terça-feira, 20 de junho de 2017

Claude Monet

Mestre em Artes Visuais (UDESC, 2010)
Graduada em Licenciatura em Desenho e Plástica (UFSM, 2008)
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Claude Monet é o principal e mais dedicado representante do movimento Impressionista. Sempre preferiu a pintura ao ar livre, não importando as condições climáticas, com a finalidade de capturar todos os efeitos da natureza. No início de sua carreira foi incompreendido, especialmente por sua família, resultando em dificuldades financeiras por anos. Somente por volta dos 40 anos de idade começou a vender seus quadros, morreu como um artista rico e consagrado.
Claude Monet, em 1899. Foto de Nadar (Gaspard-Félix Tournachon). / via Wikimedia Commons
Claude Monet, em 1899. Foto de Nadar (Gaspard-Félix Tournachon). / via Wikimedia Commons
Monet nasceu em Paris em 14 de novembro de 1840 e aos cinco anos mudou-se para Havre. Começou a pintar desde muito jovem o que lhe rendeu algum dinheiro vendendo caricaturas, com o dinheiro comprava materiais de pintura. Em 1858 conheceu Eugène Boudin, um pintor de paisagens que o encorajou a pintar ao ar livre. No ano seguinte mudou-se para Paris a fim de especializar suas técnicas. Nessa época Paris atraia os mais variados artistas do mundo e lá Monet conheceu Camille Pissarro e Manet entre outros artistas de vanguarda. Contrário ao desejo da família, Monet recusou-se a frequentar a Escola de Belas-Artes preferindo estudar no Atelier de Suisse, uma escola de postura mais livre que não adotava ensino formal. Assim Monet poderia dedicar-se ao que mais gostava a pintura ao ar livre. No entanto essa atitude lhe rendeu o corte de sua mesada, resultando em sérias complicações financeiras.
Nos anos que se seguiram Monet conheceu Camille Doncieux com que viria a ter dois filhos, Jean e Michel. Em 1879 Camille morreu de tuberculose.
Em 1861 foi convocado para servir o exército e defender a França na guerra. Após quase um ano na Argélia, Monet volta à França e retoma seus estudos ao ar livre, passando a estudar com Charles Gleyre. Em 1866, Monet expôs o retrato de Camille Doncieux em um Salão.
Em 1874 foi realizada em Paris a primeira exposição dos impressionistas, contando com obras de Monet, Renoir, Degas e Cézanne. O termo Impressionismo, deriva do quadro de Monet chamado Impressão, sol levante (1872). Em função da exposição um jornalista da época Louis Leroy atacou a obra de Monet num artigo intitulado “Exibição dos impressionistas” para o jornal Le Charivari.
Em 1880 Monet realiza sua primeira exposição individual, que foi um sucesso. O público começava a ver com bons olhos as pinturas impressionistas.
Monet passou por sérias dificuldades financeiras, porém tinha um fiel comprador de suas obras, o milionário Ernest Hoschedé. Anos mais tarde Monet viria a casar com a esposa do seu comprador, Alice Hoschedé, após ambos ficarem viúvos.
Em 1883 Monet mudou para Giverny e em 1892 casou-se com Alice, estabelecendo-se numa grande propriedade as margens do rio. Monet continuava seus estudos impressionistas e na década de 1890 pintou uma série da Catedral de Rouen em diferentes horários e pontos de vista, desde o amanhecer até o anoitecer. O jardim de sua residência em Giverny também foi inspiração para uma série de obras chamada Ninfeias.
Um dos pilares da pintura impressionista era retratar o que a mente concebe da paisagem em detrimento ao que olho humano vê. Nesse sentido Monet desenvolveu técnicas que o ajudariam a representar essa realidade. Usando pinceladas firmes e fragmentadas, por exemplo, Monet retratava a ondulação e os reflexos da água com genialidade.
No fim de sua vida Claude Monet sofreu com catarata o que afetou seu entusiasmo para continuar seus estudos. Monet morreu em 1926 e encontra-se enterrado no cemitério da igreja de Giverny.
Referências bibliográficas:
O mais dedicado impressionista. Disponível em: < http://mestres.folha.com.br/pintores/04/ >.
Os Grandes Artistas – romantismo e impressionismo: Degas, Toulouse-Lautrec, Monet. Editora Nova Cultura LTDA, São Paulo, 1991.

