segunda-feira, 16 de abril de 2018

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Ideias para a luta na Cultura (I). História de uma devastação

O forte movimento de indignação de milhares de trabalhadores das profissões artísticas e da cultura ecoou nos ministérios, mas só uma política consequente porá fim à longa agonia da Cultura.
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Aspecto da manifestação de trabalhadores das profissões artísticas e da cultura no Rossio, em Lisboa, a 7 de Abril de 2018.
Aspecto da manifestação de trabalhadores das profissões artísticas e da cultura no Rossio, em Lisboa, a 7 de Abril de 2018.CréditosElsa / Manifesto em defesa da Cultura
Uma noite, em 2012, numa reunião pública do Manifesto em defesa da Cultura, um jovem pediu para falar. O debate era sobre as grandes questões da política cultural, nos tempos da intervenção da Troika em Portugal, e da necessidade de lhe fazer frente. O jovem queria tirar uma conclusão útil daquilo que lhe ia na cabeça. E perguntou:
«Tenho estado a ouvir-vos e preciso de saber o que fazer. Sou fotógrafo. Os meus pais emigram amanhã. Queria perguntar-vos: vale a pena ficar aqui?»
No final de 2012, o Teatro Fórum de Moura (TFM) era despejado da sua Sala da Salúquia, espaço em que tinha investido seis anos de trabalho árduo e recursos financeiros escassos. Com todo o material na rua, sem espaço próprio, acossado pelo empobrecimento daqueles que a ele se dedicavam, o TFM encerrou dois anos depois. A jovem companhia não tinha visto renovado o apoio público. Acabou assim a única companhia de teatro profissional do concelho de Moura.
Meses mais tarde, noutra cidade, Ana Oliveira, actriz, escreve uma carta a Cavaco Silva, abalando de comoção as redes sociais. Assim:
«Começo hoje o meu caminho de saída. E deixo para trás um país que premeia o trabalho com pedidos de sacrifícios, o esforço de uns com a opulência descarada da vida de outros, os sonhos com frustração e desespero. Deixo um país a lutar pelo futuro e levo comigo a mágoa de não ficar para a luta. Mas a minha vida já esperou de mais; o meu filho de dois anos já esperou demais, já deve demais. Viver neste país tem sido uma teimosia que, para mim, termina agora.»
No final de 2016, o Teatro da Cornucópia anunciava a sua morte. Não apenas por causa do financiamento — que sempre tinha tido — mas porque a política de apoio às artes impunha modelos de gestão incompatíveis com as necessidades da programação artística. Marcelo veio impante ao velório. O ministro da Cultura chegou esbaforido. Marcelo disse que o governo tinha de fazer alguma coisa. O governo não fez nada e Marcelo foi-se a medalhar futebolistas.
Este mês, com os resultados provisórios dos concursos quadrienais, ficámos a saber que, no Porto, o TEP, a Seiva Trupe, o Festival Internacional de Marionetes e o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica podem ser excluídos do financiamento. Em Coimbra, são eliminadas a Escola da Noite e O Teatrão. Cai o Teatro das Beiras, na Covilhã. Cai o Teatro Experimental de Cascais. O Festival de Teatro de Almada está em risco. O TAS e o Teatro Estúdio Fontenova saem da lista de estruturas apoiadas em Setúbal. Em Évora, fica sem apoio público o lendário CENDREV. Aliás, Évora e Coimbra ficam sem apoios. E estamos só a falar de teatro.
Na área dos cruzamentos disciplinares, estruturas com trabalho consolidado, como o CEM, o Circolando, o Chapitô, o festival Circular, a associação Saco Azul, a Cão Danado, a Real Pelágio e o Centro  para os Assuntos da Arte e da Arquitectura também estão entre as entidades que ficam sem apoio.
Na música, deixam de ter apoio a Banda Nova Sinfónica Portuguesa, a Orquestra de Câmara Portuguesa, a Fundação Cupertino de Miranda e o Sond'Art Electric Ensemble. Finalmente, nas artes visuais, podem deixar de contar com apoio público os Encontros de Fotografia de Coimbra.
Estes são apenas alguns exemplos que ilustram o estado a que isto chegou. O governo anuncia «repescagens» e «reforços», mas nada disso tem, no quadro do concurso, efeito jurídico. O mal está feito e a sua história é antiga.

