sábado, 14 de julho de 2018

Separando a erva dos prados – Walt Whitman


Separando a erva dos prados.
Separando a erva dos prados, aspirando o seu raro aroma,
Dela reclamo a espiritualidade,
Exijo o mais íntimo e abundante companheirismo entre os homens,
Peço que ergam as suas folhas, as palavras, actos, seres,
Esse de límpidos ares, rudes, solares, frescos, férteis,
Esses que traçam o seu próprio caminho, erectos e livres avançando, conduzindo e não conduzidos,
Esses de indomável audácia, de doce e veemente carne sem mácula,
Esses que olham de frente, imperturbáveis, o rosto dos presidentes e governadores como se dissessem Quem és tu?
Esses de natural paixão, simples, nunca constrangidos, insubmissos,
Esses de dentro da América.
Tradução de José Agostinho Baptista.
Um dos poemas de Cálamo
Parte de uma carta de Walt Whitman ao seu editor inglês William Rosseti, em 1867. “Cálamo é uma palavra corrente. Trata-se da erva ou juncácea aromática de grande porte que cresce nas zonas pantanosas dos vales, cujo caule mede quase um metro de altura;…

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Charles-Pierre Baudelaire, percursor do simbolismo e da poesia moderna, 1821-1867

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Spleen

Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães
Obtido em Wikisource
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quinta-feira, 28 de junho de 2018

breve história da poesia moderna e pós-moderna

VICTOR HUGO (1802-1885)


O sol adormeceu esta tarde nas nuvens…

O sol adormeceu esta tarde nas nuvens.
Amanhã hão de vir borrasca e tarde e noite;
A aurora e seus clarões de vapor obstruídos;
Depois noites e dias, todo o tempo eterno.
Passarão estes dias – passarão em turba
Sobre a face do mar, sobre a face dos montes,
Sobre os rios de prata e o bosque em rola
Como um hino confuso de mortos que amamos.
Como a face das águas e a fronte das montanhas.
Enrugadas e moças, e os bosques sempre verdes
jovens serão; e o rio das campinas
Traz dos montes o fluxo que oferece aos mares.
Mas eu que cada vez mais curvo a minha fronte,
Eu passo e estimulado pelo sol alegre.
Logo mais partirei, bem no meio da festa,
E sem que nada falte ao mundo imenso e belo.
.
Le soleil s’est couché ce soir dans les nuées…
Le soleil s’est couché ce soir dans les nuées.
Demain viendra l’orage, et le soir, et la nuit ;
Puis l’aube, et ses clartés de vapeurs obstruées ;
Puis les nuits, puis les jours, pas du temps qui s’enfuit !
Tous ces jours passeront; ils passeront en foule
Sur la face des mers, sur la face des monts,
Sur les fleuves d’argent, sur les forêts où roule
Comme un hymne confus des morts que nous aimons.
Et la face des eaux, et le front des montagnes,
Ridés et non vieillis, et les bois toujours verts
S’iront rajeunissant; le fleuve des campagnes
Prendra sans cesse aux monts le flot qu’il donne aux mers.
Mais moi, sous chaque jour courbant plus bas ma tête,
Je passe, et, refroidi sous ce soleil joyeux,
Je m’en irai bientôt, au milieu de la fête,
Sans que rien manque au monde, immense et radieux!
– Victor Hugo, em “Obras completas. Victor Hugo”. [tradução Jamil Almansur Haddad]. São Paulo: Editora das Américas, 1960.

sábado, 23 de junho de 2018

“CANTO DE MIM MESMO 23” – Walt Whitman


“CANTO DE MIM MESMO”
23
Infinito desdobrar de palavras antigas!
Minha é a palavra da modernidade, a palavra Massas.
Palavra da fé que nunca desilude,
Hoje ou amanhã, para mim é tudo o mesmo, aceito o tempo, aceito-o absolutamente.
Só ele não tem faltas, só ele circula e completa tudo,
Só essa ilusória maravilha mística completa tudo.
Aceito a Realidade e não me atrevo a questioná-la,
O materialismo é a minha inspiração primeira e última.
Viva a ciência positiva! Longa vida à demonstração exacta!
Tragam-me a erva-pinheira com ramos de cedro e lilases,
Este é o lexicógrafo, este é o químico, este elaborou uma gramática com as inscrições antigas.
Estes marinheiros conduziram o navio por ignotos e perigosos mares,
Este é o geólogo, este maneja o bisturi, e este é um matemático.
Meus senhores, para vós sempre os primeiros louvores!
O vosso saber é útil, mas aí não consta a minha morada,
Por aí não faço mais do que entrar numa parte da minha morada.
Mais do que sinais daquilo que foi declarado,
As minhas palavras representam a vida por declarar, a liberdade e a revelação,
Aludem aos eunuco e assexuados, mas elegem os homens e mulheres por inteiro dotados,
E fazem soar os tambores da revolta, e acompanham fugitivos e conspiradores.
(Tradução de José Agostinho Baptista)
[Biblioteca editores Independentes – BI.045]
23
Endless unfolding of words of ages!
And mine a word of the modern, the word En-Masse.
A word of the faith that never balks,
Here or henceforward it is all the same to me, I accept Time absolutely.
It alone is without flaw, it alone rounds and completes all,
That mystic baffling wonder alone completes all.
I accept Reality and dare not question it,
Materialism first and last imbuing.
Hurrah for positive science! long live exact demonstration!
Fetch stonecrop mixt with cedar and branches of lilac,
This is the lexicographer, this the chemist, this made a grammar of the old cartouches,
These mariners put the ship though dangerous unknown seas.
This is the geologist, this works with the scalpel, and this is a mathematician.
Gentlemen, to you the first honors always!
Your facts are useful, and yet they are not my dwelling,
I but enter by them to an area of my dwelling.
Less the reminders of properties told my words,
And more the reminders they of life untold, and of freedom and extrication,
And make short account of neuters and geldings, and favor men and women fully equipped,
And beat the gong of revolt, and stop with fugitives and them that plot and conspire.
Walt Whitman
Este artigo encontra-se em: voar fora da asa http://bit.ly/2yyGHIN