MONET

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sábado, 17 de junho de 2017

Das Artes.blogspot.com
 
Joseph Mallord William Turner, nasceu em Londres no ano de 1775 e foi um dos mais bem-sucedidos artistas do século 19. Desde garoto demonstrou inclinação à pintura fazendo desenhos que seu pai expunha na vitrina de sua barbearia. Já aos 12 anos como aprendiz do gravador John R. Smith, coloria gravuras obtendo noções de perspectiva e aquarela. Seu enorme talento abriu-lhe as portas da Royal Academy (1789), para se aperfeiçoar.

Aos 20 anos foi contratado por uma revista – Copper Plate Magazine – para fazer ilustrações. Seu trabalho consistia em viajar pelo interior da Inglaterra, retratando velhos castelos, abadias, catedrais e paisagens. Revelou-se excelente aquarelista, preocupado, sobretudo, com os efeitos de luz. 

Apesar do processo de urbanização da Inglaterra, consequência da Revolução Industrial, Turner continuou fiel às paisagens, característica que o consagrou como um dos últimos românticos ingleses. Em 1796, quando expôs suas primeiras paisagens a óleo, foi recebido com sucesso. Em 1799 foi eleito membro da Royal Academy. O sucesso deu-lhe condições para viajar à França e à Suíça, pintando paisagens locais.
Em 1804, construiu atrás de sua casa, na Harley Street uma galeria para expôr permanentemente suas obras, transferindo-a, depois, para a Queen Ann Street. Em 1804 foi nomeado professor da Royal Academy.

IMPRESSIONISTA

Trabalhava sempre seus esboços ao ar livre, mas coloria em casa, confiando em sua memória e valendo-se de anotações valiosas. Foi em 1819 que fez uma longa viagem pela Itália, quando se familiarizou com as obras de Canaletto. Dessa viagem surgiu uma nova fase, que se prolongou até 1840: a obsessão pela luz tomou conta de suas telas.

Turner não só mostrava apenas os detalhes do local em que retratava, mas em descrever as condições atmosféricas e como elas modificavam as cenas, causando impacto emocional no espectador.

Passou a pintar muito as marinhas ou paisagens com muita água, onde a luz podia se refletir. Mal compreendido pelos seus conterrâneos foi chamado de  O pintor do branco. É dessa fase a obra  Fragata Téméraire (1839), retratada no momento em que era rebocada. 

Nessa tela, ela é de cor prata, sobre um fundo de pôr de sol e com a imensidão do mar refletindo a cena. Porém a obra foi considerada vistosa, mas sem valor.
Solteirão, transferiu-se para Chelsea, sob o nome falso de Mr Booth, afim de afastar os inoportunos. Os vizinhos julgavam-no um velho marinheiro aposentado e meio louco. 

Suas telas passaram a se constituir de vibrações de luz e movimento; pintava cataclismos cósmicos e passou a interessar-se pelo conflito dos elementos. Os contemporâneos não o compreenderam, mas para os impressionistas era um mestre, que passava a impressão instantânea registrada pela retina.

O escritor e crítico de arte John Ruskin o defendeu quando seus conterrâneos só viam o negativo em suas obras. Em Os Pintores Modernos, obra publicada em 1843, Ruskin descreve:

A tempestade de neve como uma das maiores afirmações do movimento do mar, da névoa e da luz que jamais foram retratadas numa tela.

Morreu em Londres, em 1851, deixando ao patrimônio nacional toda a sua obra: cem telas acabadas, 182 inacabadas e mais de 19.000 desenhos e aquarelas. Para compor essa coleção chegou a recusar vultosas somas, pois achava sua obra muito importante para ficar em mãos particulares. Considerava-se um patrimônio artístico. Sempre que podia comprava trabalhos que vendera quando jovem, para legá-los à Nação.