A longa agonia da cultura

O movimento que agora se apresenta como uma erupção repentina e surpreendente de indignação, pela eliminação - ainda que provisória - de relevantes estruturas artísticas do mapa dos apoios públicos ás artes, tem na verdade raízes muito fundas numa história de quatro décadas. Esse movimento, de insatisfação, numa primeira fase, e de fúria, na fase que agora atravessamos, cresceu com a aceleração, sobretudo desde 2000, da continuada queda dos valores do Orçamento do Estado para a Cultura, acompanhando uma linha de desresponsabilização do Estado e de profunda pressão no sentido da mercantilização e privatização da política cultural e da Cultura.
Depois, a partir de 2008, por força dos efeitos da crise capitalista mundial no nosso país, as pessoas e as organizações da actividade cultural começaram a sentir o mesmo empobrecimento geral da população, mas com efeitos devastadores numa área particularmente débil e secularmente maltratada em Portugal. Baixos e incertos rendimentos, dívidas, incumprimento de pagamentos vários, aos bancos, à segurança social, ao fisco, a fornecedores, e penhoras foram o primeiro terramoto que determinou a destruição de estruturas e a redução de pessoas envolvidas nesta actividade, pela imensa precariedade dos vínculos, por desemprego, obrigando muita gente a emigrar. Os jovens deixam de ter lugar no destroçado tecido da actividade artística e cultural.
É um movimento de destruição invisível. Abate-se num primeiro tempo sobre estruturas pequenas e pessoas, ao nível local, e é tomado como azar dos tempos, sob a indiferença da comunicação social dominante.
Em 2010, o governo do PS inicia, com os PEC, os primeiros cortes de quase 40% nos apoios às artes já contratados e cancela o concurso para apoios pontuais. As restrições orçamentais também se reflectem nas autarquias locais, com sucessivas transferências de competências nos serviços públicos da educação, da saúde, dos transportes e outros, sem o correspondente reforço financeiro.
Em 2011, a Troika entra em Portugal a convite de PS, PSD e CDS. Segue-se um feroz ataque aos serviços públicos, aos rendimentos das pessoas e aos apoios públicos à cultura. A linha descendente desses apoios atinge um patamar em que já nada se salva, muito menos se constrói, mas em que tudo agoniza até à morte esperada.
Em 2015, a resistência popular, integrada por cada vez mais gentes e forças da Cultura, derruba finalmente o governo da Troika, sem que o PS se dê conta disso. A correlação de forças permite que o PS forme governo. Acompanha-o a pompa de um célebre casamento de António Costa com Joana Vasconcelos, no Mercado da Ribeira, que ofusca algumas almas. Mas para espanto de alguns o PS prosseguirá as linhas de força da política, antes chamada «de austeridade», agora designada «de dificuldade». O governo rejeita as propostas dos partidos à esquerda, nomeadamente a proposta do PCP de reforço de 25 milhões de euros nos apoios às artes. O PS recusa-se a recuperar e actualizar os valores de investimento de 2009, como prometia o seu programa eleitoral.
Favorecendo o grande poder económico, recusando renegociar a dívida externa, submetendo-se às linhas mais agressivas da política orçamental da União Europeia, com a obsessão do défice, salvando, na banca, prejuízos privados, entregando património, recursos e serviços públicos à exploração privada – de que são exemplo vergonhoso os contratos com as PPP –, o governo do PS retira recursos vultuosos do orçamento que podia investir em serviços públicos. Não atende ao estado calamitoso do tecido e da actividade cultural e não responde ao estado de emergência. Em vez de mudar de política e de encontrar os meios orgânicos, logísticos e financeiros para fazer face a essa emergência, concentra-se em resolver a quadratura do círculo: conceber modalidades de apoio às artes que distribuam com justiça e transparência um financiamento que não existe. Como não há dinheiro, não há justiça nem coerência. Fica a transparência do vazio e um monstro burocrático.
O modelo produziu os resultados conhecidos. Mas o que que apontamos ao modelo não são erros ou incompetência. A extrema burocratização das candidaturas não é uma falha. Os absurdos requisitos e critérios de cálculo não são uma falha. As avaliações e pareceres dos júris não são uma falha. Os atrasos na publicação dos resultados e nos pagamentos não são uma falha. São parte do roteiro: empurrar a actividade cultural para o mercado; desresponsabilizar o Estado do apoio às artes e à cultura em geral; condenar a «subsidio-dependência dos artistas»; fazer falhar os mecanismos do Estado, que deveriam constituir um serviço público de cultura; terminar com a noção democrática de direito à cultura, como coisa de todos os cidadãos, em todo o território nacional – os eixos da política de direita para o sistema público de apoio às artes.
Ter consciência desta duração é ter consciência de que os problemas na Cultura e nas Artes não resultam de acidentes de percurso, de incompetência, ou de personalidades – umas, bonecos de enfeitar, outras, tecnocratas de mérito. O processo de devastação do apoio público à Cultura e às Artes é um processo continuado, consistente e resulta de opções ideológicas e políticas.

