.
Em 1929, os surrealistas publicam um segundo manifesto e editam a revista A Revolução Surrealista. Entre os artistas ligados ao grupo em épocas variadas estão os escritores franceses, Antonin Artaud (1896-1948), também dramaturgo, Paul Éluard (1895-1952), Louis Aragon (1897-1982), Jacques Prévert (1900-1977) e Benjamin Péret (1899-1959), que viveu no Brasil. Entre os escultores encontram-se os italianos Alberto Giacometti (1901-1960), o pintor italiano Vito Campanella (1932), assim como os pintores espanhóis Salvador Dali (1904-1989), Juan Miró (1893-1983) e Pablo Picasso, o pintor belga René Magritte (1898-1967), o pintor alemão Max Ernst (1891-1976) e o cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983).
Nos anos 30, o movimento internacionaliza-se e influencia muitas outras tendências, conquistando adeptos em países da Europa e nas Américas, tendo Breton assinado um manifesto com Leon Trotski na tentativa de criar um movimento internacional que lutava pela total liberdade na arte - FIARI: o Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente.
Salvador Dalí e René Magritte criaram as mais reconhecidas obras pictóricas do movimento. Dalí entrou para o grupo em 1929, e participou do rápido estabelecimento do estilo visual entre 1930 e 1935.
O surrealismo como movimento visual, tinha encontrado um método: expor a verdade psicológica ao despir objetos ordinários de sua significância normal, a fim de criar uma imagem que ia além da organização formal ordinária.
Em 1932, vários pintores surrealistas produziram obras que foram marcos da evolução da estética do movimento: La Voix des Airs, de Magritte, é um exemplo deste processo, no qual são vistas três grandes esferas representando sinos pendurados sobre uma paisagem. Outra paisagem surrealista do mesmo ano é Palais Promontoire, de Tanguy, com suas formas líquidas. Formas como estas se tornaram a marca registrada de Dali, particularmente com sua obra A Persistência da Memória, na qual relógios de bolso derretem.

A Segunda Guerra Mundial provou ser disruptiva para o surrealismo. Os artistas continuaram com as suas obras, incluindo Magritte. Muitos membros do movimento continuaram a corresponder-se e a encontrar-se. Em 1960, Magritte, Duchamp, Ernst e Man Ray encontraram-se em Paris. Apesar de Dali não se relacionar mais com Breton, ele não abandonou os seus motivos dos anos 30, incluindo referências à sua obra "Persistência do Tempo" numa obra posterior.
O trabalho de Magritte tornou-se mais realista na sua representação de objetos reais, enquanto mantinha o elemento de justaposição, como na sua obra Valores Pessoais (1951) e Império da Luz (1954). Magritte continuou a produzir obras que entraram para o vocabulário artístico, como Castelo nos Pireneus, que faz uma referência a Voix de 1931, na sua suspensão sobre a paisagem. Algumas personalidades do movimento Surrealista foram expulsas e vários destes artistas, como Roberto Mattam continuaram próximos ao surrealismo como ele mesmo se definiu.


O surrealismo surge nos horizontes culturais portugueses a partir de 1936, "em experiências literárias «automáticas» realizadas por António Pedro e alguns amigos".[3] Em 1940 o mesmo António Pedro expõe com António Dacosta (e Pamela Boden): " A exposição reunia dezasseis pinturas de Pedro, dez de Dacosta e seis esculturas abstratas de Pamela Boden [...]. O surrealismo de que se falara até então vagamente, desde 1924, [...] irrompia nesta exposição, abrindo a pintura nacional para outros horizontes que ali polemicamente se definiam".[4]
Em 1947 Cândido Costa Pinto, que desde 1942 seguia uma linha estética surrealista, contacta, em Paris, com o recém-organizado Grupo Surrealista; André Breton sugere-lhe a organização de um grupo idêntico em Portugal. É deste desafio que irá nascer o "Grupo Surrealista de Lisboa".
"Vespeira, Fernando Azevedo, António Domingues e João Moniz Pereira, [...] os poetas Mário Cesariny de Vasconcelos, [...] Alexandre O'Neill e José Augusto França [...] constituíram o núcleo inicial do movimento aglutinado em Outubro de 1947 e que logo contou com a colaboração e animação de António Pedro. [...] O primeiro ato do grupo ainda em formação foi romper com Cândido Costa Pinto", por ter exposto uma pintura nas salas do SNI.[5]
A primeira e única exposição do grupo teve lugar em 1949. Participaram António Pedro, António Dacosta, Fernando Azevedo, Moniz Pereira, Vespeira, Alexandre O'Neill, e José Augusto França, além de dois Cadavre Exquis de Vespeira e Fernando Azevedo e outro, de grandes dimensões, de António Domingues, Fernando Azevedo, António Pedro, Vespeira, Moniz Pereira. A exposição foi motivo de escândalo e alvo de ameaças policiais. A primeira proposta de capa do catálogo, que pretendia inserir-se na campanha eleitoral de Norton de Matos (de oposição ao regime de Salazar), foi proibida pela censura. A iniciativa agitou o meio artístico lisboeta que, no mesmo ano e no seguinte, teve mais duas exposições da índole semelhante, realizadas por um grupo dissidente, Os Surrealistas, composto por Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Mário-Henrique Leiria, António Maria Lisboa, H. Risques Pereira, Fernando José Francisco, Pedro Oom, João Artur da Silva, Carlos Eurico da Costa, Fernando Alves dos Santos, António Paulo Tomaz, "com menor interesse plástico embora notável proposição poética".[3]
A exposição do Grupo Surrealista de Lisboa e as restantes, de Os Surrealistas, marcaram o fim do movimento, "ficando apenas os seus componentes em ações pessoais e isoladas".[3]
Vespeira e Azevedo prosseguiram, ao longo de 1950 e 1951, uma obra pictórica de qualidade, expondo em 1952 na Casa Jalco, ao Chiado: "uma exposição de «óleo, fotografia, guache, desenho, ocultação, colagem, linóleo» constituída por três «Primeiras exposições Individuais» de Fernando de Azevedo, Fernando de Lemos e Vespeira", e que os artistas dedicaram ao precursor do movimento, António Pedro.[6]
Os surrealistas usaram diferentes técnicas para ativar seu inconsciente, uma delas é o cadáver exquis (requintado cadáver), uma técnica baseada na aleatoriedade e na coralidade, que envolve a colaboração de vários artistas: um deles começa a operação traçando um desenho, uma figura, que deve ser ignorada pelos outros; a folha deve ser passada a todos os participantes, um por um, que por sua vez formarão uma figura e assim por diante.[7]
Outras técnicas frequentemente utilizadas pelos pintores desse movimento são:
Essas técnicas permitiram aos artistas liberar forças criativas cheias de sugestões e evocações, menos teóricas e mais inconscientes e espontâneas.[8]