Seu grande mestre, sua maior inspiração foi Claude Lorrain. Ao deixar suas obras à Nação, exigiu que em seu testamento duas de suas obras fossem sempre expostas ao lado de duas obras de Claude Lorrain.

Ficou visto como o grande compositor plástico da luz, do espaço, do vento e dos segredos. Entendia a linguagem secreta das tempestades e das ondas. Falava com o mar e com as nuvens. Calmarias, geadas, vendavais, nevascas, tudo se transformava de uma forma visionária, com contornos imprecisos dentro da imensidão dos espaços abertos, dos turbilhões da natureza. Nele a figura humana desaparecia.

Segundo sua vontade foi sepultado na Catedral de Saint Paul, ao lado de Sir Joshua Reynolds.

TURNER - O lamento do cão pela morte do dono no naufrágio -aguarela

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sábado, 3 de junho de 2017

O cerco de Leninegrado, Chostakovich, e a reescrita da história

Jenny Farrell    03.Jun.17    Outros autores
Sobe de tom a agressividade da NATO, que avança em direcção ao leste da Europa e instala no terreno um dispositivo militar com condições para desencadear uma acção de guerra de grande escala. Este texto recorda o horror da agressão nazi à URSS e o papel que não apenas o povo em armas mas também a cultura e a arte desempenharam na derrota do nazi-fascismo. A memória histórica dos povos é uma arma em defesa da paz.
A guerra-fria contra a Rússia – e anteriormente contra a União Soviética – continua. Inclui o apagamento da memória pública das muitas atrocidades cometidas pela Alemanha nazi sobre a população soviética e o heróico papel assumido por esta na derrota do fascismo.
Em 22 de Junho de 1941 a Alemanha invadiu a União Soviética. Daí resultou uma mortandade com proporções de holocausto: pereceram 25 milhões de soviéticos, mais de metade do total de mortos na Segunda Guerra Mundial.
Um dos mais horríveis actos de barbárie foi o bloqueio de Leninegrado pelos alemães. Por mais de 900 dias, de 8 de Setembro de 1941 a 27 de Janeiro de 1944, foram cortados todos os abastecimentos e o povo de Leninegrado foi sistematicamente condenado a morrer à fome. Morreu mais de um milhão de cidadãos de Leninegrado.
Avançamos rapidamente até Abril de 2017, quando um fatal ataque terrorista (realizado por grupos mais do que por Estados) tem lugar em S. Petersburgo (Leninegrado). Depois de ataques semelhantes em cidades da Europa Ocidental, e como expressão de solidariedade, a bandeira nacional alemã fora projectada sobre a porta de Brandeburgo, em Berlim. Mas desta vez isso não foi feito porque, segundo o presidente da câmara – nascido em Berlim Leste – S. Petersburgo não tem qualquer “relação especial” com Berlim. É possível que o branqueamento da história tenha feito com que nunca tivesse ouvido falar de Leninegrado.
O cerco de Leninegrado foi registado não apenas em livros mas também em música. O compositor Dmitri Chostakovich residia na altura em Leninegrado. Começou a trabalhar numa sinfonia imediatamente após o início do ataque, exprimindo as suas ideias sobre a vida soviética e sobre a capacidade do seu povo para derrotar os fascistas. É a sua Sétima Sinfonia, conhecida como Leninegrado.
Tem quatro andamentos. O primeiro é intitulado “Guerra” e inicia-se com música de carácter lírico descrevendo a pacífica vida na URSS antes da invasão fascista. Um solo de violino é interrompido pelo ressoar de um tambor distante e pelo “tema da invasão”, que é repetido doze vezes por um número crescente de instrumentos, aumentando sempre em volume e em estridência, criando um profundo sentimento de mal-estar. Tambores militares ritmam esta secção, que termina com um clamor de sofrimento e horror. Segue-se uma passagem mais calma – um solo de flauta, depois um fagote, chorando os mortos. O acompanhamento é fragmentado, exprimindo o lamento pela gente abatida. Dominam as dissonâncias.