Este é o primeiro de três artigos de opinião a serem publicados quinzenalmente. O próximo artigo será «1% por todos, todos por 1%»

terça-feira, 3 de abril de 2018


Quinze teses sobre arte contemporânea

Por Alain Badiou, via LacanianInk, traduzido por Leandro Machado e Daniel Fabre
As quinze teses sobre a arte contemporânea de Alain Badiou é a melhor manifestação das ideias do filosofo sobre as leis e protocolos da pratica artística atual. Da tese um à oito Badiou descreve as características gerais, nas seguintes avança e propõe o que seria o advento de uma nova ordem, calcada na arte “não-imperial”. O presente excerto é a transcrição de uma fala do autor no Centro de Desenho de Nova Iorque em dezembro de 2013. As teses acompanham o desenvolvimento do texto.

Acredito que todos possuam as 15 teses, o que é necessário, penso, para a conversa. Comentarei sobre as teses e vocês podem acompanhá-las. Penso que a grande questão sobre a arte contemporânea é sobre como não ser romântico. É a grande questão e extremamente complicada. Mais especificamente, a questão é como não ser um formalista-romântico.
Algo como a mistura entre o romantismo e o formalismo. De um lado, há o forte desejo por novas formas, sempre novas formas, um desejo que se expressa “infinitamente”. A modernidade é o desejo infinito por novas formas. Porém, por outro lado, há a obsessão com o corpo, com a finitude, com o sexo, com a crueldade, com a morte. A contradição oriunda da tensão entre a obsessão por novas formas e a obsessão pela finitude, corpo, crueldade, sofrimento e morte, é algo próximo à síntese entre formalismo e romantismo e é a corrente dominante na arte contemporânea. Todas as 15 teses possuem uma espécie de meta: como não ser formalista-romântico. Isto é, na minha opinião, a grande questão sobre a arte contemporânea.
Lombardi é um bom exemplo, e fico muito feliz de falar aqui hoje a noite. Podemos ver que há algo como uma demonstração, uma conexão, pontos de conexão. Temos algo como uma grande surpresa, porque Lombardi sabia de tudo isso antes dos fatos. Temos em algum lugar, um grande desenho sobre a dinastia Bush que é bastante profético, uma profecia artística, que é a criação de um novo conhecimento, e assim é algo realmente surpreendente de ver depois dos fatos. E é realmente a capacidade, a habilidade da arte de apresentar algo antes dos fatos, antes da evidência. Ele é algo calmo e elevado, como uma estrela. Você sabe, é mais como uma galáxia, veja, é como a galáxia da corrupção. Então, as três determinações estão mesmo nos trabalhos de Lombardi. E assim também está a criação de uma nova possibilidade de arte e uma nova visão de mundo, nosso mundo. Mas uma nova visão que não seja puramente conceitual, ideológica ou política, uma nova visão que tenha sua forma própria, que crie uma nova possibilidade artística. Algo que é um novo conhecimento do mundo deve ter uma nova forma, algo assim. Lombardi é realmente uma ilustração de minha fala aqui.
1. A arte não é o sublime descenso do infinito na finita abjeção do corpo e da sexualidade. Ela é a produção de uma série subjetiva infinita através dos meios finitos de subtração material.
Isto é uma sugestão de como não ser um romântico. Consiste na produção de um novo conteúdo infinito, de uma nova luz. Eu acho que é a própria finalidade da arte; produzir uma nova luz sobre o mundo por meio de uma condensação precisa e finita. Assim, deve-se mudar a contradição. A contradição hoje se dá entre o infinito do desejo por novas formas e a finitude do corpo, da sexualidade, e assim por diante. E a nova arte precisa mudar os termos desta contradição, colocando ao lado do infinito novos conteúdos, uma nova luz, uma nova visão do mundo, e ao lado da finitude, a precisão dos meios e a condensação. Assim, a primeira tese é algo como o reverso da contradição.
Subtração: a palavra subtração tem dois significados. Em primeiro lugar, não estar obcecado com a novidade formalista. Eu acho que é uma grande questão hoje, porque o desejo pela novidade é o desejo por novas formas, um desejo infinito por novas formas.
A obsessão por novas formas, a obsessão artística com a novidade, de crítica, de representação e assim por diante, não é realmente uma posição crítica sobre o capitalismo, porque o próprio capitalismo é a obsessão pela novidade e renovação perpétua de formas. Você tem um computador, mas no ano seguinte não é um verdadeiro computador, e você precisa de um novo. Você tem um carro, mas no próximo ano é um carro velho, algo como uma coisa velha e assim por diante.
Assim, é necessário notar que a completa obsessão por novas formas não é uma posição realmente crítica sobre o mundo como ele é. É uma possibilidade de que o desejo real, que é um desejo subversivo, seja o desejo de eternidade. Desejo por algo estável, algo que é arte, algo que está fechado em si mesmo. Eu não penso que seja bem assim, mas é uma possibilidade, porque a perpétua modificação das formas não é realmente uma posição crítica, por isso o desejo por novas formas é certamente algo importante na arte, mas o desejo pela estabilidade das formas também é algo relevante. E, eu acho que temos que examinar a questão hoje.
O segundo significado de subtração é não ser obcecado com a finitude, com a crueldade, com o corpo, com o sofrimento, com o sexo e com a morte, porque isso é apenas o oposto da ideologia da felicidade. Em nosso mundo há algo como uma ideologia da felicidade. Seja feliz, desfrute sua vida e assim por diante. Na criação artística muitas vezes temos o oposto desse tipo de ideologia expressa na obsessão de corpos em sofrimento, a dificuldade da sexualidade, e assim por diante. Não precisamos ficar nesse tipo de obsessão. Naturalmente, uma posição crítica sobre a ideologia da felicidade é uma necessidade artística, mas também é uma necessidade artística vê-la como uma nova visão, uma nova luz, algo como um mundo novo positivo. Assim, a questão da arte é também a questão da vida e nem sempre a questão da morte. Isso é um significado da primeira tese; temos de procurar uma criação artística que não esteja obcecada com a novidade formal, com crueldade, morte, corpo e sexualidade.
2. A arte não pode ser meramente a expressão de uma particularidade (seja étnica ou pessoal). A arte é a produção impessoal de uma verdade que é dirigida a todos. 
A grande questão aqui é uma questão de universalidade: existe, ou não existe, a universalidade da criação artística? Porque a grande questão hoje é a questão da globalização, a questão da unidade do mundo. A globalização nos propõe uma universalidade abstrata. A universalidade do dinheiro, a universalidade da comunicação e a universalidade do poder. Esse é o universalismo hoje. Assim, contra a universalidade abstrata do dinheiro e do poder, qual é a questão da arte, qual é a função da criação artística? É função da criação artística se opor, abstrair da universalidade apenas uma singularidade de particularidades, algo como ser contra a abstração do dinheiro e do poder, ou algo como uma comunidade contra a globalização e assim por diante? Ou, a função da arte é propor um outro tipo de universalidade? Isso é uma grande questão. O problema mais importante hoje é a principal contradição entre universalidade capitalista de um lado – universalidade do mercado, se quiser, de dinheiro e de poder e assim por diante – e singularidades, particularidades, o ser da comunidade. Essa é a principal contradição entre os dois tipos de universalidade. De um lado a universalidade abstrata do dinheiro e do poder, e do outro, a universalidade concreta da verdade e da criação. Minha posição é de que a criação artistica atualmente deveria sugerir uma nova universalidade, não para expresser apenas o ser ou a comunidade, mas que é uma necessidade da criação artistica nos propor, para a humanidade em geral, um novo tipo de universalidade, o nome que uso para isso é verdade. A verdade é apenas o nome filosófico para uma nova universalidade contra a universalidade forçada da globalização, a universalidade forçada do dinheiro e do poder, e nesse tipo de proposição, a questão da arte é uma questão muito importante, porque a arte é sempre uma proposição sobre uma nova universalidade, e a arte é um significado da segunda tese.
3. A arte é o processo de uma verdade, e essa verdade é sempre a verdade do sensível ou sensual, do sensível como sensual. Isso significa: a transformação do sensível em um acontecimento da Ideia.
Terceira tese. É apenas uma definição da universalidade da arte. O que é uma verdade artística? Verdade artística é diferente da verdade científica, de verdade política, de outros tipos de verdades. A definição é que a verdade artística é sempre uma verdade sobre o sensível, um esboço do sensual. Não é uma expressão sensível e estática. Uma verdade artística não é uma cópia do mundo sensível, nem uma expressão sensível estática. Minha definição é que uma verdade artística é um acontecimento da Ideia, dentro do próprio sensível. E, a nova universalidade da arte é a criação de uma nova forma de acontecendo da Ideia no sensível como tal. É muito importante entender que uma verdade artística é uma proposição sobre o sensível no mundo. É uma proposta sobre uma nova definição do que é a nossa relação sensível com o mundo, que é uma possibilidade de universalidade contra a abstração do dinheiro e do poder. Assim, se a arte parece muito importante hoje, é porque a globalização impõe a nós a criação de um novo tipo de universalidade, que é sempre uma nova sensibilidade e uma nova relação sensível com o mundo. E porque a opressão hoje é a opressão da universalidade abstrata, temos que pensar na arte juntamente com a direção da nova relação sensível com o mundo. Assim, hoje, a criação artística é uma parte da emancipação humana, não é um ornamento ou uma decoração. Não, a questão da arte é uma questão central, e é central porque temos de criar uma nova relação sensível com o mundo. Na verdade, sem arte, sem criação artística, o triunfo da universalidade forçada do dinheiro e do poder é uma possibilidade real. Portanto, a questão da arte hoje é uma questão de emancipação política, há algo político na arte em si mesma. Não há apenas uma questão de orientação política da arte, como foi o caso ontem, hoje é uma questão em si. Porque a arte é uma possibilidade real para se criar algo novo contra a universalidade abstrata que é a globalização.