No segundo andamento, “Memórias”, o ambiente muda para tempos mais felizes, algumas melodias de dança, embora uma nota de tristeza esteja também presente.
A música do terceiro andamento, “Largas extensões da nossa terra”, afirma o heroísmo do povo, o seu humanismo, e a grande beleza natural da terra russa. O andamento é um diálogo entre um coral, exprimindo a satisfação gerada pelo esplendor da terra pátria, e a voz solista, os violinos, exprimindo o tormento individua. Tanto o segundo como o terceiro andamento exprimem a convicção de Chostakovich de que “a guerra não destrói necessariamente os valores culturais.”
Chostakovich comentou acerca do andamento final, “Vitória”: “A minha ideia de vitória não é a de algo brutal; será melhor explicada como a vitória da luz sobre as trevas, da humanidade sobre a barbárie, da razão sobre a reacção.” O andamento inicia-se descrevendo, musicalmente, as pessoas trabalhando em tempo de paz, cheio de esperança e de felicidade, a que os tambores e armas de guerra se vão sobrepondo. A música marcha, luta, e resiste.
A vitória não chega facilmente. Chostakovich começa com o ressoar dos tímpanos que concluiu o terceiro andamento e acrescenta-lhe gradualmente outras vozes. A música evolui lentamente em direcção à sua conclusão, com fanfarras dos metais e o estrondo dos címbalos. Força o seu caminho até um brilhante dó maior – a tonalidade da vitória. Todavia, os acordes finais desta magnífica tonalidade contêm um som dolorido. O reconhecimento pleno da realidade, o inimaginável sofrimento da guerra, não permite que a sinfonia termine em simples triunfo.
Chostakovich compôs a maior parte da sinfonia na Leninegrado cercada. Vários meses após o início do bloqueio, e apesar das objecções que colocou, o governo soviético evacuou a família Chostakovich juntamente com outros artistas.
A Sinfonia Leninegrado foi tocada a 9 de Agosto de 1942 na sua cidade natal cercada. A partitura foi transportada por via aérea sobre as linhas nazis. A orquestra tinha apenas quinze músicos, mas foram traduzidos mais da frente de combate.
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A fotografia que ilustra este artigo é dessa ocasião.
Uma clarinetista que interveio nesta interpretação histórica, Galina Lelyukhina, recordou os ensaios: “Disseram na rádio que todos os músicos sobreviventes estavam convidados. Era muito difícil andar. Eu estava doente com escorbuto e doíam-me muito as pernas. A princípio éramos nove, mas depois chegaram mais. O maestro, Eliasberg, foi trazido de trenó, porque estava muito enfraquecido pela fome.”
A 9 de Agosto de 1942 a sala de espectáculos estava repleta, com as portas e janelas abertas para que os que estavam fora pudessem ouvir. A música foi transmitida por altifalantes nas ruas e na frente de combate, de forma a inspirar a nação inteira. O Exército Vermelho preveniu os planos alemães para impedir o acontecimento bombardeando antecipadamente o inimigo para assegurar as duas horas de silêncio necessárias para o concerto.
Uma sobrevivente do bloqueio, Irina Skripacheva, recorda: “Esta sinfonia teve em nó um enorme impacto. O ritmo induzia um sentimento de elevação, de voo…Ao mesmo tempo sentíamos o ritmo assustador das hordas alemãs. Foi inesquecível e esmagador.”
Setenta e cinco anos depois, tanques e tropas da NATO (alemãs incluídas), instaladas ao longo da fronteira ocidental da Rússia, preparam-se para a guerra.
■ A Sétima Sinfonia de Chostakovich, Leningrado, está disponível em Youtube.
Fonte: http://www.communistpartyofireland.ie/sv/10-leningrad.html

in ODiario.info

quinta-feira, 1 de junho de 2017

W.C.

Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.

Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma.