4. Há necessariamente uma pluralidade de artes, e não importa como imaginamos os meios pelos quais as artes possam interagir, não há meio imaginável de totalizar essa pluralidade.
Esta tese é contra o sonho de totalização. Alguns artistas hoje estão pensando que há uma possibilidade de fundir todas as formas artísticas, é o sonho da multimídia completa. Mas não é uma ideia nova. Como você provavelmente sabe, era a ideia de Richard Wagner, a arte total, com fotos, música, poesia e assim por diante. O primeiro artista multimídia foi Richard Wagner.
E, eu acho que a multimídia é uma ideia falsa porque é o poder da integração absoluta e é algo como a projeção do sonho da globalização na arte. É uma questão da unidade da arte como a unidade do mundo, mas é uma abstração também. Então, precisamos criar novas artes e certamente novas formas, mas não com o sonho de uma totalização de todas as formas de sensibilidade. É uma grande questão ter uma relação entre a multimidia e as novas formas de imagens, de arte, que não seja o paradigma da totalização. Portanto, temos de ser livres desse tipo de sonho.
5. Toda arte desenvolve uma forma impura e a purificação progressiva da verdade artística e de sua exaustão.
8. O real da arte é impureza ideal concebida através do processo imanente de sua purificação. Em outras palavras, a matéria-prima da arte é determinada pelo início contingente de uma forma. A arte é a formalização secundária do advento de uma até então forma sem-forma.
Algumas palavras sobre as teses cinco e oito. A questão aqui é sobre o que é exatamente a criação de novas formas. É muito importante por causa do que eu disse antes sobre o desejo infinito de novas formas ser um problema na arte contemporânea. Temos que ser precisos sobre a questão das novas formas em si . O que é a criação de novas formas? Eu acredito que, na verdade, nunca há exatamente a pura criação de novas formas. Eu acho que é um sonho, como a totalização, a criação de novas formas absolutas. Na verdade, há sempre algo como a passagem de algo que não é exatamente uma forma para algo que é uma forma, e eu argumento que temos algo como uma impureza das formas, ou formas impuras, e purificação. Assim, na arte, não há exatamente a criação de formas puras – Deus criou o mundo, se você quiser – mas  há algo como uma purificação progressiva e a complexificação das formas, em sequência.
Dois exemplos, se desejar. Quando Malevich pinta o famoso “Quadrado negro sobre fundo branco”, o quadro branco no quando branco. Perguntamo-nos: Isso é a criação de algo? Em certo sentido, sim, mas, na verdade, é a purificação completa do problema da relação entre forma e cor. Na verdade, o problema da relação entre forma e cor é uma longa e velha história, no “quadrad negro sobre fundo branco”, temos a purificação final da história do problema e também de sua criação, mas também de seu fim, porque depois de “Quadrado negro sobre fundo branco” existe, em certo sentido, nada, então, não podemos continuar. Portanto, temos uma purificação completa de maneira que depois de Malevich toda a correlação entre forma e cor parece velha, ou impura, mas isso é também o fim da questão, e nós temos que começar alguma outra coisa. Podemos dizer que com a criação artística, não é exatamente a pura criação de novas formas – algo parecido com o processo de purificação, com começos e fins. Então, temos sequências de purificação, muito mais do que a pura ruptura da pura criação. E esse é o conteúdo de teses cinco e oito.
6. O sujeito de uma verdade artística é o conjunto de trabalhos que o compõe.
7. Essa composição é uma configuração infinita, que, em nosso contexto artístico contemporâneo, é uma totalidade genérica.
9. A única máxima da arte contemporânea é de não ser imperial. Isso também significa: ela não precisa ser democrática, se democracia implica em conformidade cm a ideia imperial de liberdade política.
Chegamos agora às teses seis, sete e nove. A questão aqui é: o que exatamente é a existência subjetiva da arte? Qual é o sujeito na arte, o sujeito no sentido subjetivo? É uma grande discussão, muito antiga. Qual é o sujeito na arte? Quem é o agente da arte? O sujeito da arte não é o artista. É uma tese antiga também, mas muito mportante. Então, se você acha que o sujeito real na criação artística é o artista, você está postulando a criação artística como a expressão de alguém. Se o artista é o sujeito, a arte é a expressão desse sujeito, e assim, a arte é algo como uma expressão pessoal. Na verdade, é necessário para a arte contemporânea argumentar que a arte é uma expressão pessoal, porque não há possibilidade de criar uma nova forma de universalidade, e apenas se opõe à forma abstrata de universalidade, a expressão de si ou expressão de uma comunidades.
Então, a conclusão é bem simples. A existencia subjetiva da arte são os trabalhos de arte, nada mais. O artista não é o agente subjetivo da arte. O artista é a parte sacrificial da arte. Ele é também, por fim, desaparece na arte. E a ética da arte é aceitar o seu desaparecimento. Às vezes, o artista é alguém que quer aparecer, mas isso não é uma coisa boa para a arte. Para a arte, se você quiser que a arte tenha a importante função da criação de uma nova universalidade, se você acredita que a arte é algo como uma expressão subjetiva para o mercado, é necessário que o artista tenha uma grande aparência, naturalmente, mas se a arte é a criação – a secreta criação, ou algo assim – se a arte não é algo do mercado, mas é algo contra a força da universalidade do mercado, a consequência é que o artista deve desaparecer, e não ser alguém que aparece na mídia e assim por diante. E uma crítica da arte é algo como uma crítica de algo como o desespero. Se a ética da arte é algo como desespero, é porque o que aparece são obras de arte, que são a existência subjetiva real da arte em si.
Há a mesma questão na tese nove. Eu não comento se a questão da ética na arte e sobre não ser imperial. Desespero por operação é sempre algo como operação imperial, porque a lei da operação é lei imperial hoje.
10. Arte não-imperial é necessariamente arte abstrata, nesse sentido: ela abstrai a si mesma de toda particularidade e formaliza esse gesto de abstração.
11. A abstração de arte não-imperial não está preocupada com nenhuma audiência publica ou particular. Arte não-imperial esta relacionada a um tipo de ética aristocrático-proletária: Sozinha, ela faz o que diz, sem distinguir entre os tipos de gente.
Sobre as teses dez e onze, eu penso que nós podemos demonstrar que a arte imperial é nome do que é visível hoje. Arte imperial é exatamente romântico-formalista. Essa é uma tese histórica, ou uma tese política, se quiser. A mistura de romantismo e formalismo é exatamente a arte imperial. Não só hoje, mas, por exemplo, durante o Império Romano também. Há algo em comum entre a situação atual e a situação no final do Império Romano. É uma boa comparação, veja você – mais precisamente entre os Estados Unidos e o Império Romano -, há algo muito interessante com esse tipo de comparação, e, no entanto, a questão é também uma questão de criação artística, porque no final do Império Romano nós tínhamos exatamente duas disposições sobre criação artística. De um lado, algo realmente romântico, expressivo, violento, e, do outro, algo extremamente formalista, politicamente correto. Por quê? Quando lidamos com a situação de algo como um império, algo como ter a unidade formal do mundo se você preferir, não é apenas os Estados Unidos, é no fim os grandes mercados. Quando temos algo como a unidade potencial do mundo, temos na criação artística algo como uma mistura de formalismo e romantismo.
Por quê? Porque quando temos um império, temos dois princípios. Primeiro, tudo é possível porque temos uma grande potência, a unidade do mundo. De modo que podemos dizer que tudo é possível. Podemos criar novas formas, podemos falar de tudo, não há de fato leis sobre o que é possível, então tudo é possível. No entanto, também temos outra máxima, tudo é impossível, porque não há mais nada para ter, o império é a única existência possível, a única possibilidade política. Então, você pode dizer que tudo é possível e que tudo é impossível, e quando ambas são ditas você tem uma criação artística: o formalismo, ou seja, tudo é possível, novas formas são sempre possíveis, e romantismo e niilismo porque tudo é impossível, sendo que, no fim, temos a mistura dos dois, de maneira que a arte contemporânea está dizendo que tudo é possível e que tudo é impossível. A impossibilidade de possibilidade e a possibilidade de impossibilidade. Esse é o conteúdo real da arte contemporânea. Para escapar desse tipo de situação é necessário afirmar que algo é possível, nem tudo é possível e que nem tudo é impossível, mas que outra coisa é possível. Existe a possibilidade de outra coisa. Então, temos que criar uma nova possibilidade.