Armando Silva Carvalho, in 'Sentimento de um Acidental'

Morreu o poeta Armando Silva Carvalho

O poeta e tradutor Armando Silva Carvalho morreu hoje de manhã, nas instalações da Santa Casa da Misericórdia das Caldas da Rainha, vítima de doença prolongada, anunciou, em comunicado, a Porto Editora.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Curiosidades sobre a pintura “Figura na janela _ Salvador Dali

“Figura na janela”_ 1925 _ óleo sobre tela _ 103 x 75 cm
Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri, Espanha
Curiosidades sobre a pintura “Figura na janela” de Salvador Dali

Esta pintura de Salvador Dali, intitulada “Figura na janela”, tem interesse, por se tratar de uma das poucas obras de Dali, executada, segundo o cânone da escola e do estilo do movimento realista. Como se sabe, Dali ganhou uma enorme celebridade e um justo reconhecimento internacional com as suas arrojadas pinturas surrealistas, que não deixam ninguém indiferente. Ele levou a pintura ao limite da loucura, com a sua imaginação delirante, quase febril. São recorrentes, na sua pintura, os cenários fantasmagóricos e dantescos – autênticos pesadelos – que impressionam.
A mulher, retratada de costas, numa posição descontraída, é a irmã de Dali, Ana Maria Dali, que lhe serviu de modelo em algumas das suas obras.
A propósito desta pintura, reproduzo aqui o apontamento de um internauta,  LuDiasBH, que nos ensina a ver as suas significativas particularidades.
“No quadro, tudo denota movimento: os vincos nas cortinas feitos pelo vento,  assim como os ondulados do vestido da moça, os cachos de seus cabelos, a toalha branca no parapeito da janela e o mar encapelado. Ao fundo está o povoado, que se faz presente através de seu reflexo no vidro da janela aberta para dentro da casa, à direita.  Um barquinho à vela singra o mar, próximo ao povoado”.
Alexandre de Castro
2017 05 10
Este artigo encontra-se em: Alpendre da Lua http://bit.ly/2q6lBtj

sexta-feira, 21 de abril de 2017




Isso a que chamamos “Cultura”

Isso a que chamamos “Cultura”
A batalha das Ideias na produção de sentido
“O colonialismo ideológico acompanha sempre o colonialismo económico
e a libertação económica não é possível sem a libertação ideológica”
        Rodolfo Puiggros
A Cultura não é, em nenhuma das suas expressões, um ser imaculado nem intocável. A sua própria existência exige a presença da crítica como condição necessária e como motor do seu desenvolvimento histórico (especialmente hoje) quando chegamos ao ponto em que a palavra “Cultura” pode ser usada para significar quase todas as coisas. Umas vezes porque certos caprichos epistemológicos, nos seus debates cada vez mais escolásticos, cinzelam de bom grado a sua necessidade de chamar “Cultura” ao que não se atrevem a qualificar como Ideologia. Outras vezes porque se fundaram tradiçõesantropológicas, sociológicas ou filosóficas que se derramariam sobre generalidades (cada vez mais confusas) se não contassem com um conceito dique onde caiba tudo, incluindo a sua raiz de cultivo. Outras vezes ainda porque atrás – ou debaixo- da palavra “Cultura” podem camuflar-se ou esconder-se interesses de todo o tipo… – incluindo os mais retorcidos. Basta recordar as aventuras culturais da NATO.
  
 É muito importante manter aberto o debate sobre a Cultura e seus significados. “Cultura de massas”, “Cultura de Elite”, “Cultura Culinária”, “Cultura Indígena”, “Cultura Popular”… “antropologia cultural”, “políticas culturais”, “Indústrias Culturais”, “Narco cultura”… enfim, trata­-se hoje de um conceito faz-tudo que pode utilizar-se em qualquer momento para dar lustro retórico a um sem-número de actividades, intenções ou falácias. E o usuário  fica bem perante os auditórios mais diversos, bastando-lhe para isso invocar a Cultura que habitualmente é apresentada como um ente intocável.
Do cultivo dos campos passámos a cultivar o espírito e o século XVII inclinou o seu significado para o cultivo das faculdades intelectuais. Com a Ilustração a palavra “Cultura” tornou-se sinónimo de “Civilização” em oposição de classe ao conceito “barbárie”, em oposição de classe entre as forças da natureza e as forças da Cultura… actualização feita à medida da Grécia clássica na divisão artificial capitalista entre o trabalho físico e o trabalho intelectual. Nasce a ideia de que a Cultura é um instrumento de dominação expressa nas Belas Artes, nos lucros da burguesia. Só a classe culta produz “Cultura”, “saberes”, “progresso”, “razão”, “educação”.
Também o etnocentrismo se apoderou do conceito para modelar os imaginários coletivos ao serviço do consumismo de mercadorias como máximo ganho cultural permitido aos povos. Para cúmulo, isso a que se chama “Cultura” enverniza-se com a ideia do folclore em oposição – matizada – face ao iluminismo e ao romantismo e portanto não há “Cultura” mas “Culturas”. Mesmo com uma carga, não poucas vezes, racista. E chegamos a usar o conceito Cultura como sinónimo – reducionista – de organização de espectáculos, feiras e exposições.
E hoje somos dominados a nível planetário pela Cultura da Guerra (o comércio por outros meios), realidade esta camuflada por todos os Mass Media. O que, diga-se de passagem, nem sequer é uma novidade. Cinema, literatura, televisão, vídeo-jogos…  são hoje novos campos de disputa da luta de classes que (também) se trava com valores, condutas e com sinais… na cabeça e nos corações. É uma disputa de interesses, em sociedades divididas em colonizadores e colonizados, para ganhar o terreno dos imaginários onde se erguem os princípios, as ideias, os afectos… cenários da Batalha das Ideias, dos Gostos e dos Hábitos. Disputa antiga pelo domínio dos valores sociais, para pôr o mundo de pernas para o ar, para tornar invisíveis as coisas que realmente contam e impor-nos como valiosassó as mercadorias e a ideologia dominante. Claro que se trata de uma disputa edificada sobre mísseis, canhões, metralha e golpadas… cimentada com terrorismo financeiro, chantagem com investimentos e vampirismo bancário.
As suas armas estratégicas continuam a ser – entre outras – as Igrejas, o Estado Burguês, a Educação e os mass media… que desenvolvem formas diversas de violência psicológica planificada contra os povos, o aviltamento da dignidade, a criminalização das rebeldias, a situação de ameaça permanente e o amedrontamento como religião… É uma sequência de acções alienantes sistemáticas convertidas em Indústria do entretimentoe do prazer… é o sequestro dos jogos, do ludismo  necessário, do sentido do humor, das tradições colectivas e da identidade comum. É o sequestro do social nas garras do individualismo, é o reino da fadiga, a moral da extenuação, as privações e as carências daqueles que produzem a riqueza concreta. É a perversão da ternura nas garras do sentimentalismo lamechas; o parasitismo contra a solidariedade, contra a consciência de classe e contra a organização social transformadora.
Se o mundo é abalado pela crise prolongada do capitalismo, que na sua agonia depreda e mata tudo à sua passagem, a Nossa América foi muito em especial considerada “traspatio” onde o imperialismo  praticou todas as suas monstruosidades, que incluem a lista dos estragos terríveis causados pela ideologia da classe dominante… nem por isso vamos ficar calados. Não permaneceremos em silêncio, e muito menos hoje quando a guerra psicológica permanente, que o capitalismo desencadeia com as suas máquinas de guerra ideológica (radiofónicas, televisivas, impressas, digitais…) se traduziu em golpes de Estado, magnicídios e genocídios.
Não vamos emudecer perante a pressão quotidiana do consumismo febril, não ficaremos indiferentes ante a intoxicação dos povos com a mentalidade individualista. Não vamos evadir a nossa responsabilidade crítica face à manipulação dos gostos, dos valores sob as manias disfarçadas de “entretenimento”, noticiários, diversões, jogos e concursos…  mesmo quando disfarçados de escolas, institutos e universidades, tudo isto constituindo uma ofensiva servil à lógica do império para saquear e escravizar recursos naturais, mão-de-obra e a consciência dos povos.
Precisamos de blindagens para a esperança de  impulsionar uma grande Revolução Cultural a partir do melhor  que os nossos povos conquistaram em centúrias de lutas emancipadoras, em séculos de aprendizagens e como resultado de milhões de experiências teórico metodológicas. Num continente que foi submetido a barbaridades de todo o género; num continente que foi espezinhado por quase todos os impérios do planeta; num continente extraordinariamente rico em matérias-primas, heranças culturais e diversidades identitárias… num continente vitimado, com toda a impunidade, pela avidez colonialista de escravizar a consciência e a mão-de-obra dos seus povoadores, o desenvolvimento de uma grande Revolução Cultural para a integração – desde as bases – não só parece uma necessidade suprema, lógica e urgente… mas é sobretudo um acto de justiça social de primeira ordem. E não se pode dizer que uma tal Revolução não esteja, a seu modo e com as suas limitações, em marcha.
Revolução Cultural continental para entender cientificamente o cenário actual da disputa cultural e sonhar, objectivamente, com mudanças históricas verdadeiras. “Se não mudarmos as ideias, não mudamos nada”. Uma Revolução Cultural da Nossa América é, por necessidade, uma Revolução económica, social e política. Revolução alfabetizadora, uma Revolução ecológica, uma Revolução educativa, uma Revolução do habitat, uma revolução do trabalho… e, também, uma revolução artística, científica, comunicacional e ético-moral; em suma, uma Revolução também da produção dos Símbolos emancipadores… ou será nada.
Rebelión/Instituto de Cultura e Comunicação UNLA
Este artigo encontra-se em: as palavras são armas http://bit.ly/2pWsqfJ