No entanto, criar uma nova possibilidade não é a mesma coisa que perceber uma nova possibilidade. É uma distinção fundamental, perceber uma possibilidade é pensar que a possibilidade está aqui e que eu preciso conceber a possibilidade. Por exemplo, se tudo é possível, eu tenho que perceber alguma coisa, porque todas as coisas são possíveis, mas, naturalmente, é uma coisa muito diferente de criar algo possível. A possibilidade não está aqui. Então, não é verdade, que tudo é possível, algumas coisas não são possíveis, e você tem que criar a possibilidade daquela coisa que não é possível. E essa é a grande questão da criação artística. Criação artística é a realização de uma possibilidade ou a criação artística é a concepção de uma nova possibilidade? A possibilidade de alguma coisa, a possibilidade de dizer que algo é possível.
Se você acredita que tudo é possível (que é o mesmo que pensar que tudo é impossível), a sua convicção no mundo está acabada, o mundo é algo fechado. É fechado com todas as possibilidades, o que é a mesma coisa que tudo ser impossibilidades e a criação artística está fechada também, fechada no formalismo-romântico que é a afirmação de que tudo é possível e tudo é impossível. Mas a verdadeira função da criação artística hoje é a possibilidade de dizer que algo é possível, de modo a criar uma nova possibilidade. Mas onde podemos criar uma nova possibilidade quando algo é impossível? Porque nós podemos criar uma nova possibilidade quando algo não é uma possibilidade. Se tudo é possível, você não pode criar uma nova possibilidade. Assim, a questão de uma nova possibilidade é também a questão de algo impossível, por isso temos que assumir que não é verdade que tudo é possível, mas que também não é verdade que tudo é impossível, temos então que dizer que algo é impossível onde algo é impossível. Eu tenho que criar uma nova possibilidade.
E, eu acho que a criação de uma nova possibilidade é a grande função da arte hoje. Em outras atividades de circulação, comunicação, o mercado e assim por diante, temos sempre a percepção de possibilidades, infinita percepção de possibilidades. Mas não a criação da possibilidade. E por isso é também uma questão política, porque a política significa realmente a criação de uma nova possibilidade. Uma nova possibilidade de vida, uma nova possibilidade de mundo. E assim, a determinação política da criação artística é hoje sobre quando é possível, ou impossível, criar uma nova possibilidade. Na verdade, a globalização leva a convicção de que é absolutamente impossível criar uma nova possibilidade. E o fim do comunismo e o fim da política revolucionária é, de fato, a interpretação dominante disso: é impossível criar uma nova possibilidade. Não perceber uma possibilidade, mas  criar uma nova possibilidade. Você entende a diferença. E eu acho que a questão da criação artística encontra-se aqui. Isso prova para todos, para a humanidade em geral, que é a possibilidade de criar uma nova possibilidade.
12. Arte não-imperial deve ser tão rigorosa como uma demonstração matemática, tão surpreendente como uma emboscada na noite, e tão elevada como uma estrela.
Sobre a décima segunda. É uma tese poética. As três determinações da criação artística, para comparar a criação artística com uma demonstração, com uma emboscada na noite e com uma estrela. Você pode entender as três determinações. Por uma demonstração? Porque, finalmente, a questão da criação artística é também a questão de algo estranho, algo que possui uma espécie de eternidade, algo que não está em comunicação pura,  circulação pura, algo que não está na modificação constante das formas. Algo que resiste. E resistência é também uma questão de arte hoje. Algo que resiste é algo dotado de uma certa estabilidade, sólido. Algo que é uma equação lógica, que tem uma coerência lógica, consistência, é a primeira determinação. A segunda determinação é algo surpreendente, algo que é de imediato a criação de uma nova possibilidade, mas uma nova possibilidade é sempre surpreendente.