segunda-feira, 17 de abril de 2017



Portugal – Alexandre O’Neill

Portugal
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!         *
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .
 
© 1965, Alexandre O’Neill
From: Poesias Completas
Publisher: Assírio & Alvim, Lisbon, 2000
ISBN: 972-37-0614-8
Este artigo encontra-se em: voar fora da asa http://bit.ly/2p89EFL

terça-feira, 4 de abril de 2017

Salvador Dali, um dos maiores pintores de todos os tempos

Salvador Dali, um dos maiores pintores de todos os tempos

Salvador Dali, um dos maiores pintores de todos os tempos, perseguiu, durante todo o seu percurso artístico, a ideia da transgressão, quer a transgressão temática, desconstruindo as narrativas mitológicas e as narrativas do mundo real, tal como as interpretamos, quer a transgressão formal, ao nível do estilo pictórico e ao nível da figuração, optando por agigantar até ao limite as personagens e todos os elementos físicos das suas composições. Repare-se, por exemplo, no efeito cinético, conseguido na pintura “A Tentação de Santo António”, em que o cavalo, desencabrestado, parece querer saltar para fora da tela.
Dali, tal como Picasso, inaugurou um novo conceito de pintura, que eu designo de surrealismo do fantástico ou, segundo alguns autores, do surrealismo metafórico. Também poderíamos dizer que Dali trabalhou na tela a alucinação, a loucura, a excentricidade e o assombro, numa tentativa de intimidar o espectador, obrigando-o a ser mais activo na observação e na interpretação da obra, já que, em relação ao passado, olhava-se para uma pintura, de uma forma mais passiva e tranquila, tal como se se observasse uma paisagem. Perante uma pintura de Dali, ninguém fica indiferente. Pela intensidade das cores e pela distorção e gigantismo das formas, e, também, pelo uso do plano da profundidade, que dá a sensação de não ter fim, Dali impressiona e cria tensões emocionais nos espectadores. Ele não é o pintor da estética harmoniosa. Na maioria dos seus trabalhos emerge uma tensão de violência e uma sensação de desequilíbrio, à beira do abismo.
Alexandre de Castro
2016 01 30
Este artigo encontra-se em: Alpendre da Lua http://bit.ly/2otVXAz

segunda-feira, 20 de março de 2017

TRECHO DE “BELEROFONTE” – Eurípedes

“O homem superior é o que permanece sempre fiel à esperança; não perseverar é de poltrões.”
(Grécia, Ática, 480-405 a. C.)
TRECHO DE “BELEROFONTE”
Quem disse alguma vez que há deuses lá nos céus?
Não há, não há, não há. Não deixem que ninguém,
mesmo crente sincero nessas velhas fábulas,
com elas vos engane e vos iluda ainda.
Olhai o que acontece, e dai a quanto digo
a fé que isto merece: eu afirmo que os reis
matam, roubam, saqueiam à traição cidades,
e, assim fazendo, vivem muito mais felizes
que quantos dia a dia pios são e justos.
Quantas nações pequenas, bem fiéis aos deuses,
sujeitas são dos ímpios com poder e força,
vencidas por exércitos que as escravizam.
E vós, se em vez de trabalhar rezais aos deuses,
e deixais de lutar para ganhar a vida,
aprendereis que os deuses não existem. Que
todas as divindades significam só
a sorte, boa ou má, que temos neste mundo.
Eurípedes
(Grécia, Ática, 480-405 a. C.)
Tradução
(in «Poesia de 26 Séculos»,
Antologias Universais, Edições ASA, 2002)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A “leiteira”, de Johannes Vermeer

 
A “leiteira”, de facto uma empregada de cozinha, é um dos quadros mais conhecidos de Vermeer, que terá sido pintada entre as datas de 1658 e 1661, e encontra-se em Amsterdão no Museu Rijks, onde já tive oportunidade de a ver.
Rembrandt e Vermeer são os pintores mais conhecidos desta época de ouro que foi o século XVII, na Holanda. Os quadros de Vermeer “são admirados pelas suas cores transparentes, composições inteligentes e brilhantes com o uso da luz”.
Na “leiteira”, uma mulher de trabalho que lhe marca as feições e as mãos, têm-se ao longo dos anos adivinhado intenções e pensamentos
Vermeer nunca saiu da sua terra-natal, Delft, onde morreu muito pobre em 1675. A viúva viu-se na contingência, para obter uma magra pensão, de vender os quadros que ainda estavam na sua posse ao conselho municipal. Depois da sua morte, Vermeer foi esquecido por os seus quadros terem sido dispersos com a suposta autoria de outros pintores para lhes aumentar o valor comercial. Só em 1866, W. Burger viria a revelar a autoria de 75 quadros, dos quais só restarão 45.
Via: antreus http://bit.ly/2kECt6k

terça-feira, 17 de janeiro de 2017


Só hoje conheci este génio, só hoje me foi possível extasiar com a sua obra. Para nos libertarmos da ignorância vamos abrindo janelas e desbravando caminhos, e nessa fuga somos por vezes obrigados a parar por instantes que seja, encandeados por clarões de génio.
 
 (Lágrimas de sangue)
(Ternura)
« Pelas crianças que morrem brincando
Pelos homens que desfalecem trabalhando
Pelos pobres que fracassam amando
Pintarei com gritos de metralha,
com potência de raio e com fúria de batalha.»
Guayasamin
Via: as palavras são armas http://bit.ly/2jDxfIw

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

1/01/2017 · por · in Cultura, Voar Fora da Asa
Carta
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo p’ra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
“Obra de preto sem jeito”
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois … e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum …
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.
Via: voar fora da asa http://bit.ly/2j1ZuRn

sábado, 7 de janeiro de 2017


PATER NOSTER
Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terre
Qui est quelquefois si jolie
Avec ses mystères de New York
Et puis ses mystères de Paris
Qui valent bien celui de la Trinité
Avec son petit canal de l’Ourcq
Sa grande muraille de Chine
Sa rivière de Morlaix
Ses bêtises de Cambrai
Avec son océan Pacifique
Et ses deux bassins aux tuileries
Avec ses bons enfants et ses mauvais sujets
Avec toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Eparpillées
Emerveillées elles-mêmes d’être de telles merveilles
Et qui n’osent se l’avouer
Comme une jolie fille nue qui n’ose se montrer
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Avec leurs tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
Avec les saisons
Avec les années
Avec les jolies filles et avec les vieux cons
Avec la paille de la misère pourrissant dans l’acier des canons.
Jacques Prévert
Via: voar fora da asa http://bit.ly/2hYF9iF