Não podemos ter uma nova possibilidade sem algum tipo de surpresa. Uma nova possibilidade é algo que não podemos calcular. É algo como uma ruptura, um novo começo, que é sempre algo surpreendente. Dessa forma, é maravilhoso, como algo no meio da noite, a noite do nosso conhecimento. Uma nova possibilidade é algo absolutamente novo para o nosso conhecimento, por isso é a noite do nosso conhecimento. Algo como uma nova luz. Elevado como uma estrela, porque uma nova possibilidade é algo como uma nova estrela. Algo como um novo planeta, um novo mundo, porque é uma nova possibilidade. Algo como uma nova relação sensível com o mundo. Mas o grande problema esta em outro lugar. O problema formal da arte contemporânea não é a determinação, uma a uma. O problema é como relacionar as três. Ser a estrela, a emboscada e a demonstração. Algo assim. Lombardi é um excelente exemplo, eu estou muito satisfeito em falar aqui nesta noite. Podemos ver que há algo como uma demonstração, uma conexão, pontos de intersecção. Temos algo surpreendente, porque Lombardi sabia de tudo isso antes dos fatos. Temos em algum lugar um excelente desenho sobre a dinastia Bush realmente profético, uma profecia artística, que é a criação de um novo conhecimento. Então é surpreendente ver isso depois dos fatos. E é realmente a capacidade, a habilidade da arte de apresentar algo antes dos fatos, antes das evidências. E é algo calmo e elevado, como uma estrela. Vocês sabem, é como a galáxia, como a galáxia da corrupção. Então, as três determinações realmente estão nesses trabalhos de Lombardi. É a criação de uma nova possibilidade de arte e uma nova visão de mundo, nosso mundo. Mas uma nova visão que não é puramente conceitual, ideológica ou política, mas uma nova visão que tem sua forma própria, que cria uma nova possibilidade artística, algo que é um novo saber do mundo tem uma nova forma, como essa. Lombardi é uma excelente ilustração da minha palestra.
13. Hoje em dia a arte pode apenas ser feita do ponto de inicio que, até que interesse a Império, não existe. Através de sua abstração, a arte torna essa inexistencia visivel. Isso é o que governa o principio forma de toda arte: o esforço de tornar visivel para todos o que para o Império (e também por extensão para todos, porém de um ponto de vista diferente) não existe.
14. Uma vez que ele está certo de sua habilidade de controle de todo o domínio do visível e do audível pelas leis que governam a circulação comercial e comunicação democrática, o Império não precisa censurar nada. Toda arte, e todo pensamento, estão arruinados quando se aceita essa permissão de consumir, de comunicar e de aproveitar. Deveriamos nos tornar os censores impiedosos de nós mesmos.
15. É melhor não fazer nada do que contribuir para a invenção de modos formais de tornar visível o que o Império já reconhece como existente.
As últimas tese. Eu acho que a grande questão é a correlação entre arte e humanidade. Mais precisamente a correlação entre criação artística e liberdade. A criação artística é algo independente no sentido democrático de liberdade? Eu acho que se você considerar Lombardi, pela segunda vez, podemos considerar a questão da criação de uma nova possibilidade não exatamente como uma questão de liberdade, no senso comum, porque há uma definição imperial de liberdade hoje, que é a definição democrática comum. A criação artística é algo parecido com esse tipo de liberdade? Eu acho que não. Eu acho que a verdadeira determinação da criação artística não é o senso comum de liberdade, o sentido imperial da liberdade. É a criação de uma nova forma de liberdade. E podemos ver aqui esse tipo de coisa, porque a conexão entre o quadro lógico, a surpresa de novos conhecimentos, e a beleza da estrela é uma definição de liberdade que é muito mais complexa do que a determinação democrática da liberdade.
Eu penso da criação artística como a criação de um novo tipo de liberdade, que está além da definição democrática de liberdade. E podemos falar de algo como uma definição artística da liberdade que é intelectual e material, algo como o comunismo dentro de um quadro lógico, porque não há liberdade sem estrutura lógica, algo como um novo começo, uma nova possibilidade, uma ruptura e, finalmente, algo como um novo mundo, uma nova luz, uma nova galáxia. Esta é a definição artística da liberdade e a questão hoje não consiste em uma discussão de arte entre liberdade e ditadura, entre liberdade e opressão, mas na minha opinião, entre duas definições da própria liberdade.
A questão artística do corpo em algumas formas de arte, como o cinema ou dança, é precisamente a questão do corpo dentro do corpo e não do corpo sem corpo. É uma concepção idealista do corpo sem o corpo ou do corpo como qualquer coisa, crucial na história do cristianismo e em Paulo. Por exemplo, na pintura clássica grega o corpo é sempre algo mais do que o corpo, e se você considerar algo como o corpo em Tintoretto, por exemplo, o corpo é algo parecido com o movimento que é corpo como algo mais do que o corpo. Mas, de fato, hoje em dia, o corpo tem um corpo, o corpo no corpo é o corpo como tal. E o corpo, como tal, é algo muito difícil, porque o corpo não tem representação que é realmente uma representação como uma estrela, algo assim. Nesse tipo de pintura (Lombardi), temos nomes, e nenhum corpo. É uma substituição de nomes por corpos. Nós não temos nenhuma foto de Bin Laden, mas o nome de Bin Laden. Nós não temos nenhuma Imagem de Bush, mas o nome de Bush. Pai e filhos.